Padre Raimundo Garcia Bulcão Duarte – “Fala-se na Bíblia, mas depois foge-se da Bíblia”

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Raimundo Garcia Bulcão Duarte nasceu no Faial a 07 de abril de 1933.
Foi ordenado sacerdote na Sé de Angra a 21 de abril de 1957. Paroquiou na Conceição de Angra e em Santo Amaro, na ilha de São Jorge, tendo chegado à Vila da Madalena em outubro de 1967, onde esteve durante 29 anos. Em 1996 deixou o Pico e fixou-se na ilha do Faial, sua terra natal, estando à frente das paróquias da Conceição, Praia do Almoxarife e posteriormente nos Flamengos, a sua última paróquia. Com 88 anos, mantem o gosto e a prática do estudo da Palavra. Ordenou-se antes do Concílio Vaticano II, mas deixou-se impregnar pela renovação conciliar e procurou transmiti-la e atualizá-la.

O Tribuna das Ilhas conversou com este sacerdote que, como disse o Bispo de Angra, “soube ser portador de esperança contagiando todos aqueles que com ele contactaram”.

Tribuna das Ilhas (TI) – Estamos nas vésperas do Domingo de Pentecostes, que inicia um tempo de grande religiosidade popular nos Açores. Como explica o apego dos açorianos ao culto do Espírito Santo, tão forte por todas as ilhas?
Padre Raimundo Bulcão (PRB) – Está aqui uma questão que é nossa, que é da Região, que é da maioria das pessoas, se bem que os mais novos já não estejam muito voltados nesse sentido. Nós criamos hábitos, tradições, e depois temos uma imensa dificuldade em nos libertarmos, em sermos nós próprios, em fazermos as nossas afirmações pessoais. Herdamos, recebemos e agora temos de guardar. Não significa necessariamente isso. A religiosidade não é isso. Se formos ler hoje a Palavra, vamos descobrir que há perspetivas diferentes, nomeadamente no próprio Papa, que nesse sentido é fantástico. Ele quando acha que pode intervir e que deve intervir, mesmo que aquilo não seja bem compreendido e aceite por muitas pessoas, não tem medo e avança mesmo.

TI – Então porque muitos aspetos que rodeiam o culto do Espírito Santo são mais expressão de religiosidade popular e menos expressão de uma fé interior, acha que a atual pandemia, porque interrompeu algumas manifestações dessa religiosidade que estava arreigada nas pessoas, pode deixar marcas na vivência que os açorianos têm do Espírito Santo?
PRB – Esta epidemia levanta-me alguns problemas, mas nomeadamente um: interrogo-me com alguma frequência: ó Senhor, o que é que pensas desta epidemia? Qual será o Teu objetivo? O que pretendes realmente mostrar-nos a partir desta realidade concreta? Porque a cadeia com que ela se desenvolve parece não terminar; aparece uma faceta, depois outra diferente, e mais outra, e depois outra, e, no fim, as pessoas andam todas caldeadas, sem saberem até onde é que isto vai e até onde nos leva.

TI – O senhor Padre foi e é um estudioso da Bíblia e um sacerdote que pensa a religião. Como vê o lugar da religião e do Cristianismo no mundo de hoje?
PRB – Estamos numa encruzilhada e devíamos fazer as coisas de outra maneira. Devíamos voltar atrás. Tomar a Palavra e procurar alinhar a nossa vida, os nossos atos, os nossos afetos, a partir da própria Palavra. Tenho comigo um livrinho muito interessante: As melhores parábolas de Jesus. São 50 parábolas. É um livro de uma senhora Rita Carvalho, licenciada em Ciências da Comunicação pela Universi-dade Nova de Lisboa, e que foi jornalista durante 15 anos no Diário de Notícias e no semanário Sol, e atualmente trabalha com os Jesuítas portugueses. Ela escreve de forma notável e exprime-se de uma forma interessantíssima, adaptada aos tempos que correm. O livro foi-me oferecido pelos meus anos pela minha sobrinha-neta e ele merece realmente ser conhecido e divulgado porque é importantíssimo perceber as mensagens, perceber as parábolas. Fala-se na Bíblia, mas depois foge-se da Bíblia: em vez de se explicar, de se mastigar e clarificar a Bíblia e aquilo que se acabou de ler, faz-se outra coisa muito diferente: vão buscar-se outas palavras, outras imagens e depois é uma confusão na cabeça de quem nos ouve.

TI – Então o caminho é um recentrar do Cristianismo na Palavra e regressar ao exemplo das comunidades da Igreja primitiva?
PRB – Certo. E hoje há muitas comunidades de homens, senhoras e jovens que estão muito abertas a isso e que estão já fazendo alguma coisa, mas têm sentido dificuldades. Mas sem isso, isto não vai com Sínodos nem com coisas parecidas, pois falta um alimento que é anterior.

TI – Já antes da pandemia se verificavam alguns sinais preocupantes sobre a situação da Igreja católica, que a pandemia certamente agravou. Como interpreta sinais como o esvaziamento de jovens na Igreja, o envelhecimento crescente dos fiéis presentes nas celebrações, a dificuldade em gerar catequistas?
PRB – Tudo isso são sinais e não sei se a pandemia ainda não veio complicar mais. Será isso que o Senhor nos quer dizer? Porque temos andado por maus caminhos, que não nos levam a parte nenhuma, é muito possível que o Senhor nos esteja a querer dizer assim: vocês têm de mudar de pensar, abrir-se à ação do Espírito Santo, que trabalha as pessoas, as mentes, os corações, como fez, por exemplo, no caso do Dr. Manuel Costa Garcia e que deu como fruto esse símbolo da partilha com o próximo, sobretudo o mais carente e necessitado, e que é o Centro do Divino Espírito Santo.

TI – Acha que, hoje, os católicos são em menor número, mas são mais esclarecidos e conhecedores da sua religião?
PRB – Não tenho essa impressão. Quantas pessoas existem nas nossas comunidades que são capazes de parar, de encontrar durante o dia, um momento de silêncio, de interiorização, de se questionar: “mas, ó Senhor, o que é que Tu queres de mim? O que é que eu posso fazer? O que é que está nas minhas mãos, nas minhas capacidades, fazer em primeiro lugar em favor de quem vive a meu lado?”.
TI – Esteve durante 29 anos como Pároco da Madalena do Pico. Defende, em termos organizacionais, que a melhor opção é a permanência longa do mesmo sacerdote na mesma comunidade ou, pelo contrário, entende que a permanência deve ser de ciclos mais curtos?
PRB – Nós vivemos em comunidades de hábitos e de tradições. No meio de tudo isto, implantarmos a prática de que ora está aqui, daqui a uns anos vai para outra paróquia e vem outro, cria um estado de espírito que não é propício ao momento que estamos a viver.

TI – Quando e como nasceu a sua vocação para o sacerdócio?
PRB – O Dr. Manuel Costa Garcia teve influência. Embora ele tenha tirado o 6º ano do Seminário e, nesse contexto, vai para Roma e vai tirar Teologia. Porque é que ele tira Teologia, se queria deixar o Seminário e desistir da vocação inicial? E depois Sociologia? É porque ele via, quer numa coisa, quer noutra, uma oportunidade para descobrir mais e melhor qual era a sua vocação.

TI – Ordenou-se há 64 anos. Quando olha para o seu percurso como sacerdote ao serviço de várias comunidades, quais os momentos que para si foram mais gratificantes?
PRB – Às vezes digo que encontrei pessoas bastantes simples, de trato agradável, que procuravam o sacerdote, levantavam algumas questões, e que estavam abertas à ação da graça. Eram pessoas que tinham a capacidade de encontrar momentos de concentração na sua vida e a partir daí tentar fazer a sua caminhada. Por exemplo, na Conceição de Angra, aproveitámos o rés-do-chão do Passal para criar um Centro, um espaço onde o grupo de jovens (na altura só de rapazes) se pudesse encontrar, estar uns com os outros, conversar, praticar vários jogos. Encontrei lá jovens com muito entusiasmo, muita garra. Vim, depois, para S. Jorge, e é curioso que, num dos lugares da freguesia da Boa Hora, também surgiu um Grupo muito interessante, do qual faziam parte alguns que tinham regressado do Ultramar e estavam à espera de organizarem a sua vida e encontrar trabalho. E então na Madalena lembro-me de alguns acontecimentos diferentes. Lembro-me que fizemos a primeira celebração a 22 de julho de 1968. Foi muito interessante. Os jovens responsabilizaram-se pelo Canto na Liturgia da Missa Solene. Eram cento e tal jovens. Promovía-mos Encontros de Jovens no Salão da Cofaco. À medida que fomos avançando no tempo, foi surgindo como uma necessidade imediata acudir numa situação muito concreta: os jovens que gostavam de estudar e que os pais podiam suportar os custos, eram encaminhados para a Horta e ao fim do domingo eles estavam de malas feitas para voltar à Horta e regressavam na 6ªfeira seguinte, ao convívio dos seus pais e família. Impôs-se a colaboração a nível da constituição de uma instituição, uma escola, um Externato que acolhesse não só estes, mas também outros estudantes que os pais não tinham possibilidades económicas para mandar para o Faial. É claro que levou muito tempo na sua constituição, mas foi avante. Aqui, no Faial, as coisas foram um bocadinho diferentes. Falta, às vezes, o interesse. As pessoas são muito acomodadas: “ah…isso não é possível! Não vale a pena!”.

TI – Quando olha para 64 anos de vida sacerdotal, os momentos mais gratificantes que regista são os do trabalho com os jovens…
PRB – Com certeza. Mas também, em dimensão mais reduzida, no campo da Liturgia tivemos um grupo que semanal ou quinzenalmente se reunia à volta da mesa para ler a Bíblia e partilhar: eu penso isto, o que é que os outros pensam, o que é que o Senhor nos está a querer dizer e a propor. Marcou-me também muito a participação habitual que procurei ter na frequência de cursos. Por exemplo, o “Curso do Mundo Melhor” durante 25 dias em Lisboa; vários cursos de Verão em Teologia com os Dominicanos; e também vários cursos da Bíblia. Isso ajudou-me muito! Não só aquilo que nós ouvíamos dos orientadores, mas a partilha com outros participantes, jovens, religiosos, leigos de outras localidades e com outras experiências, gente que tinha um testemunho a dar muito rico e interessante.

TI – E momentos difíceis que o marcaram durante este tempo?
PRB – Houve alguns momentos difíceis, sobretudo incompreensões. Há coisas que às vezes temos dificuldade e uma delas aceitar pontos de vista diferentes dos nossos.

TI – Com a sua experiência de vida, que mensagem gostaria de deixar aos cristãos do nosso tempo, particularmente aqueles que estão no Faial?
PRB – Que toda a gente fosse capaz de encontrar-se uma vez por semana, para começar. Não para recitar orações que os outros fizeram, mas para pensar, para ouvir o que é que o Senhor nos quer dizer nesta hora em que surgem tantas complicações. O que é que eu posso fazer? O que é que tu podes fazer? O que é que um filho pode fazer? Ou não deve fazer? Sozinhos. Sem interferências. Sem barulhos. Sem ninguém a chamar a atenção para isto, para aquilo ou para aqueloutro. Encontrar-se consigo. Pode ser na Igreja. Pode ser em casa. No meio de um pasto. O que é que o Senhor me quer dizer neste momento?

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