Como falei em crónica anterior, o Brasil andava sempre perdido. É difícil de entender isso, uma vez que ele é enorme. Ora, os portugueses andavam naquela época, sempre entediados, uma vez que não havia telefonia, televisão, cinema, teatro, Troika, FMI, nada! Nem ao menos um coelho. Era uma pasmaceira total!
Ora, Cabral, o Pedro, certo dia após uma caldeirada com os amigos, lá em Peniche, uns copitos à mistura, olhando o mar sem fim, teve uma ideia genial: vou falar com o rei e vamos por aí fora à procura do Brasil. Se o Pacheco e o Hojeda foram, nada que eu não faça também.
Todos concordaram, o rei concordou (naquela época os reis estavam ali mesmo só para concordar) e assim eles lá foram achar o achado, única maneira de dar uma voltinha, uma vez que por terra a coisa era bem mais complicada. As estradas tinham muito pedregulho e eram mal sinalizadas. Excluída esta opção. Pelo ar, era difícil porque as companhias aéreas estavam sempre em greve.
E, mares fora, tropeçando aqui e acolá, sofreram um pedaço até chegar ao destino. A comida foi-se esgotando (eles tinham levado somente umas conservas da corretora , uns danoninhos e umas garrafitas de Frei Gigante) . Água nem vê-la, daí o cheiro esquisito com que foram mais tarde recebidos. Bem, não interessa. Interessa sim a alegria deles, expetativa do encontro, tal como nós, agora, saindo da ilha, indo achar Nova Iorque, o Dubai, por aí. Igualzinho. Mas somos mais civilizados. Fica tudo lá. Porque não podemos trazer. Caso contrário até a quinta avenida carregávamos às costas.
E, já desesperados, às cegas, sem comandante, sem hospedeiras, sem cintos de segurança, sem as baguettes da TAP e sem pepsi cola, já nem se arrastavam, até que se fez luz. Ao longe, lá aportaram. O português pensa sempre pequeno. Levou tempo até que se convencessem que aquilo não era uma ilha. Era muita terra.
Cabral e os marinheiros que haviam sobrado, desembarcaram esfomeados, sujos, mal cheirosos e logo foram rodeados por homens nus, armados de arcos e flechas, plumas e penas na cabeça, tocando o batuque do moleque, comendo pedaços de gente (os vencidos das lutas) assados no espeto, cocos e jacas.
Os nossos homens ficaram boquiabertos, não só por aquela visão do inferno ,mas pelo andar deles, móli-móli, lévi-lévi.
Cabral não os entendendo, teve uma ideia genial. O tal acordo ortográfico que demorou mais de 500 anos a ser aprovado, por falta de leis, artigos e decretos dos portugueses, mas já se fez. Agora eles falam português, nós falamos brasileiro. Eles são respeitadores e educados, nós estamos num glu-glu inaudível, lutando entre partidos rivais, beirando a antropofagia. E isso aqui não vai ser pera doce porque o gado é velho, rijo, teimoso. Ninguém o rói.
Convém dizer que Cabral, como achador, portou-se mal. Não devolveu o achado, tal como o encontrou. Começou por explorá-lo, lapidá-lo e desviá-lo . Hábitos nossos!
Ora, foi um gesto muito feio. E, isso os brasileiros jamais perdoarão. Aguentaram durante séculos o sarilho. Sem achar piada nenhuma, porque o povo brasileiro não é de achar. E muito menos achar e não devolver. Pelo contrário, oferece o que tem com boa vontade. A começar pela carne seca com farofa que o Cabral devorou. E, continua oferecendo música, novelas, fruta muito boa, como diria Pinto da Costa. Até vem na net e nos jornais.
Aquela população mista que formáramos – os mamalucos, mantém-se. Só perdemos a primeira sílaba. Também que se lixe o “mas” e, fazendo jus à palavra, por aí andamos às turras, sem norte. Cada qual com a sua razão, mas sempre pensando pequeno.
Hoje não mais achamentos. Estamos na hora dos perdimentos. Ora perco eu, ora perdes tu. Dos antigos achamentos o que sobrou? Não nada. Somente a vergonha de pertencermos a um país que não tem nada para oferecer, porque os nossos índios atuais levaram tudo. Sem arcos nem flexas. Com luvas brancas. Com asas tatalantes, anjinhos negros, cupins que nos entraram no sótão, foram descendo e ocuparam a casa até ao térreo. Limpeza geral!
Que se livre alguém, ter o pensamento de achar o quer que seja hoje, porque isso significaria mais uma “acha” para a fogueira que os nossos índios atuais acenderam.
No momento cá estamos “ orgulhosamente sós”. Onde é que eu já ouvi isto? Quem sabe da época das Índias. Brasis. Áfricas. Macaus. Timores. Cofres recheados. Navios aos montões.
Meu Deus! Será que não é possível ser órfão! Adotar qualquer coisa, nem que fosse um padrasto pobre e sujo! É que isto é um sufoco! Sem solução! É o sempre nada e o nada sempre!











