Não sou a pessoa mais indicada para críticas e queixumes em relação à nossa ilha pois a vida e as andanças pelo mundo me levaram a ter consciência plena de que na verdade, e apesar dos pesares, vivemos num “pedacinho de céu” em que a qualidade de vida e os indicadores de desenvolvimento humano superam largamente a média global. Temos uma esperança de vida elevada, uma das taxas de mortalidade infantil mais baixas do mundo, não passamos fome nem sede, temos paz e segurança, acesso a serviços sociais, educação e saúde, que não sendo os melhores também estão longe de ser os piores. Temos por exemplo mais do dobro de médicos per capita do que os mínimos recomendados pela Organização Mundial de Saúde. Vivemos num ambiente belo e saudável, o ar que respiramos é puro, a terra e o mar também e por sermos poucos quase nos conhecemos todos uns aos outros e não vivemos a impessoalidade, poluição e “stress” das grandes metrópoles. Mas se estamos de facto uns furos acima da realidade em tantas outras latitudes e vivemos melhor que a maioria das pessoas no planeta isso não significa que tudo por aqui seja um mar de rosas e muito menos que devemos fechar os olhos ao que em nós não anda bem ou perder o sentido crítico e a capacidade de questionar quem governa sobre o que faz e também sobre o que, mesmo prometido, continua por fazer. Vivemos tempos em que a relação entre os governantes e os governados não anda boa, em que as pessoas se sentem descontentes com os políticos e com a governação, em que muitas das conquistas das últimas décadas se encontram em risco e o contracto social parece ameaçado como poucas vezes na nossa história. Todos sabemos que a situação, por condicionantes externas e internas, não está melhor para a maioria das famílias, no país e aqui na ilha também. Foi portanto com alguma surpresa que há dias vi nas capas dos nossos jornais locais a frase:
“Hoje o Faial está melhor que há um ano atrás
”Li com interesse as referidas notícias e percebi que se tratava afinal de um “balanço do primeiro ano de mandato” feito pelo Presidente da CMH aos nossos jornalistas locais. Aparentemente tudo aconteceu por iniciativa deste e através de um convite à imprensa local para um “almoço informal” num conhecido restaurante da cidade. O que esteve na ementa deste almoço sinceramente não sei mas pelo que pude ler nos jornais percebi algumas coisas que claramente não foram colocadas no “menu”. A transparência, a verdade e o rigor, por exemplo. Não vi em qualquer das noticias sobre o balanço uma única referência a indicadores sociais e económicos ou à gestão financeira da autarquia, que sabemos estar afogada em dívidas, de resto contraídas pelos mesmos que hoje ao fazerem o balanço de “um ano” parecem esquecidos que antes também lá estavam. O que fará então o Presidente da CMH concluir de forma tão categórica que estamos “melhor”? Será que baixou o desemprego na ilha? Teremos aumentado o nosso contributo para o PIB regional? Invertemos a tendência de envelhecimento da nossa população? Atingimos algum objectivo estratégico em termos de realização de obras públicas previstas? Nada disso…Os exemplos dados pelo Presidente da Câmara são simplesmente “protocolos assinados” ou “especial enfoque aos projectos mencionados” e chega mesmo ao ponto de dar como exemplo dessa “melhoria” o “Fundo de Emergência Social” e o aumento nos apoios sociais a famílias vulneráveis pela CMH, como se isso não fosse sintomático exatamente do inverso. É de deixar qualquer um perplexo. Não se espera de um gestor público, no caso um Presidente de Câmara, que se envolva em exercícios de camuflagem política da realidade mas simplesmente que diga a verdade. Que, com rigor e honestidade, a consubstancie em dados concretos e aferíveis, que demonstre qual a visão que tem a sua gestão e que desafios temos colectivamente de vencer para que a nossa ilha de facto possa ficar ainda “melhor”. Nada disso aconteceu neste balanço, nem sequer o fez à porta aberta e dando a cara perante os munícipes. Talvez seja melhor apenas com uns jornalistas bem almoçados. Convenien-temente esquecidas ficaram promessas eleitorais feitas e compromissos assumidos pela autarquia e mesmo pela Região na sua Carta de Obras Públicas, como por exemplo a segunda fase da Variante que, mesmo tendo sido ainda este ano reafirmado por um secretário regional o compromisso da sua realização no primeiro semestre de 2015, simplesmente parece ter desaparecido dos planos e orçamentos. Não terá o nosso Presidente da Câmara uma palavra a dizer sobre isso? Onde está afinal a tal prometida “capacidade de reivindicação” junto do governo regional? E este, como outros, até será um assunto em que não deveria ter qualquer dificuldade em mobilizar as diferentes forças vivas da ilha para se fazer a necessária pressão de forma cumprir essa meta. Não será também esse o papel que se espera de um Presidente da Câmara? Por outro lado, para a realização dessa obra, há muitos passos que dependem da própria CMH, algum desses passos foi dado?
Se já tinha algumas reservas em relação à continuação da governação de 24 anos destes senhores este “balanço” só as veio confirmar. Como veio confirmar a mentira e fuga às promessas eleitorais, nomeadamente de dar mais espaço à decisão dos cidadãos através da implementação de um “Orçamento Partici-pativo”. Dizer neste “balanço” que cumpriu essa promessa através da “auscultação” feita no “âmbito do projecto da frente mar” ou da criação do “Fórum Municipal da Juventude” é um insulto aos faialenses. Nada disso representa, nem de perto nem de longe, um “Orçamento Participativo” que pressupõe os cidadãos terem de facto algum poder de decisão, pela via do voto, sobre diferentes opções orçamentais da Câmara. O candidato José Leonardo parecia saber bem o que é um orçamento participativo mas já o José Leonardo Presidente da Câmara… Se agora tem dificuldade em perceber o que é então alguém lhe explique ou até pode olhar para o que se passa em São Miguel, nesse aspeto tiro o chapéu à Câmara Municipal de Ponta Delgada e confesso alguma tristeza por não ter sido o Faial a vanguarda, podia e devia ter sido. Essa não foi a única mas foi, a meu ver, uma das mais graves mentiras e falsas promessas deste Presidente da Câmara. Quem sabe um destes dias vamos aqui falar um pouco mais dos orçamentos da CMH pois talvez ajude a perceber porque não interessa a alguns que certas coisas mudem. Resta também saber até quando iremos continuar a dar votos a quem, de forma tão desbragada e flagrante, nos engana. Já agora prestemos atenção aos “balanços” também dos próximos três anos que ainda temos de gramar com esta gente na autarquia e na próxima oportunidade que tivermos de votar convém abrir os olhos e não deixar a memória em casa.













