1. “Quando estava na 4ª classe, disse uma palavra feia à professora e ela escreveu uma repreensão à minha mãe que se apresentou na escola para falar com ela. Depois chamaram-me, a minha mãe disse-me docemente que eu não me tinha comportado bem e eu tive que pedir desculpa à professora na frente da minha mãe. Fiquei a pensar que até tinha acabado bem. Mas aquele era apenas o primeiro capítulo, depois em casa começou o segundo capítulo… Hoje uma professora faz algo semelhante e no dia seguinte os pais vão à escola pedir-lhe explicações, porque os técnicos disseram que não se deve repreender!”
Esta história pessoal foi contada pelo Papa Francisco na Audiência Geral do passado dia 20 de maio e ilustrava a sua mensagem de que “é preciso reafirmar o papel insubstituível dos pais na educação dos filhos. Não se trata de contentar-se com um diálogo superficial, mas de acompanhar os filhos, compreendendo-os e corrigindo-os quando necessário.”
Reconhecendo que “A educação é como que a coluna vertebral do humanismo” e que existe “uma crise no pacto educativo entre a sociedade e a família” em que “muitos pais veem-se ‘sequestrados’ pelo trabalho e nunca têm tempo para os filhos”, o Papa pediu também aos pais separados para não usarem os filhos nos seus problemas conjugais: “Nunca tomeis os vossos filhos como reféns. Devem crescer com a mãe falando bem do pai e vice-versa. Isso é muito importante, é muito difícil para os separados, mas é algo que se pode fazer.”
Tanta falta que está a fazer, também aqui no Faial, a nós, pais e educadores, praticar estas sábias palavras do Papa Francisco!
2. Carlos Neto é professor da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), em Lisboa. Trabalha com crianças há mais de quarenta anos. Numa recente entrevista ao Observador (http://observador.pt/especiais/estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel/) afirma-se preocupado com o sedentarismo, a falta de autonomia dada pelos pais às crianças e a ausência de tempo para elas brincarem livremente, correndo riscos e tendo aventuras. É um problema que tem de ser combatido, diz, porque a ausência de risco na infância e o facto de se dar “tudo pronto” aos filhos, cada vez mais superprotegidos pelos pais, acaba por pô-los em perigo.
Particular enfoque é dado pelo professor universitário à questão do recreio na escola. Aludindo aos estudos realizados, concluiu que “as crianças que são mais ativas no recreio, e que têm mais socialização, têm na sala de aula mais capacidade de atenção e de concentração. Isto tem a ver com uma tendência que está a acontecer em quase todo o mundo, de restringir o tempo de recreio para ter mais tempo na sala de aula. O que nós concluímos é que o tempo de recreio é absolutamente fundamental para a saúde mental e para a saúde física da criança. O recreio escolar é o último reduto que a criança tem durante a semana para brincar livremente. E, de facto, verificamos esta relação muito clara entre ser ativo no recreio e estar concentrado dentro da sala de aula.”
Por outro lado, “Os currículos hoje estão a ser demasiado exigentes quanto ao número de horas em que as crianças têm de estar sentadas”, e isso tem vindo a provocar uma crescente incapacidade dos pais e dos professores em controlar as energias das crianças. “Numa grande parte dos casos essa energia é natural, mas é considerada hoje como doença ou inapropriada. É inaceitável que 220 mil crianças estejam medicadas em Portugal. Isto não pode acontecer. Tem de haver um maior esclarecimento para verificar efetivamente se aquelas crianças merecem ser medicadas porque são de facto hiperativas ou têm défice de atenção. Mas acredito que uma grande parte dessas crianças não necessita de ser medicada.”
Finalmente, quanto aos horários escolares em que as crianças do Ensino Básico estão ininterruptamente mais de quatro horas na escola, com apenas dois recreios, (nem um adulto trabalha tanto tempo seguido…), e em que as aulas são maioritariamente de 90 minutos, Carlos Neto considera-os “contra natura, não tem a ver com as culturas de infância. Temos de ter um maior equilíbrio entre o que é uma estimulação organizada e uma estimulação ocasional, ou seja, entre o que é tempo livre, tempo de jogo livre, e o que é tempo de organização académica.”
Neste contexto, soube há dias que a Escola Manuel de Arriaga se prepara para, no próximo ano letivo, promover experimentalmente uma nova organização dos horários do 3ºCiclo que permitirá o fim das aulas de 90 minutos e o aumento do número de intervalos entre as aulas.
A saudar.












