No rescaldo da Eleição Presidencial

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 1. Cavaco Silva obteve uma vitória clara e indiscutível na eleição presidencial realizada no passado domingo, tendo vencido de forma convincente em todos os distritos de Portugal Continental e nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.

Da jornada eleitoral Manuel Alegre saiu como o principal derrotado, longe dos números e da mobilização que havia conseguido há cinco anos.

2. Os resultados verificados nos Açores representam uma clara derrota pessoal e política de Carlos César, que se empenhou de forma notória no apoio a Manuel Alegre. E não é o apoio em si que está em causa, que é obviamente um direito que assiste a Carlos César enquanto cidadão. O que está em causa é que ele envolveu os Açores na sua luta pessoal e partidária contra Cavaco, usando a Região numa estratégia que só enfraqueceu e fragilizou a imagem dos Açores no conjunto do País.

Carlos César perdeu em todas as frentes: Cavaco Silva venceu as eleições nos Açores com margem superior à que conseguiu no restante País e Manuel Alegre teve menos votos nos Açores do que Mário Soares, como candidato do PS, havia conseguido há cinco anos.

Ficam também no rol dos derrotados aqueles cidadãos, inclusive desta ilha, que manifestaram publicamente o seu apoio a Manuel Alegre e que não hesitaram em usar de forma censurável, como apêndice ao seu nome, as instituições públicas, privadas ou de solidariedade social onde exercem cargos. Na luta eleitoral e partidária não vale tudo. E por uma questão ética, de rigor e de imparcialidade, não é aceitável tal comportamento. Usar em lutas eleitorais e partidárias os cargos que se ocupam na Igreja, na Universidade ou nas associações humanitárias, cooperativas ou outras, não é um bom serviço que se presta a tais instituições, qualquer que seja o partido que a isso recorra! 

3. O fenómeno da abstenção nestas eleições voltou a atingir números preocupantes. A nível nacional, ela atingiu 53,3%, enquanto nos Açores se cifrou na arrepiante percentagem de 68,75%. Isto é, em cada dez eleitores açorianos, sete não foram votar, o que nos fez líderes nacionais da abstenção!

Sabemos que, no caso dos Açores, há uma razão que se prende com o elevado número de jovens que, embora recenseados na sua ilha de residência, se encontram fora dela, nomeadamente para estudar. E, embora não estejam impedidos de votar, a verdade é que, para o poderem fazer, os estudantes enfrentam uma desincentivadora barreira burocrática. Ora, estando nós numa fase do relacionamento do cidadão com a Administração em que a Internet é cada vez mais usada e em que é mesmo um recurso para, por exemplo, realizar pagamentos, movimentar contas bancárias, não é compreensível, neste contexto, que não se encontrem formas mais expeditas, actuais e naturalmente seguras que facilitem e estimulem a participação cívica que se corporiza no acto de votar.

Por outro lado, a abstenção apresenta-se também como um sinal do desencanto, do desinteresse e do afastamento dos cidadãos em relação à Política e, nesta dimensão, este é um fenómeno que exige atenção e cuidado estudo.

4. Com efeito, os partidos políticos, como estruturas vocacionadas para a conquista do poder, estão a deixar-se anquilosar em práticas e discurso que cada vez mais tendem a afastar de si as pessoas e os eleitores. Fernando Nobre e José Manuel Coelho foram candidatos sem estrutura partidária por trás de si e, juntos, conseguiram nestas eleições o voto de quase 20% do eleitorado.

Ressalvando as diferenças e especificidades dos nomes em causa, a verdade é que quase ¼ dos portugueses que foram às urnas apoiaram estes cidadãos que surgiram à margem das estruturas partidárias e se assumiram como expressando as virtudes da participação cidadã descomprometida.

O cidadão comum tende a ver as estruturas partidárias funcionarem fechadas sobre si mesmas, privilegiando o clientelismo, afastando os mais competentes, promovendo os “boys” do aparelho, falando em circuito interno, pondo acima dos interesses das pessoas os interesses do partido e constatando que os políticos eleitos pelas populações não são avaliados pelo que fazem e pela forma como defendem os seus eleitores, mas sim pela fidelidade ao partido.

Enquanto nos partidos não se derem efectivos passos no sentido de contribuírem para alterar esta nem sempre totalmente justa imagem, só se estará a dar razão aos muitos concidadãos que, desapontados com a Política e com os políticos, se refugiam numa tanto inaceitável como compreensível abstenção. E é a democracia que fica a perder!

5. A maior participação eleitoral que se verifica nas eleições autárquicas (e consequente e significativa diminuição da abstenção) é bem a prova da necessidade de que nas outras eleições é urgente fazer aproximar os seus protagonistas do eleitorado e de a ele prestarem também directamente contas, acabando-se com a quase exclusividade da avaliação partidária.

6. Os resultados destas eleições provaram ainda que as fortunas que muitos partidos autenticamente queimam em campanhas eleitorais cheias de meios, com milhentos cartazes, panfletos, prendas, concertos com artistas principescamente pagos, afinal não fazem assim tanta falta. O exemplo desta campanha vitoriosa de Cavaco Silva, que prescindiu de grande parte desses meios propagandísticos, é uma lição e, espero eu, um bom exemplo para outras e próximas campanhas a realizar.

Mesmo que não se esteja em crise, mesmo que não se esteja a cortar os vencimentos a que por direito os cidadãos deveriam receber do Estado, reduzir nos excessos dos gastos dos partidos em campanhas eleitorais será sempre uma medida justa e necessária.

7. Finalmente, o mais negativo desta eleição: na luta política como na vida, os fins não justificam os meios. Em Portugal, com a conivência de muita comunicação social, a luta político-partidária faz-se, como esta campanha bem demonstrou, em bastidores esconsos onde, mais do que o legítimo e legal escrutínio da vida dos responsáveis políticos, se insinuam e se criam ligações e interesses que mais não são do que verdadeiros assassinatos de carácter e de personalidade.

Sobre esta forma baixa de fazer política, também nestas eleições o povo português, mais uma vez, respondeu à altura

 

 

 

 

 


24.01.2011

 

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