O cão de Pavlov…

0
65
TI

TI

Cerejeiras em flor ao cair da tarde também este hoje
se tornou ontem

Kobayashi Issa*

Para minha avó Maria Ângela…

Sou como o cão de Pavlov
quando sonho contigo
de noite, no regresso,
o copo de leite,
dois papo-secos com doce de nêspera,
três palavras sussurradas do quarto ao lado:
“Deus te abençoe”.

Desperto para o real,
o silêncio volta,
reveste as coisas.
Nada encontro
fora do sonho,
nada que se beije,
que se cheire ou mastigue.
Nem um fio de cabelo branco,
tudo aqui é passado,
memória de um tempo que já não é.
Ainda assim o tal cão, como eu,
não acredita em Deus.
Mas fica com água na boca
mesmo na ausência do alimento. 

* Escritor e poeta japonês (1763-1827).

 

Ilustração japonesa de autor desconhecido.

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!