O BEIJO E A LÁGRIMA…

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Acordo alta madrugada e não mais consigo conciliar o sono. Uma despertina daquelas. Talvez porque me deitei pensando no filme que acabara de ver, história macabra daquela criança que iria nascer anencéfala e cujos pais tinham um dilema: ou optar por um aborto ou pela continuação da gestação para que o seu filho viesse salvar vidas, através da doação dos seus órgãos.

A história foi-se avolumando na minha cabeça. Quase sentia os neurónios pulando. Afinal a vida é feita de coisas esquisitas. É uma teia intrincada e o pior é que nós, por vezes nem reservamos tempo para olhar do avesso, empilhar as nossas esperanças, desejos e sentimentos na balança do quotidiano para encontrar a melodia da alegria e do riso que se perdeu a par do aroma daquela violeta que não existe mais.

E, assim, tentando desviar o assunto que me atormentava, pulei da cama, sentei-me à secretária, frente à folha em branco. E instantaneamente, frente a mim os olhos do Pai. Não olhos. Faróis,  como eu dizia. E eles então ali, prontos a ajudar, como sempre, em todas as situações. O Pai nunca educou à lei da pancada. Tudo sem mãos. Usava os olhos. Faróis que falavam. 

Menininha ainda comecei a entender o bem e o mal, só com um olhar. Acho que foi esse olhar que me ensinou muitos limites, como o limite da mesa. Nunca alguém teve a coragem de ir fazer o tal bifinho quando a refeição não agradava a um dos meninos. E daí muitos e muitos limites deixaram de ser ultrapassados, sem esforço porque os olhos dele lá estavam observando, apoiando ou repreendendo. 

O Pai era o meu ídolo. Sabia tudo. Ajudava a resolver todos os problemas. Era a matemática, história, geografia, ciências… Como eu me orgulhava de apresentar às amigas aquele senhor alto, aprumado com olhos de sol: É o meu Pai!

E o tempo passando. Idas e vindas minhas. Para estudar na outra Ilha. Ele acompanhava-me e despedia-se sempre dizendo : – Sê corajosa e forte, filha.  Os olhos pareciam maiores. Ou seria eu que pensava ver isso? Não, eles cresciam mesmo. Como cresceram na cama do hospital, onde, mais tarde o acompanhei semanas e semanas, a morte rondando, ele sem se queixar, olhava-me e esse olhar falava tudo, porque ali estava o homem inteligente que se mantinha calado para não magoar ninguém. 

Hoje, sinto ainda a falta do seu colo. Do seu abraço forte. Do ruído das suas mãos teclando na velha Remington. Dos seus conselhos. Dos seus elogios. Do seu olhar profundo que tudo dizia. Mas, algo muito forte ficou no meu coração gravado para sempre. 

A primeira vez que viajei para Lisboa, ele acompanhou-me ao barco, despedimo-nos e para evitar sofrimento acho que subi as escadas do velho Carvalho e sumi rápido por entre a multidão amontoada no convés. De repente alguém me agarrou, me abraçou e me deu um beijo, um beijo sem fim. Aquele beijo tinha amor, dor, tristeza, eu sei lá! A palavra ânimo eu recordo bem. Foi um beijo de Pai. E vi ele descer as escadas, correndo, sem mais olhar para trás. Nunca mais recebi um beijo como aquele! 

O Pai deixou-me uma enorme herança. O amor. O carinho. O sabor do seu colo. Muitos beijos e aquele beijo. Espero tenha partido com a consciência disso. Seria muito ingrato não ter em vida a consciência da própria dimensão. Talvez ele intuísse. Falo assim, porque sei que, infelizmente as melhores coisas da vida são resumidas e congeladas pela morte e assim, então esclarecidas.

E por tudo isto, tentando ser digna da herança recebida, sempre procurei afastar o vácuo mental, o enciclopedismo de páginas em branco, buscando tempo para fazer algo de útil. Pensar grande. Pensar forte. Pensar hoje. Pensar sem medos. Pensar sem agonias. E amanhã logo se verá!

Desculpe, leitor. Imagine, são quatro horas da manhã. Você dormindo e eu rabiscando aqui sem rei nem roque. E, em traços largos vou falar da lágrima. Pessoa que muito amo, nem sei há quantas luas, no meio duma lenga-lenga, que aqui não posso reproduzir, porque a história não é minha, eu, no intuito de afugentar, fui falando, falando e falando, sem olhar. Para meu espanto, olhando a pessoa de frente, vejo uma lágrima rolar-lhe pelo rosto. Não lágrimas. Uma só. Lágrima no rosto duma pessoa forte, que não chora, não reclama, enfrenta dores ,ingratidões, maldades, incompreensões, um inferno…

Apoderou-se de mim uma dor tão forte mas tão forte que, fingindo não ter visto para não magoar, senti o peito rebentando. Acho que aquela lágrima incluía todas as dores sentidas. O desabafo possível.

Somos formados num cadinho de idiossincrasias, mas há que tentar por vezes reverter isso, observar a vida, os outros, entendê-los, amá-los até mesmo pôr de lado aquele prato quente frio da ingratidão. Não será fácil, eu sei, mas dia destes vem a eternidade com o desfazer de tudo numa erosão de todas as células…

E o que sobrará? Coisas simples. O amor da Mãe, o beijo do Pai, os seus colos, o gosto de ti, o muito obrigado, o desculpe…

E tudo ao fundo dos acontecimentos como uma carta fora do baralho.