Ouvidor António Silveira de Medeiros

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Com a nomeação de Monsenhor José Pereira da Silva para o cargo de Vigário Geral da Diocese em 1956, a Ouvidoria da Horta seria, naturalmente, entregue ao sacerdote que, interinamente, já exercera aquelas funções. Foi assim que procedeu o Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho, disso nos dando notícia a imprensa local. Efectivamente, pelo “Correio da Horta” de 11 de Janeiro de 1957 tomamos conhecimento de que o padre António Silveira de Medeiros, dedicado pároco das Angústias, acabara de ser nomeado Ouvidor Eclesiástico do Faial.
A longa e exemplar vida deste bondoso sacerdote está intimamente ligada à da comunidade faialense, de que foi membro destacado.
Natural da freguesia dos Flamengos, onde nasceu a 5 de Fevereiro de 1884, o padre Medeiros faleceu a 1 de Setembro de 1973, depois de uma intensa e prolongada entrega ao serviço de Deus, da Igreja e dos seus irmãos em Cristo a quem se dedicou de forma abnegada, simples e carinhosa.
Cursou o liceu da Horta e o seminário de Angra – cuja extinção foi decretada pela República em Outubro de 1911 – e, como a diocese de Angra se encontrava vaga desde o falecimento de D. José Correia Cardoso Monteiro em Junho de 1910, foi ordenado presbítero em 24 de Agosto de 1913 em Rendufinho, Lamego, pelo Bispo desta diocese D. Francisco José Vieira de Brito, antigo Bispo de Angra.
Numa época em que a Igreja e os seus membros eram bastante hostilizados, o jovem sacerdote nunca cedeu aos princípios essenciais da doutrina dogmática e da moral que, livre e voluntariamente, se obrigou a defender no dia da sua ordenação.
Cooperador na Maia, S. Miguel, em 1914, foi, desde Dezembro de 1916, pároco da Praia do Norte até 1922, altura em que, com 38 anos foi transferido para as Angústias. Ali se manteve durante 50 anos, onde exerceu notável apostolado, assente no seu exemplo de vida e na prática virtuosa do grande mandamento do Amor.
Honrado sacerdote, “sempre modesto, sempre recolhido nesse viver só para Deus, singelo no seu actuar e grande no seu realizar”1 ,o padre Medeiros exerceu desde os começos de 1957 e por nomeação do Bispo da Diocese, D. Manuel Afonso de Carvalho, o cargo de ouvidor da Faial, tendo sido tornado prelado doméstico de Sua Santidade o Papa, com o título de Monsenhor, no ano de 1963, quando celebrou as suas bodas de ouro sacerdotais.
As altas qualidades de Monsenhor Medeiros granjearam-lhe muito carinho e generalizado respeito. Quem o conheceu não esquece a sua personalidade bondosa, que, no entanto, não abdicava da firme certeza das suas convicções, nem lhe minguava o inexcedível zelo com que exercia o seu sacerdócio.
Como escreveu Olívia Pereira, ele “edificou com a palavra simples e incisiva dos seus sermões, dissipou trevas e irradiou luz com a sabedoria dos seus conselhos como director espiritual e no confessionário de que fez um segundo púlpito. Suavizou dores, sobretudo nas almas dos que a miúdo visitava, retidos em casa ou presos ao leito, no hospital ou no Lar de S. Francisco.”2 Ele foi, efectivamente, “um homem e um padre de carácter íntegro, recto, impoluto. Foi sempre padre no seu conceito normal e genuíno, homem de Deus, pessoa sagrada. Movia-o e animava-o a Fé. Dinamizava-o a Graça. Nunca descaiu ao longo dos 60 anos de sacerdócio. Padre na igreja e fora dela”, Monsenhor Medeiros distinguiu-se como um sacerdote “piedoso, simples e apostólico sempre e em toda a parte”3.
A testemunhar a forma como as altas qualidades de Monsenhor Medeiros se impuseram aos seus paroquianos das Angústias e ao povo do Faial, ali está a lápide da “Rua Monsenhor António Silveira de Medeiros” (antiga “Rua do Meio”) a recordar às novas gerações a figura virtuosa de um homem que, nos seus 87 anos de vida, passou pela terra fazendo o bem. 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 “O Telégrafo”, 22 Agosto 1963
2 Olívia Pereira, “Vigília”, 4 Fevereiro 1984
3 Padre José de Freitas Fortuna, “O Telégrafo”, 5 Setembro 1973

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