O Brexit e o domínio alemão da Europa

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O Brexit aprofundou o colapso da União Europeia enquanto projeto político. A verdade é que a União Europeia constitui uma experiência singular na História da Europa. Roma foi um império pluricontinental – que agregou vastas zonas da Europa Ocidental, do Norte de África, da Ásia Menor e do Médio Oriente –que, mesmo no período de máxima extensão territorial na Europa, nunca chegou a integrar uma parte significativa dos Estados que integram a atual União Europeia (como a própria Alemanha, grande parte dos Estados do Leste Europeu e a Península Escandinava).

O Sacro Império Romano-Germânico integrou, pelo menos de forma nominal, vastas regiões da Europa Ocidental e Central. Mas a verdade é que, mesmo na sua máxima extensão, o Império não chegou sequer a alcançar 50% da enorme área da atual União Europeia (cerca de 4 324 7824 km²). Mesmo os grandes impérios continentais de Carlos V e de Napoleão, para além das óbvias diferenças em relação ao sistema político adotado, não lograram alcançar a dimensão da União Europeia. A França e a Inglaterra, por exemplo, não fizeram parte do primeiro e a Grã-Bretanha e as vastas regiões balcânicas do Império Otomano também lograram fugir ao domínio formal ou informal da França Imperial.
A Alemanha da I Guerra Mundial colapsou nas trincheiras da Flandres. A única construção política europeia comparável – do ponto de vista meramente territorial – à União Europeia foi o III Reich de Hitler (no auge da sua expansão, entre 1940 e 1942). A ordem alemã impôs-se em toda a Europa, com exceção da Grã-Bretanha e do leste da União Soviética. Mesmo os países teoricamente neutrais, como a Suécia, a Espanha e Portugal, usufruíram, ao longo desse período, de uma independência muito condicionada. A hegemonia alemã do início da década de quarenta foi de muito curta duração, mas permanece na memória de todos os europeus.
No início do projeto europeu, a Alemanha era um país dividido, ainda parcialmente destruído, militarmente ocupado e politicamente tutelado. A Alemanha de então não representava um perigo óbvio para as nações europeias que iniciaram um processo voluntário de partilha de soberania, algo absolutamente sem precedentes na sangrenta História da Europa. A verdade é que o projeto europeu parecia uma boa ideia no contexto do pós-guerra.
As grandes potências europeias tradicionais – a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha – saíram da Segunda Guerra Mundial economicamente arruinadas e militarmente superadas pelas duas grandes potências de flanco. O colapso dos impérios coloniais confirmou o regresso da Europa às suas velhas fronteiras continentais. A “ideia europeia” era evitar novas guerras no “Velho Continente”, potenciar o crescimento económico dos vários estados europeus e alcançar alguma independência perante as duas superpotências da época: os Estados Unidos e a União Soviética.
Tudo funcionou relativamente bem até ao final da Guerra Fria. Para os povos português, espanhol e grego (durante muito tempo submetidos a regimes ditatoriais) e para o conjunto de nações submetidas aos soviéticos, a Comunidade Económica Europeia constituía uma farol de progresso e de liberdade.
O fim da União Soviética, a reunificação alemã, a integração da Europa de Leste na União Europeia e a criação de uma moeda comum alteraram, por completo, o quadro evolutivo do projeto europeu. O Brexit aprofundou a sensação de esgotamento do atual modelo de integração europeia.
A grande questão que o Brexit levanta tem a ver com o desequilíbrio geopolítico criado pela saída britânica da União Europeia. A hegemonia alemã na União Europeia, sem o contrapeso britânico, tornar-se-á ainda mais marcante.
A Alemanha perdeu, nos dois conflitos mundiais, cerca de 180 000 km² (o equivalente a duas vezes o território de Portugal), ficando assim reduzida à dimensão de um Estado médio europeu, com apenas 357 021 km². A verdade é que, mesmo na versão territorial mais reduzida da sua História, a Alemanha voltou a conseguir hegemonizar económica e politicamente a Europa.
Antes de 1973, a Alemanha não estava unificada e permanecia sob tutela política. Mais importante ainda, o Leste Europeu – o espaço vital sonhado para a nação alemã por Hitler – estava-lhe vedado pela União Soviética. Agora pertence-lhe, do ponto de vista político e económico, graças à integração destes países na União europeia.
Em circunstâncias idênticas, políticos britânicos como William Pitt, David Lloyd George e Winston Churchill decidiram lutar contra outros poderes hegemónicos europeus e as tentativas de empurrar os britânicos para fora da Europa. Constitui uma amarga ironia da História ver agora uma geração de medíocres políticos britânicos concretizar o trabalho sujo planeado por Napoleão ou por Hitler. Deixar a Europa nas mãos da Alemanha constitui um erro catastrófico para os britânicos. Depois de saírem da Europa espera-os uma espécie de novo “Bloqueio Continental”. O brilho de Waterloo apagar-se-á e a História britânica retrocederá a Dunquerque.

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