Nos 100 anos da reconstrução do Teatro Faialense

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No próximo dia 6 de Abril assinala-se, em iniciativa da Câmara Municipal da Horta, o centenário da reconstrução do Teatro Faialense.
Foi uma obra notável, realizada em apenas 10 meses, que, sem auxílios públicos, transformou o velho e decrépito Teatro União Faialense – fundado em 16 de Setembro de 1856 pelo advogado e reitor do Liceu da Horta João de Bettencourt Vasconcelos Corrêa e Ávila – numa moderna casa de espectáculos que era o orgulho da cidade da Horta e da ilha do Faial.
Até ser adquirido pela Câmara Municipal da Horta em 1995, o Teatro Faialense esteve sempre na posse da família Vasconcelos Corrêa e Ávila. Com a morte do fundador em 22 de Janeiro de 1868, sucedeu-lhe o filho José de Bettencourt, funcionário liceal, presidente da Câmara Municipal e Administrador do Concelho, a quem coube a gestão do Teatro União Faialense que, nos anos oitenta do século XIX, se encontrava em mau estado de conservação, reclamando, portanto, obras urgentes.
Realizaram-se elas entre 1882 e 1884 e, naturalmente, soba orientação do dinâmico José de Bettencourt Vasconcelos Corrêa e Ávila que contou com o apoio de outros membros da família e com o estímulo de vários amadores teatrais, dos quais se destacou o escritor e dramaturgo João Francisco Xavier de Eça Leal, um continental que chegara à Horta como funcionário de Finanças.
Foi com uma peça da sua autoria que se assinalou a reabertura, em 24 de Março de 1884, do renovado Teatro União Faialense. Tratou-se da opereta em dois actos intitulada “Rapazes de Belford”, na qual Eça Leal – que também era apreciado actor – “desempenhou o papel de ‘travesti’ de madre rodeira (decorria a acção num convento) velhota de óculos faiscantes, tabaqueando-se; e com tal arte se houve que semelhava bem uma soror rabugenta. Foi dum cómico irresistível”1 .
Decorreram os anos e o Teatro União Faialense, desgastado pelo uso, revelava-se pequeno e deficiente, pelo que se impunha a edificação de uma nova casa de espectáculos, dimensionada e confortável que melhor respondesse às exigências do público. Desincumbiu-se dessa missão o neto do fundador José de Bettencourt de Vasconcelos Corrêa e Ávila Júnior que, por morte do pai em 14 de Maio em 1910, assumira a administração daquele espaço cénico que, além do teatro e da música, passara a exibir, desde 1908, os primeiros filmes mudos com certa regularidade.
Para isso muito contribuiu João Garcia Júnior, um jovem e multifacetado artista a quem cabe a honra de ter sido o iniciador do cinema no Faial. Foi ele que adquiriu o primeiro animatógrafo, desembarcado no porto da Horta a 15 de Janeiro de 1908, realizando, na semana seguinte, a sua primeira sessão no vasto salão da casa do seu futuro sogro em Castelo Branco. Foi também João Garcia Júnior que, poucos meses volvidos, em sociedade com “outros cavalheiros mandou vir um aparelho animatográfico, de grande poder, com que pretend(ia) dar algumas sessões no nosso teatro”. E o certo é que, após acordo entre José Bettencourt e João Garcia Júnior, o Teatro Faialense – era já assim a sua designação – passou a ser, desde Agosto de 1908, a primeira casa de cinema do Faial. A imprensa da Horta – nomeadamente “O Telégrafo”, “O Fayal” e “O Insular” – previamente convidada para a ante estreia, foi unânime nos louvores a tão grande novidade, assim liminarmente sintetizada: “Plateia cheia, alguns camarotes passados e o público plenamente satisfeito”2 .
Ao alargar a sua acção às exibições cinematográficas, o velho edifício do Teatro Faialense cada vez mais exigia novas obras. Assim, o proprietário José de Bettencourt, espicaçado pelo peso da simbólica herança familiar, aconselhado por vários amigos (entre os quais o jornalista, escritor e encenador António Baptista) e auxiliado pelo “mecenas” Walter Bensaúde, demoliu o velho edifício e reconstruiu uma nova casa de espectáculos, definitivamente chamado Teatro Faialense. O projecto do imóvel foi da autoria do director de Obras Públicas, engenheiro Fernando de Assis Barcelos Coelho Borges. Desde a demolição, iniciada em 2 de Julho de 1915, até ao fim da construção mediaram apenas 10 meses. A inauguração do teatro reconstruído efectuou-se em 6 de Abril de 1916, tendo sido representada a opereta de sabor genuinamente faialense “A Fonte dos Namorados”, da autoria de António Baptista. Para Marcelino Lima ela é “a mais mimosa produção do dramaturgo” e, “para enquadrar o bairrismo do momento, nenhuma composição melhor que esta, intensa de bucolismo e poesia”. Nenhum outro nome, a não ser António Baptista, merecia tamanha honra pois ele consagrou ao Teatro Faialense “o melhor da sua actividade artística, para ele escrevendo de hora a hora, e pisando-lhe o tablado até ao fim da vida” 3.
Com a reconstrução desta casa e com a recente inauguração do Salão Teatro Éden em 25 de Novembro de 1915, numa arrojada iniciativa de duas senhoras faialenses, as artistas e primas Lídia Bettencourt Furtado e Silvina Furtado de Sousa, a cidade da Horta viu recrudescer o entusiasmo pelo teatro e pelo cinema e este, porque não tinha som, era acompanhado por orquestras de valor o que veio potenciar ainda mais o gosto pela música. Naquela época – em que o mundo sofria os horrores da I Guerra Mundial – realizavam-se sessões cinematográficas quatro vezes por semana, “havendo também aos domingos e dias santificados sessões diurnas para crianças e gente do campo”4 .
O gosto pelo cinema – que desde 31 de Maio de 1931 passou a ser sonoro – não fez abrandar o sentimento pelo teatro. Surgiram mesmo novos artistas amadores que, mercê das melhores condições de trabalho, levaram à cena peças de qualidade assinalável, e vários foram os profissionais que, vindos de Lisboa, deleitaram o público faialense com a sua arte.
Estas duas manifestações artísticas foram coexistindo, com o cinema a assumir crescente ascendência até que, na década de 80 de novecentos, vicissitudes diversas determinaram o encerramento do Teatro Faialense, já então velho e a necessitar de profunda reconstrução.
A sua compra pela Câmara Municipal da Horta em 1995 e a enorme transformação a que foi sujeito fazem com que o Teatro Faialense seja, desde 2003, um moderno e importante imóvel com várias valências que permitem a exibição de filmes, a realização de espectáculos teatrais e musicais e possa acolher, num novo e pequeno auditório, outros eventos culturais.
Registe-se, como curiosidade, que esteve prevista, em 16 de Setembro de 1956, a comemoração do centenário do Teatro Faialense. Circunstâncias várias impediram que o programa pensado – cujo ponto alto seria a estreia de uma peça da dramaturga Olga Alves Guerra, a faialense que viu trabalhos seus representados no Teatro Nacional D.ª Maria II – fosse realizado. Decorridos 60 anos, teremos agora, celebrações condignas e continuadas …

1 Marcelino Lima, O Teatro na Ilha do Faial, 1957, p.28
2 Sobre a introdução das sessões cinematográficas no distrito da Horta, vd. José M. Medina Garcia, Ditos e Escritos sobre João Garcia Júnior, Horta, 2009, pp. 47-72
3 Lima, Marcelino, ob. cit. p.34
4 A Democracia, 28 Novembro 1915

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