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O valor da experiência

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Sempre fui obsessiva com os prazos de validade, principalmente com os da comida. Respeito outros escrupulosamente, os das Autoridade Tributária ou da Segurança Social. A mim não me apanham eles.
Voltando à comida, se o ovo passou um dia da data, toca a metê-lo em água e perceber se flutua ou afunda. O mesmo com os iogurtes. Já com os legumes comprados à peça, guio-me pela cor, pelo cheiro e invariavelmente opto pelo desperdício, não vá aquele verde tão saudável me levar à descarga inusitada.
Tem tudo a ver com a experiência. Entre amigos, alguns fazem concursos com produtos fora do prazo, numa demonstração de que os fabricantes, na verdade, reservam uma margem comestível que não faz mal. É igualmente um sinal de descontração, mais por aí, menos pela preocupação com a pobreza, digamos no Bangladesh.
Até ver, os meus amigos não têm razão de queixa. Têm experiência. Já eu, só de pensar que me pode fazer mal, somatizo numa ligeira cólica. A mesma que sinto perante uma tarefa nova. Não porque me faça mal, mas pela excitação do fazer. Invariavelmente não há experiência que me valha. Vou degustando, tal qual a criança que come a troco de uma boa história, colher de sopa atrás de colher de sopa.
É esse o valor da experiência. Primeiro comer a colher de sopa, depois dar a colher de sopa e ao mesmo tempo (aqui já estamos a falar de duas valências!) contar a história. Ninguém tem que saber tudo e o grau da idade tem muito que se lhe diga.
Aposto que existem vários estudos sobre a problemática das habilidades exigidas em cada faixa etária. Alguém os leu, ou pelo menos o resumo e as conclusões, sendo que os resultados são “de bradar aos céus”. Alerto que o que divulgo de seguida é tão simplesmente o resultado de um estudo que fiz. A premissa básica é a observação. Concluo que o meu corpo é mais novo que a minha idade e que me sobra energia para aplicar a minha experiência, de vida, bem sabe.
Concluo também que existem os que não têm experiência porque não têm idade para tê-la e assim mesmo têm de saber tudo, obviamente a troco de uma parca verba, sem discussão, os que têm experiência e por tê-la não se encaixam porque o valor da experiência é exorbitante e ainda os que, apesar da idade, de nada lhes vale a experiência.
Claro que existem aqueles que enquanto ganhavam a enorme experiência e portanto estavam extremamente focados, respeitavam todas as curvas do trabalho e perderam alguns comboios, comboio “Bala”. O mundo mudou com forte bala. É verdade. Mas quem é que me diz que só pela idade não tenho lugar na carruagem?
Volto aos legumes verdes e o meu sorriso transforma-se em brócolo amarelado, quem sabe ainda comestível e sem efeitos colaterais. A experiência diz-me que um brócolo amarelado não tem problema nenhum. Só é menos saboroso. Já um iogurte talhado na superfície não me convence.
Uma coisa é certa: é preciso alguma experiência para falar de alhos e bugalhos e fazê-los pertencer à mesma família.

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