O meu ano velho

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Não se trata de balanço ao Ano Velho, como é tradicional na imprensa escrita e falada, antes de registo dos factos que mais me sensibilizaram no ano que passou, virados especialmente para o Faial, ilha que parece continuar esquecida da governança rosa.

Mas melhor intróito não poderia encontrar do que o acontecimento maior que foi a inesperada resignação de Bento XVI, uma corajosa decisão há séculos não vista na Cristandade, e só própria de grandes Homens.

Felizmente que o vazio deixado depressa passou, com o “Fumo branco” a sair da chaminé da Capela Sistina em sinal de “Habemus Papam”.

E minutos depois surgia na varanda da Basílica do Vaticano o novo Papa Francisco, nome do Santo de Assis, significativamente escolhido pelo primeiro Pontifício Jesuíta a sentar-se na Cadeira do Pescador.

Com expressivos gestos e palavras carinhosas, dirigindo-se aos milhares de fiéis, já na grandiosa Praça de S. Pedro, pediu que por ele rezassem, e só depois é que lhes deu a Benção papal, o que calou fundo em todos quantos tiveram a graça de ver e ouvir o Papa argentino, filho de italianos, a dizer também ter vindo do fim do mundo.

 

Prosseguindo, saliento o dia 7 de Janeiro, por ser aniversário natalício de saudosa esposa, há sete anos chamada por Deus para a eterna morada.

Recordo que centenário, em 2013 ocorrido, foi lembrado pelo ilustre Mons. Júlio da Rosa, salientando, neste semanário, o valioso contributo dado à Acção Católica com repercussão na sociedade faialense.

Embora de Angra natural, foi no Faial que viveu meia vida e em que se realizou: na chefia da Estação Telefónica dos CTT; militante activa do CDS de que foi Delegada Nacional nos Açores; participação interessada nas Escolas Comunitárias, um projecto piloto a nível nacional, no Faial implementado pelo Dr. Costa Garcia, ilustrado flamenguense; e acima de tudo foi Esposa e Mãe a quem muito ficámos a dever.

 

Saudade sem fim igualmente me deixou o Humberto Manuel, meu sobrinho e afilhado de baptismo que não resistiu a virus desconhecido, após anos a lutar contra a cegueira, mantendo sempre uma calma que me deixava sem palavras.

    Foi prestigiado funcionário da SATA, função que exerceu proficuamente, tanto em Santa Maria onde casou, como em Ponta Delgada, em cujo hospital faleceu em Dezembro.

Familiarmente, além duma vida exemplar, foi um bom marido e pai amigo dum casal de filhos.

 

Na política, vi com agrado a eleição de ilustrada patrícia Drª. Ana Luís para a presidência da ALRA, honroso cargo que voltou a ser exercido por faialense.

Como agradado fiquei com a entrada no Parlamento açórico, pela primeira vez no regime autonómico, duma deputada da Democracia Cristã, Doutora Graça Amaral Silveira, minha sobrinha e afilhada de baptismo, seguindo-se dias depois a deputada por São Jorge Ana Espinola que substituiu Luís Silveira por este ter conquistado a Câmara das Velas, ilha que elegeu o saudoso Prof. Rogério Contente no primeiro acto eleitoral na Região após o 25 de Abril.

 

Ainda na qualidade de faialense causou-me, porém, natural decepção, e com certeza à grande maioria de conterrâneos, por desrespeito à apregoada unidade e desenvolvimento equilibrado da Região, o encerramento da Estação Rádio Naval da Horta, com uma centena de anos de bons serviços no Faial e Açores.

Recorde-se que tal aconteceu com a conivência do Governo Regional, sedeado em São Miguel, a ilha beneficiada com tamanha injustiça.

Não deixámos de oportunamente lamentar a presença de entidades locais na “fúnebre” cerimónia no monte das Moças, com significativas excepções de ovelhas que, no caso, não foram ranhosas”.

 

Surpreendido também fiquei, mas pela positiva, ao saber que Mário Mesquita está a gozar a sua merecida reforma, como antigamente informava o noticiário local da imprensa diária.

E principalmente por o prezado amigo ter vencido a sua conhecida modéstia, possibilitando que através deste jornal as suas miniaturas artisticamente trabalhadas em madeira pudessem ser divulgadas.

Como lemos, são sugestivas amostras da vida de ontem nestas ilhas quer em terra (carros de bois) quer no mar (barcos do Pico) que muito contribuiram para o pão nosso de cada dia.

 

Momento alto do Ano Velho foi, sem dúvida, a merecida homenagem ao médico micaelense Dr. Decq Motta que, no Faial, exerceu com a admiração geral o seu múnus na pediatria e como anestesista no Hospital.

A todos atendia com meritório profissionalismo, dando mesmo atenção especial aos mais necessitados.

Significativo foi colocação do seu busto em bronze na Praceta em frente ao edifício da Casa dos Pescadores, Instituição a que o homenageado emprestou louvável colaboração.

De recordar ainda o facto de, há anos, a Câmara Municipal ter dado o nome do Dr. Luis Carlos Decq Motta a uma rua da Horta, eternizando assim a presença do ilustre micaelense na Ilha do Faial.

 

Também não me passou despercebida a iniciativa da Universidade Sénior em, fim de Ano, levar à cena, no “Amor da Pátria”, uma peça por meu pai escrita, destinada aos estudantes do Liceu com vista a uma excursão a Ponta Delgada em 1937 que, porém, não se chegaria a realizar com a incompreensível desculpa à última hora: não haver condições para a sua recepção, o que causou natural desagrado nos liceais.

Mas nem por isso “Tribulações do Senhor Parreira deixou de ser representada, vezes sem conto, nos palcos das ilhas do Triângulo, sendo até agora lembrada passados que são três quartos de século.

E caso curioso que até foi muito gozado pelos estudantes quiçá a fazer esquecer a decepção: Como estivesse a adivinhar o futuro Constantino Amaral Jr. pôs na boca do “Senhor Parreira” a última ordem dada ao Custódio: malas para dentro.

 

Com satisfação registei ainda o facto de o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos ter recebido o visitante “Cem Mil” no curto espaço de 5 (cinco) anos, já que aberto ao público a 16 de Agosto de 2008, em cerimónia que tinha merecido música, mas alegre.

Trata-se, na verdade, de um Centro que orgulha o Faial, e que, sem querer bater na mesma tecla, corre parelhas com o DOC, pois ambos, só por “mero” acaso, terão caído na minha Ilha.

 

Estranhámos pois que tenha sido por falta de clientes o maldito encerramento do Hotel Horta, mesmo em vésperas da época alta, deitando no desemprego duas dezenas de empregados e com consequências negativas na parco economia faialense.

Isto quando em pleno Verão houve turistas que tiveram de atravessar o Canal para irem dormir ao Pico!.

 

E quando chegam dois novos barcos para operarem no Grupo Central, particularmente no Triângulo, em substituição dos Cruzeiros – do Canal e das Ilhas – a cuja construção muito se interessou o Pico/faialense Dr.Tomaz Duarte Jr, quando chefiava, com reconhecido prestígio, a Secretaria Regional dos Transportes.

Por sinal, a Comunicação social já deu o devido relevo às novas embarcações, com capacidade para 333 passageiros e 8 viaturas (Mestre Simão), já referido num tópico, e para 287 passageiros e 12 viaturas (Gilberto Mariano).

Quanto a este último, o seu nome terá motivado algumas confusões fora do Triângulo: o DI intitulou-o de “Mestre…” mas o texto saiu correcto, enquanto a RTP lhe chamou “Mestre Gilberto Mariano”, da primeira à última palavra.

 

J ulgo poder afirmar que, nestas ilhas mais debaixo, não haverá ninguém que não saiba quem foi o popular Gilberto das lanchas, podendo mesmo ser considerado como “Homem do Canal”, quiçá até quem mais vezes o tenha atravessado e que melhor o conhecia quer o mar estivesse como “mel” quer em dia desse “mau tempo” por Nemésio eternizado.

Nunca o vimos com a mão na roda do leme, mas tivemos ocasião em dia de borrasca de o ver saltar corajosamente para o velho cais da Madalena, agarrando destro o cabo da lancha lançado para segurar a embarcação e a dar ordens na atracagem, trabalho em que era de facto mestre.

Não menos complicada seria sua manhã na Horta, atravessando a cidade de lés a lés com a sua carrocinha a transbordar de encomendas e bolsos cheios de cartas e bilhetes.

Porém, mais que o auxiliar a desenrascar-se de tantos sobrescritos, era lembrar-lhe o “Aricana”, alcunha popular dada pelos ingleses das Companhias pela garra que punha nas pelejas futebolísticas entre o British e o Fayal Sport em que alinhava a “back”, aliás a posição que tinha no Pico Sport, de equipamento também verde.

 

E voltando ao mar da cidade, visitante especial houve que, embora chegando de surpresa, acostou no molhe mais comprido do novo porto da Alagoa.

Era o “Funchal 2” que, recauchutado, volta aos cruzeiros no Mediterrâneo, mas agora com extensão aos Açores, qual filho pródigo, regressando à casa paterna.

Um navio que, com o “Angra do Heroísmo” esteve no fim de período ligado à comunicação marítima do Arquipélago com Lisboa, Cidade tida até como destino dos açorianos, pois ninguém dizia ir para Coimbra ou ….

Se não foi áureo, pelo menos muito contribuiu para o desenvolvimento destas ilhas.

Vieram substituir o “Lima” e o “Carvalho Araujo” numa desejada política de modernização, já que os governantes de então não eram tão “tacanhos” como parece ser chique fazê-los…

Por sinal, nos quatro me desloquei a Lisboa, gozando das suas melhores acomodações e maior velocidade, especialmente o “Funchal”, construído propositadamente para a carreira insular.

 

Teria sido uma boa nota para fecho, se não tivéssemos outra, quiçá mais pessoal, e que nos deu natural alegria.

É que vai para três décadas e como Irmão do Império dos Quatro Cantos, um dos mais representativos da Cidade Património Mundial, sito em rua paralela à de Jesus, onde moro, e a uma centena de metros da minha casa em que venho recebendo por vezes a visita semanal de uma das Coroas do Divino Paráclito.

 Mas pela primeira vez calhou-me em sorte ter o Estandarte e a Coroa principal o ano inteiro.

E na tarde da Festa, no Segundo Domingo de Bodo (da Trindade), sempre vou ao Império pagar a cota, recebendo uma brindeira de massa doce, de sabor parecido com a massa sovada faialense, cumprindo, assim linda tradição.

Em Angra, angrense!

* O autor não escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico

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