Início Artigos de opinião Cláudia Ávila Gomes Os miradouros como locais de entendimento da paisagem

Os miradouros como locais de entendimento da paisagem

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A conciliação do ambiente com o turismo implica a resolução de potenciais conflitos. Entre eles, poderá estar a eventual necessidade de recuperar os ecossistemas presentes nos locais a visitar, a que se alia a provável necessidade de criar uma experiência turística marcante, que seja ambientalmente responsável, segura e confortável para os visitantes. Nesse sentido, há que definir regras de utilização da paisagem que limitem a pressão humana.
Em certos casos pode ter que se definir um número máximo de visitantes por dia para um determinado local, ou seja, a capacidade de carga humana que os ecossistemas e paisagens podem suportar. Noutras situações pode ser necessário tomar medidas no sentido de diluir a pressão humana nas paisagens mais concorridas. O estudo dos diversos pontos de observação potenciais sobre uma determinada zona de interesse como, por exemplo, a Caldeira no Faial ou as Sete Cidades em São Miguel, poderá indicar a possibilidade de criar diversos miradouros igualmente interessantes e estrategicamente localizados. Desta forma, poderemos reduzir a carga e melhorar a qualidade da visitação.
As soluções de desenho arquitetónico adotadas para os miradouros, pontos de paragem e locais de interpretação da paisagem devem ser cuidadosamente estudadas, de modo a potenciar a eficácia da transmissão da mensagem a vincular e a criar uma imagem do local que contribua, também ela, para aumentar a qualidade da experiência. Um desenho arquitetónico que conjugue a integração dos valores ecológicos a um espaço apreciado por ele próprio, com uma forma que se possa considerar icónica, poderá ser um meio de atrair ainda mais visitantes e valorizar a própria visita. O desenho destes pontos de interesse, para ser bem-sucedido, requer o reconhecimento e a aplicação de uma estética baseada na história e na cultura de cada lugar e nas suas potencialidades, em termos da topografia, vegetação presente e sistemas de vista potenciais.
Nas áreas protegidas, estes miradouros e pontos de interesse podem permitir a aproximação a aspetos relevantes da paisagem que possibilitem a sua interpretação com o mínimo impacto sobre os ecossistemas. O objetivo é que estes novos miradouros e pontos de interesse estrategicamente localizados apelem ao retorno dos visitantes, por lhes darem a conhecer aspetos da dinâmica dos ecossistemas a que de outro modo não teriam acesso. Entre os diversos aspetos que podem beneficiar com esta abordagem contam-se a observação dos processos relacionados com a água, a vegetação endémica, as aves endémicas e nativas, ou a fauna endémica de artrópodes.
É importante que os ecossistemas de maior valor, principalmente os habitats prioritários da Rede Natura 2000, se mantenham preservados e, nalguns casos, sem circulação interior, mas encetar esforços para que o seu potencial de interpretação ambiental e aspeto estético seja valorizado. Por exemplo, poderão ser concebidos percursos de interpretação dos processos relacionados com o papel das turfeiras no ciclo hidrológico, que sejam sobreelevados em relação ao terreno e, assim, tenham o mínimo impacto nestes ecossistemas especialmente frágeis.
A estas intervenções pontuais e limitadas no sentido de se criar uma paisagem “icónica”, onde a visitação seja possível de modo ecologicamente sustentado, deverá aliar-se um esforço de informação e sensibilização ambiental no sentido de fazer compreender às populações locais a importância e a oportunidade que constituem estes processos naturais. Por exemplo, o modo como as paisagens naturais condicionam o ciclo da água mesmo noutros locais da ilha, incluindo a recarga dos aquíferos subterrâneos e a qualidade do abastecimento público, é muito interessante.
Os Planos de Ordenamento e Gestão dos Parques Naturais de Ilha podem constituir ferramentas importantes que integram o zonamento de usos, mas também proporcionam uma estrutura coerente de visitação, onde se incluem novos pontos miradouro e locais de interpretação da paisagem. A seleção dos principais elementos visitáveis das áreas protegidas e a sua inclusão em percursos com uma forte componente de interpretação é fundamental para que toda a comunidade possa usufruir dos benefícios de possuir áreas protegidas. Estes benefícios são a presença de ecossistemas íntegros e adequadamente mantidos, e que conduzem ao equilíbrio ecológico numa área mais vasta do que as próprias áreas protegidas. São também a afirmação de uma imagem positiva das áreas protegidas que perdura e que conduz à vontade de regresso por parte dos visitantes.
A importância do homem na paisagem e do seu desenvolvimento turístico não deve desviar, contudo, a atenção de um trabalho de base de monitorização e avaliação ambiental e de recuperação de ecossistemas e paisagens, quando necessário. Assim, a intervenção em áreas protegidas não deve ser concretizada em oposição à população e ao turismo nem, por outro lado, deve resultar na adulteração da componente natural da paisagem. Há um ponto de equilíbrio que permite a saudável interação entre os humanos e o mundo ecológico tornando-a positiva e mutuamente benéfica.

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