
As mudanças que os Açores atravessam, no que diz respeito ao turismo e ao ambiente, são muito mais profundas do que se poderia pensar à primeira vista. Os seus efeitos visíveis não são apenas a presença das companhias aéreas “low cost”, o aumento em mais de 20% do número de dormidas de um ano para o outro na hotelaria tradicional, o crescimento exponencial do alojamento local ou o incremento da restauração. Essas mudanças sentem-se também ao nível das áreas protegidas, com a intensificação da utilização dos trilhos e miradouros e a pressão para a criação de outros, que pode aumentar quando se publicita a presença de uma natureza intata.
No entanto, aquilo que este arquipélago verdadeiramente possui é uma paisagem única, com uma singularidade muito própria, que resulta das suas caraterísticas de localização particulares, no Atlântico Norte entre a Europa e a América, e com a maior juventude e as latitudes mais elevadas de toda a Macaronésia. Aqui, os processos de construção da paisagem vulcânica ainda são evidentes, com sismos, vulcões, fumarolas e outros fenómenos de vulcanismo secundário, que influenciam tanto a forma da paisagem como o modo do açoriano se relacionar com ela. É também o arquipélago mais a norte onde se encontra um clima temperado quente e as condições climáticas ditam as particularidades da vegetação natural endémica.
A vegetação natural endémica dos Açores é caraterizada pela sua baixa diversidade em relação aos outros arquipélagos da Macaronésia e pela fragilidade dos ecossistemas. Este é um dos arquipélagos oceânicos mais isolados e o modo como plantas e os animais aqui chegaram e se articularam para formar ecossistemas viáveis não está ainda totalmente clarificada. Além disso, algumas espécies vegetais são relíquias da era Terciária, extintas nas zonas de origem, e outras diferenciaram-se por adaptação às condições locais e por isso são únicas.
O reduzido número de endemismos açorianos é precisamente o que os torna tão preciosos. Como exemplo refira-se que são menos de 80 as espécies de flora vascular endémica. A perda de qualquer uma destas espécies tem um impacto enorme na biodiversidade e coloca em risco as funções ecológicas que essa espécie desempenha. Atualmente, a vegetação endémica e a biodiversidade associada encontram-se cada vez mais isoladas, na mancha dominante de vegetação introduzida, mesmo no interior das áreas protegidas. Mas não tem de ser assim.
A paisagem não é só constituída pela vegetação natural ou naturalizada é também, e acima de tudo, constituída pela interação do homem com o seu meio natural, e dela fazem parte os diversos usos do solo, as sebes, os muros de pedra e os elementos da arquitetura de produção tradicional como as eiras e cisternas. O assumir destes elementos como valores de paisagem e a sua articulação em percursos de interpretação que mostrem a evolução da paisagem e das culturas agrícolas, a sua adaptação aos tipos de solo existentes e às condições climáticas locais permitirá a criação de novos trilhos igualmente interessantes, aliviando a pressão humana sobre os ecossistemas naturais de maior sensibilidade.
Estes trilhos podem continuar a ser parcialmente integrados nas áreas protegidas uma vez que, mesmo nas áreas de Rede Natura 2000, mais de 25% dos solos são agrícolas. No entanto, deverão ser cuidadosamente planeados para que sejam preservados os habitats classificados, os principais elementos geológicos e geomorfológicos, as zonas costeiras e as espécies de flora e fauna relevantes para a conservação da natureza. Para a manutenção dos trilhos menos sensíveis do ponto de vista ambiental podem estabelecer-se parcerias com as câmaras municipais e juntas de freguesia que para isso poderão concorrer a fundos comunitários. Esta é uma alternativa para os Parques Naturais que se assim se podem focar na sua principal prioridade, a conservação da natureza.
Os trilhos já existentes deverão ser analisados por troços, cruzando-se a informação existente sobre os valores naturais presentes (com particular relevância para a Rede Natura 2000) com as altimetrias dos locais, dados sobre os tipos de solo, para avaliar a erosão, sistemas de vistas e carga humana potencial. Desta avaliação surge uma proposta de manutenção, recuperação, melhoramento ou abandono dos troços. Após essa avaliação dos trilhos poderão estabelecer-se os locais preferenciais para a localização de novos percursos e miradouros.
É no âmbito dos Planos de Ordenamento e Gestão dos Parques Naturais de Ilha que se poderá definir o zonamento associado à categorização do grau de proteção ou intervenção nas diferentes áreas. Ao associar a informação da sensibilidade ecológica à carga humana presente e ao potencial interesse paisagístico, podemos delinear uma estratégia de intervenção na paisagem nas áreas protegidas. Respeita-se assim o ambiente e permite-se a fruição dos espaços com sustentabilidade. É importante não esquecer que não é por uma atividade ser classificada como “turismo de natureza” que se torna sustentável por definição. É necessário criar condições para a efetiva conciliação do ambiente e do turismo!













