O valor da paisagem açoriana

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Existem, nos Açores, duas áreas onde se concentram os recursos naturais de maior valor: a linha de costa e as zonas de maior altitude das ilhas. Na linha de costa propriamente dita, a presença de arribas e escarpas permite a preservação de ecossistemas e espécies endémicas, nativas e migratórias nos locais mais inacessíveis. Nas zonas de maior altitude os ecossistemas e espécies endémicos encontram-se preservados em zonas acidentadas e montanhosas, nas caldeiras com vertentes muito declivosas e nos planaltos com zonas húmidas. As áreas de baixa e média altitude estão já muito alteradas pela ação humana e por isso mesmo os ecossistemas e espécies endémicos que aqui existem têm uma importância acrescida, como é o caso da encosta do Varadouro, no Faial. 

Para além destas duas principais áreas – linha de costa e zonas de maior altitude das ilhas – onde se encontram os elementos de maior valor natural da nossa paisagem, pode-se destacar a vegetação natural endémica e nativa como um elemento da paisagem que lhe adiciona um valor intrínseco sempre que surge. O valor da vegetação natural endémica e nativa dos Açores pode ser resumido nos seguintes aspetos: 
– Permite a recarga de aquíferos por meio do favorecimento de uma infiltração de água gradual, diminuindo o escoamento superficial e a erosão associada. Este facto é especialmente patente na presença de turfeiras;
– Capta a precipitação de origem orográfica e os nevoeiros que são essenciais para a própria subsistência da vegetação do tipo laurissilva, um vez que esta não suporta uma grande intensidade de exposição solar;
– A preservação de espécies de vegetação endémicas que são relíquias do Terciário tem um valor patrimonial acrescentado, no entanto a mera presença de áreas com vegetação natural pouco ou nada alteradas pelo homem é já um facto de elevada importância a salientar, num contexto Europeu em que a maior parte da vegetação reflete uma ocupação cultural muito marcada;
– Favorece a preservação da fauna, nomeadamente da fauna de artrópodes e aves endémicas, algumas estritamente dependentes de habitats particulares e endémicos do arquipélago;
– Introduz um aporte de diversidade à paisagem particularmente se se tiver em consideração a homogeneidade de usos do solo que a ocupação cultural predominante de pastagens acarreta;
– Se integrada em sebes de compartimentação a vegetação natural pode ter um valor acrescentado pois preenche todas as funções de uma sebe e para além disso pode permitir a conectividade entre ecossistemas naturais de diversas altitudes;
–  Se integrada em corredores ripícolas das linhas de água esta vegetação pode contribuir para assegurar a continuidade entre manchas de vegetação natural e assim permitir a preservação e regeneração natural da paisagem.     
Este entendimento, apesar de ser consensual entre a comunidade científica, o pessoal técnico das entidades responsáveis pelo ambiente e parte da população (nomeadamente a estudantil) não foi ainda assimilado pela população em geral e pelo turismo. Assim, se para uma parte da população o valor da paisagem dos Açores se encontra – em termos de vegetação – na vegetação natural endémica, existe outro sector para quem a imagem de Açores “natural” se encontra associada às pastagens e sebes, de hortênsias ou outras, e às matas verdes escuras de criptoméria. Gera-se assim um conflito de visões que reside no facto da paisagem mais rica em termos ecológicos não ser valorizada por todos em termos estéticos. O ordenamento das áreas de maior valor natural e cultural, e a sensibilização ambiental no sentido de que a população e os turistas entendam a importância da vegetação natural e dos ecossistemas endémicos e nativos são pontos-chave numa mudança de atitude que garanta a preservação ambiental e um correto aproveitamento dos recursos presentes.

 

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