O Boi do Corvo

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DR/TI
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Anda por aí um grande rebuliço a propósito da questão da cedência temporária, ao Ecomuseu do Corvo, de um dos dois exemplares do boi de raça-anã da ilha do Corvo que se encontram expostos no Museu Carlos Machado. Respeito, naturalmente, os que discordam dessa opção por razões que nada têm a ver com estéreis querelas políticas.
Os grandes naturalistas açorianos do século XIX e XX – cujo propósito era criar um Museu Açoriano, nunca se esqueça isso – homens cosmopolitas, que trocavam e recolhiam o seu acervo e conhecimento científico com investigadores de todo o mundo – devem estar, onde quer que estejam, tolhidos de vergonha com a polémica gratuita que o Diretor do Museu Carlos Machado montou em relação a este assunto. Isto num momento em que a nossa sociedade enfrenta uma crise económica e social brutal.
Quais são os seus argumentos esgrimidos pelos que se opõem à cedência temporária do bovino empalhado? Que o boi raça-anã da ilha do Corvo (está assim catalogada no Museu) não é, afinal, uma raça do Corvo. Que o facto de se ceder, temporariamente, uma peça de um acervo de milhares desconjuga a coleção e que só ele consegue fazer a manutenção do boi empalhado. Os dois últimos argumentos são tão parvos que nem sequer lhes vou dedicar uma palavra que seja (anualmente, os museus naturalistas da Europa deslocam, para outros locais e exposições, centenas de peças e coleções).
Em relação ao primeiro argumento, para além do pecado que significa colocar em causa a veracidade e a competência da catalogação realizada por alguns dos nomes maiores do naturalismo açoriano e português, deixo aqui a descrição realizada no programa da RTP/Açores, “Casa do Tempo”, pelo Dr. João Paulo Constância, responsável pela Coleção de História Natural do Museu Carlos Machado.
O mesmo explica e documenta a origem do Boi-raça anã da ilha do Corvo: “Umas das peças mais interessantes desta coleção de História natural são estes dois exemplares de uma raça anã bovina que foi criada na ilha do Corvo até aos princípios do século XX. E aqui, desde logo, é interessante, porque se trata de uma raça anã bovina criada na mais pequena ilha dos açores, quase que escolhida de propósito em relação ao tamanho da ilha”.
A seguir, o Dr. João Paulo Constância, refere que “outro dos aspetos interessantes foi que alguns exemplares desta raça foram trazidos pelo Conde dos Fenais para uma propriedade que tinha na atual rua de Lisboa, e que aí foram criados e depois, por intervenção do coronel Afonso Chaves, foram trazidos para o museu Carlos Machado, para serem naturalizados e preservados”.
Dúvidas? Avanço então com Raul Brandão, que visitou a ilha do Corvo em 1924 e fez algumas referências à raça bovina que encontrou na ilha do Corvo no livro que escreveu a propósito da viagem que realizou às ilhas dos Açores: “As Ilhas Desconhecidas” (1926).
No âmbito da descrição que fez dos agricultores corvinos refere que “cada lavrador tem dois boizinhos, os bois do carro, ao pé da porta; os outros andam nos currais, ao ar livre, até fevereiro. As vaquinhas, encantadora raça do Corvo, são mungidas nos pastos, e produzem este leite perfumado”. Os tais “boizinhos pesavam sessenta quilos”, refere Raul Brandão. O escritor profetiza ainda a futura extinção da raça bovina da ilha do Corvo: “as pequeninas vacas originárias da ilha – que vão acabar e é pena – são duma inteligência e duma meiguice extraordinárias: – falam-lhes e elas respondem”.
O Povo de São Miguel está contra a cedência temporária do Boi raça-anã da ilha do Corvo à ilha do Corvo? Não acredito. O Corvo é a irmã pequena da ilha de São Miguel. O príncipe dos sábios, Leite de Vasconcelos, anotou, na visita que também fez à ilha do Corvo em 1924, que “o “ü” de São Miguel também ocorre na Ilha do Corvo”. Existem dezenas de expressões que só se usam nestas duas ilhas.
Estou pessoalmente convencido que nestas duas ilhas vivem os descendentes do mesmo grupo de povoadores. O ódio, que se quer incutir no povo micaelense a propósito desta questão menor, não se dirige a um adversário. Dirige-se a uma espécie de irmão mais pequeno.
Os Açores não precisam deste tipo de polémicas. As mesmas constituem, por parte de quem as promove, um ato de traição contra a unidade de todos os açorianos. O bairrismo,

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tal como o nacionalismo exacerbado, têm a mesma origem. Alimentam-se da frustração das pessoas e cavalgam a insatisfação latente. Não oferecem soluções. Apenas ódio, xenofobia e violência.

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