Nós, portugueses, somos um povo feliz. Não nos falta nada. Vivemos nadando num mar de rosas. Todos os dias, acordamos e adormecemos ao som das belíssimas decisões tomadas pelos nossos governantes que caem sobre nossas cabeças, quais raios de esperança, de alegria, de vontade de viver, orgulho de ser português. E porquê? Porque todos eles trabalham exclusivamente “A BEM DA NAÇÃO”
É óbvio que sem nada para nos entediar, satisfeitos, problemas à margem, ficamos quais crianças mimadas, que, tendo tudo, procuram com afã algo diferente, o absurdo, o impossível, aquilo que nem ao diabo lembra. Só para chateação dos pais que os abarrotam de coisas, coisinhas, coisetas, inúteis.
Assim nós, os adultos. Entupidos de tudo, povo rico, povo sem ( pobremas ) cansados com tantos teres e haveres, procuram de vez em quando preencher o buraco vazio dos neurónios falecidos. Foi assim que alguém, com alma de génio, pensou no acordo ortográfico. Este acordo tinha o fim de ser feito entre países que antigamente estiveram sob o domínio português ( achados) mas que hoje, já sem canga, estão nas tintas para nós, continuando a escrever à sua maneira, sem tencionar mudar um milímetro. Ora leiam por exemplo o GLOBO e aprendam.
Nós, eternos perdedores, fingindo- nos simpáticos, bajulando, armados em macaquinhos de imitação, para acordar ou concordar começamos por suprimir letras. Fora os c. Fora os hífens. E por aí. Esqueceram de plantar os acentos circunflexos. Nem cheguei a saber se retiraram os tracinhos do pão de ló. Também nunca entendi a razão de só haver tracinhos naquele pão. E os outros?
Bem, o acordo acabou por ser (acordo a solo). E nós ficámos escrevendo à Lula da Silva. E falando. Diga-se de passagem que Lula da Silva foi coerente. Sendo presidente continuou metalúrgico. Talvez não intencionalmente porque nunca conseguiu o tal bom ar, que vem do berço. E esse bom ar é uma coisa que nasce com a pessoa. Ela pode tornar-se rica, famosa, importante, mudar de farpela, mas se nasceu com mau ar, vai morrer com ele.
Como sempre fomos um povo complicado, agora andam às turras com o acordo, ansiosos por dar uma reviravolta na brincadeira. Pensem antes em aprender uns caracteres mais simples e concordem com os chineses. É o que está a dar. E, se acham que isto não é um bom conselho, peguem num mapa, olhem para aquela miséria de rectângulo lá na costa ocidental da Europa ( pequeno, pobre, parvo) e concordem que não tem categoria para fazer acordos com ninguém e vice- versa.
Somos pequenos e medricas. Herança talvez daquelas tormentas dos cabos. Ninguém normal é capaz de entender o estardalhaço que a gramática portuguesa faz na cabeça de qualquer mortal.
Ora, começando pelos plurais, lá vem a complicação. Seria simples acrescentar à palavra um s, como no caso de irmão-irmãos; grão-grãos. Mas não. Lá vem a borrada: leãoleões; cão-cães; limão-limões; capitão-capitães. E por que não leãos, cãos, limãos, capitãos. Ou então irmões e grões! E rua com os latinórios e analogias!
E os coitados que terminam em al como oficial, carnaval ,festival e por aí. Tem que passar pelo vexame de jogar fora o l, adquirir um i para receber o triste s.
E aqueles inocentes que carregam atrás a palavra guarda do verbo guardar, não apanham plural no guarda ex: guarda-pó , guarda-fato, guarda-lama. Ficam em desvantagem com o seu homónimo substantivo que tem direito a plural ex : guarda-municipal.
Há os que nascem no plural. São a fina flor dos plurais. Os jet set! Ninguém ousa tocar-lhes ex: lápis, pires, ourives, etc.
Dos verbos nem falo por hoje. Não haveria espaço. Mas eles, os verbos são um autêntico atentado à nossa inteligência. Falarei noutra ocasião. Só um cheirinho. Verbo trazer (com z) . Aí aparece o trago-o trazia-o trouxera. Curioso que… eu trago… mas tu trazes.
Lembro a estória dum menino que diz ao pai: Pai, trazi o jantar. E o pai: Filho, não é trazi é truve!
É certo que nascemos naquele canteirinho, beirando o mar. Para lá saltámos, apanhando sustos com quaisquer coisitas, achámos terras que chamámos nossas, lutámos com uns e outros, entrámos em guerras valentes. Perdemos. Ganhámos. Fomos ricos. Fomos pobres. Já estivemos orgulhosamente sós. Estamos orgulhosamente mal acompanhados. Mas continuamos cantando o fado. Pingando dós de peito enquanto saboreamos um bom cozido e um Alvarinho. Assistimos a uma comédia como quem escuta um necrológio. E lemos Os Lusíadas! Cruzes, canhoto! E aguardamos o regresso de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro! Até nisto somos pobres. Então não é que devia ser em manhã de sol para ver bem a criatura?











