Os erros dos transportes marítimos de passageiros

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 Os transportes marítimos de passageiros nos Açores têm assistido na última década a um sem número de episódios e a uma estratégia que poucos percebem mas que todos pagam para ter, se bem que seja uma afirmação discutível dizer que se tem transportes marítimos de passageiros nos Açores.

Ao nível regional, parecia que este serviço já há muito jazia, desde o Ponta Delgada, entre outros, fruto da evolução dos tempos. As viagens aéreas, com maior frequência e rapidez, compensavam o valor do bilhete, tendo afundado por completo as ligações marítimas de passageiros entre ilhas de grupos diferentes e o continente português.

Assim, reiniciar o ciclo de vida deste serviço com os mesmos pontos fracos – lento e pouco frequente – tem apenas uma lógica, a de que em ilhas que se pretendem turísticas parece não fazer sentido a inexistência de cruzeiros entre elas. Também logo se percebeu que, para o arranque de uma actividade que requer equipamentos caros e sem mercado no início da exploração, esta só poderia ser (fortemente) subsidiada.

Ao que parece, já foi tudo testado, concursos para subcontratação do serviço por empresas privadas, com embarcações de vários tipos (mas de muitos anos) e mais recentemente a criação de uma empresa de capitais públicos e – imagine-se – até se mandou e se construíram embarcações dignas da Atlântida.

Até aqui, parece que a política está correcta: um governo a alavancar uma actividade económica que não existe a nível regional, testando modelos, subvencionando a actividade, com privados e depois com uma empresa pública, e colocando a fasquia bem alta, com embarcações novas. Mas, afinal, o que falhou? Muita coisa!

Em primeiro lugar, embora se pretenda uma economia liberal, para que este sector seja eficiente tem que ser monopolista, à semelhança do transporte aéreo, que é detido por uma única empresa. Neste caso, seria a mesma coisa, mas o que é feito não é isso. Tanto se fala de massa crítica e havendo-a, assim como a experiência, e sendo a Região accionista dessa empresa, faria todo o sentido expandir o negócio para a dimensão regional.

Mas os faialenses sabem bem porque isto não aconteceu, pois o economista político que a Região tem faz de tudo pela economia, desde que não seja no Faial; seria impensável para os secretários de um governo que não tem faialenses ter uma empresa regional monopolista de transportes marítimos de passageiros com sede na Horta.

Assim, a região é monopolista nos transportes aéreos, onde existe mercado, concorrendo directamente com ela própria, e possui capitais públicos em duas empresas ao nível marítimo, sem mercado. Isto não cabe na cabeça de ninguém, mas na verdade é o que temos, e mais uma vez pagamos bem para ter.

Outro erro é  não perceber que existem vários mercados dentro da região, devido às suas características: um primeiro mercado, as ligações S. Miguel-Stª Maria, o segundo, o grupo central, o terceiro, o triângulo (Faial-Pico-São Jorge), o quarto, Faial-Pico, o quinto, Flores-Corvo, e por último, o de ligação entre grupos.

Depois destes erros comete-se outro. Se é preciso arrancar com o mercado para o tornar viável, há que ter mais que um produto, isto é, para além dos passageiros, há que ter o de mercadorias, incentivando o mercado interno.

Outra questão que não se compreende é quando se evoca a sustentabilidade e a massa crítica para se fazer investimentos nas ilhas mais populosas, e muitos deles de expansão, sem ter ainda dado oportunidade às restantes ilhas. Neste caso, o mercado de 400 000 pessoas existe no triângulo e manda-se construir embarcações novas para inter-grupos e deixa-se os Cruzeiros (Cruzeiro das Ilhas e Cruzeiro do Canal) à beira do colapso? Esta política marítima de passageiros tem sido muito injusta para as populações que necessitam e utilizam este meio de transporte. Mais grave ainda é ver-se normalmente políticos da cor do Governo a criticar a Transmaçor, para desculpar os seus erros e atenuar os seus pecados…

frgvg@hotmail.com 

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