A imagem do Pai sempre foi e continuará a ser para mim a imagem de um homem sábio, sensato, compenetrado, sério, compreensivo. Muito compreensivo. Nunca um castigo sem uma explicação prévia. Nunca um prémio sem um carinho e muito amor em cada gesto feito.
Não me é possível afastar a lembrança daquele homem forte e poderoso que foi o Pai. Foi o meu orgulho. Desde criança, fiz questão de gritar alto: este é o meu Pai!
Ele continua comigo sempre, surgindo nos tempos e lugares mais inesperados. Sorridente, pronto a aconselhar, a auxiliar, a estender a mão, aquela mão grande como eu a chamava. Nos momentos de desânimo, nem necessário se tornava falar. Os nossos olhos encontravam-se (chamava faróis aos olhos dele) e lá nascia o conselho, a palavra, o alento.
O Pai adorava um bom livro. Na sua pequena biblioteca havia livros dos mais famosos escritores, que ele, embora já tivesse lido e, já doente, pedia para eu pegar, penso mesmo que só a sensação de olhar, manusear, era um sentimento de conforto. (lê este, Maria Antonieta!)
E ali ficávamos os dois num colóquio infinito. Ele explicando coisas que me enriqueceram e que guardo até hoje. Vou refazendo o trajeto, trilhando o caminho de volta, como quem procura algo perdido e de repente encontra. E voltam os gestos, as palavras, as explicações, o olhar penetrante, o carinho. Como um presente perdido que voltasse até mim de novo.
E falando em presentes sempre recordo que o Pai, aquele homem que presenteava os outros com alegria, não sentia felicidade em receber presentes e próximo de aniversários ou quaisquer datas festivas ele prevenia: “para mim, não tragam nada, estou usando o presente do ano anterior”.
O Pai não se preocupava só com a família. A miséria, a infelicidade dos outros, fazia transparecer nele uma tristeza que ele não conseguia esconder, como se um coração exposto no busto de um santo. Ele falou-me uma vez que receava deixar o mundo sem que tivesse a possibilidade de ter feito o suficiente. Mas, acrescentou, sou homem para viver longo tempo, tenho uma saúde de ferro. Não aconteceu!
Dias destes, enquanto caía a noite sozinha em casa, as luzes acendendo-se na rua, eu lembrei do Pai naquele sofá, eu, mulher não menina, sentada no seu colo, seu braço sobre meu ombro, ouvindo-o dissertar sobre planetas, estrelas, galáxias, enquanto as sombras os engoliam. Como eu aprendi a enxergar as emoções que cada coisa provocava nele! E podia ter aprendido mais! Por que será que uma filha pensa que o Pai vai ser eterno?
A imagem do Pai está também associada ao teclado da velha Remington. Descendo a grande escadaria, já o ouvia teclando apressadamente e sem parar. Era música para os meus ouvidos. Porque eu crescera com aquele som. Horas e horas no escritório batendo teclas e teclas enquanto conversava simultaneamente com os empregados. Isto na era a.c., porque se fosse d.c. ele seria certamente um perito no assunto. Falo em antes e depois dos computadores. Cristo não tem nada a ver. Desculpem.
Quando o Pai adoeceu soube pelo médico toda a verdade, mas como a doença era muito ruim, eu não queria acreditar, acreditando. Penso que ele fazia o mesmo. Naquele hospital baixou uma melancolia difícil de controlar. Um convite para transcender o status quo banal e imaginar possibilidades inéditas de curar.
Eu tentava criar um clima de bom humor programado, usando uma máscara falsa, um disfarce, qual proteção. E, ingenuamente não percebia que o Pai, homem inteligente, fazia o mesmo para proteger, para esconder, e falávamos então de sonhos que iríamos realizar, quando afinal eles se tinham perdido na curva da estrada. Sem dar tempo a fazer malas. Para onde teriam ido? Penso que por vezes engolimos os nossos sonhos. Aí o eufemismo para a certeza.
Pai, oxalá o senhor tenha tido consciência da sua própria dimensão. Creio que intuiu. A morte congela e aí, esclarece. Eu, Pai, continuo ouvindo seus conselhos, sentindo o poder das suas mãos que sempre me ajudaram, que embalaram a minha filha aliados aos carinhos dos seus braços, ao som da sua voz que faziam a ela ter um sono tranquilo, aliado ao seu olhar de amor beijando-a… Meu Deus o senhor foi um Pai e foi um avô daqueles!
Por tudo isto, eu, hoje, ainda às vezes, fico pelas noites à cata no firmamento da tal estrela cadente que nós procurávamos, a nossa estrela. Sei que não estou só, Pai!
Para o senhor, Pai, o meu presente neste dia dois de fevereiro, seu aniversário. O presente que o senhor não usou.











