Página Mensal da Delegação Regional da Ordem dos Psicólogos Portugueses

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Nota de Abertura – A propósito do Dia de Portugal

No mês em que se assinalou o dia de Portugal urge refletir sobre o país que temos e para onde pretendemos ir. A Delegação Regional dos Açores considera que a Ordem dos Psicólogos Portugueses tem pautado a sua atuação pelo debate público em torno de causas que poderão contribuir para a melhoria de vida dos cidadãos e para o desenvolvimento sustentável de Portugal.
Para o efeito, considere-se as inúmeras áreas de intervenção em que trabalham os psicólogos e que ultrapassam em muito as associadas historicamente ao papel do psicólogo: a saúde mental. Se esta é sem dúvida uma área transversal (a todas as outras) já que sem ela não produzimos e estaremos infelizes, a verdade é que a Psicologia se tem progressivamente afirmado em outras áreas, como o ambiente ou a saúde ocupacional.
Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 (ONU) ajudam-nos refletir sobre o que é prioritário nos Açores e para onde deveremos ir. A nossa dimensão arquipelágica promove um clima de proximidade social facilitador de uma intervenção que se pretende cada vez mais interdisciplinar e intersectorial, onde os psicólogos poderão contribuir para um fim comum: o bem-estar das pessoas e o desenvolvimento da sociedade e é assente nestes pressupostos que surge a vontade de realizar o OPP Açores II congresso.

M Luz Melo

Ficar dependente não é uma escolha

dedo às pessoas que têm uma dependência e não o fazemos, por exemplo, em relação às que tem diabetes ou hipertensão? Porque uns escolheram ficar doentes e outros não?
Quem consome uma primeira vez não o faz para ficar dependente e muitas vezes minimiza até esta possibilidade, considerando que a situação estará sempre controlada.
A verdade é que rapidamente se fica dependente porque o organismo começa a pedir mais! O mesmo acontece em relação às dependências sem substâncias, nomeadamente, o jogo ou a internet.
Neste sentido, a escolha da pessoa foi consumir, não foi ficar dependente! Muitas vezes o consumo de substâncias é apenas um sintoma que mascara um outro problema e aqui poderão estar incluídas diversas patologias do foro mental e/ou físico.
Os preconceitos impedem-nos de ver noutras perspetivas, de nos colocarmos no lugar do outro e tentar ser empáticos. Empáticos e não simpáticos porque a empatia é a capacidade que nos pode levar a ajudar efetivamente os outros. Ser empático é esforçar-se para compreender, é ter a capacidade de compreender sentimentos, emoções e comportamentos. Enquanto não nos despirmos de determinados preconceitos, nunca conseguiremos ser empáticos.
A nossa sociedade e, quando digo sociedade, incluo também os profissionais de saúde, não foi ainda capaz de se desprender do preconceito associado às dependências e ao consumo de substâncias. Urge a necessidade de trabalhar, e trabalhar muito no sentido de educar as pessoas e de as fazer entender que esta é uma problemática que acarreta grandes custos para todos, consumidores, famílias e comunidade em geral. Este preconceito que se encontra difundido na opinião pública e infelizmente também ao nível de alguns cuidados de saúde, leva-nos a apontar o dedo e criticar, ao invés de tentarmos ajudar e cuidar
É fundamental que chamemos as coisas pelo nome que elas têm! E as dependências são efetivamente um problema de saúde e como tal, carecem de tratamento e de todos os cuidados necessários e disponíveis à resolução do problema, tal como noutra qualquer patologia.
É claro que, como em qualquer outro problema de saúde, a pessoa é livre de escolher tratar-se ou não!
Tal como noutras áreas, o psicólogo é uma figura que se reveste de total importância no contexto das dependências. Nesta área o psicólogo intervém a diversos níveis, nomeadamente, na educação e prevenção, no tratamento e no suporte às famílias.
À semelhança de outros contextos de prestação de cuidados, este é um contexto em que diariamente se vivem emoções fortes e é muitas vezes necessário gerir conflitos e situações de grande tensão.
Para além do acompanhamento feito aos utentes, em que se trabalha, desde o primeiro momento a motivação para o tratamento e a prevenção das recaídas, o psicólogo é o bombeiro de serviço para apagar fogos que surgem no seio das famílias, muitas vezes basta um minuto e duas ou três palavras para que os familiares sintam que não estão sozinhos e seja minimizada a sua angústia.
Como referi atrás, quem trabalha nesta área sente diariamente que o preconceito relativo a esta temática está ainda deveras enraizado na sociedade. Assim, o psicólogo veste aqui também a farda de educador porque esta é uma batalha diária e não podemos baixar os braços e temos o dever e a obrigação de educar os outros, e fazê-los perceber que as dependências são um problema de saúde, que os consumidores merecem respeito, tal como todos os outros utentes/doentes e que todos nós somos responsáveis por construir uma sociedade melhor e livre de preconceitos.
Trabalhar na área das dependências é uma luta diária, é encarar um dia de cada vez e ter noção que nem sempre aquilo que consideramos ser o melhor para os utentes, corresponde às suas escolhas, é estar disponível para ouvir, para ajudar a gerir as frustrações e as angústias dos utentes e de todos os que com ele se relacionam diretamente.

Ana Isabel Campos Rodrigues

Ana Isabel Campos Rodrigues – Perfil
Ana Isabel Campos Rodrigues é licenciada em Psicologia Clínica Cognitivo-Comportamental pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Iniciou a sua atividade profissional em 2005, na área da violência doméstica. Desde 2012, desempenha funções no Hospital de Dia de Aditologia do Hospital da Horta EPER.

Aconteceu – Exposição Itinerante “A Depressão na Objetiva de Um Fotógrafo”

A exposição itinerante está, agora, na Terceira. A mostra, inaugurada no passado dia 4, esteve nos Paços do Conselho da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo até 18 de junho, com o objetivo de sensibilizar o público para o valor da saúde mental e combater o estigma associado à depressão.

Acontecerá – OPP Açores II Congresso

De 24 a 26 de outubro, decorrerá o OPP Açores II Congresso. O evento, que representará mais um marco da Psicologia, pretende criar um espaço de reflexão e partilha sobre os desafios que emergem na sociedade atual e os contributos da Psicologia para a sua solução. O Congresso está aberto a outros profissionais e ao público em geral. Inscrições a custos reduzidos em www.eventos.ordemdospsicologos.pt.

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