Pão e Circo

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1. Frequentemente, na Roma antiga, os edis, para conseguirem ascender a cargos de maior importância, usando o apoio popular, rivalizavam entre si na apresentação de espetáculos nunca vistos: lutas de gladiadores em número cada vez maior, combates com feras exóticas, etc. Depressa os próprios imperadores recorreram à receita e a oferta de pão e circo à população tornou-se o expediente por eles usado para manterem o povo de Roma entretido, distraído e anestesiado face aos crescentes problemas económicos e sociais do Império.

Mas, desde então, a receita tem tido inúmeros continuadores em todos os tempos e em todos os lugares. Hoje, nos Açores e no País, não há autarca que se preze, principalmente aqueles que são recandidatos, que não hesite em gastar (eles não gostam desta palavra; no seu lugar usam “investir” que é politicamente mais correto…) uma pipa de dinheiro público em festas cujo retorno, por regra, anda longíssimo do que se gastou… Mas isso, como todos já percebemos, para eles é o que menos interessa!!!

2. Na passada semana, o jornal Diário Insular publicou uma interessante peça jornalística, onde se percorre, ilha a ilha, as mais sonantes Festas de Verão, identificando-se, em cada uma, os nomes dos artistas de maior cartaz. Para que fique devidamente registado, aqui fica uma síntese de cada uma das festas:

Festas de São João de Vila Franca (15 a 24 de junho): Gabriel o Pensador; Richie Campbel e Piruka.

Sanjoaninas (22 de junho a 2 de julho): Amor Electro; Mariza; April IVY; HMB; The Black Mamba; Master Jake; Richie Campbel e Rui Veloso.

Festival Lagoa Comvida (29 de junho a 2 de julho): Carminho, D.A.M.A. e Blind Zero.

Festa do Chicharro – Ribeira Quente (6 a 9 de julho): Rui Veloso; Áurea e Carlão.

Festival Ilhas de Bruma – Ponta Delgada (13 a 15 de julho): Anselmo Ralph; Kátia Guerreiro e Jorge Palma.

Festas do Nordeste (13 a 18 de julho): Amor Electro; Diogo Piçarra e Ana Moura.

Festival Azure – Angra do Heroísmo (14 e 15 de julho): Luis Bravo; DSL e Skyfall.

Festa do Emigrante – Lajes das Flores (14 a 17 de julho): Blind Zero.

Festas da Madalena (18 a 23 de julho): Rui Veloso; Mariza; Atoa e Resistência.

Cais Agosto – S. Roque do Pico (26 a 30 de julho): David Fonseca; Virgul; Gabriel o Pensador; C4Pedro e Áurea.

Festas da Praia da Vitória (4 a 12 de agosto): Cock Robin; Virgul; Matias Damásio; António Zambujo; Piruka e Paula Fernandes.

Festival Cais das Poças – Santa Cruz das Flores (4 a 6 de agosto): Xutos e Pontapés.

Semana do Mar – Faial (6 a 13 de agosto): Tony Carreira; Amor Electro e Carminho.

Festival Monte Verde – Ribeira Grande (10 a 13 de agosto): Seu Jorge; Andy C. e Ella Eyre.

Festival dos Moinhos – Corvo (11 a 15 de agosto): nomes ainda por divulgar

Maré de Agosto – Santa Maria (18 a 20 de agosto): Soweto Soul; La Sra. Tomasa; La Dame Blanche; Bombino; Matt Simons e Tiken Jah Fakoly.

Semana dos Baleeiros – Lajes do Pico (21 a 27 de agosto): José Cid e Raquel Tavares.

Festival da Povoação (24 a 26 de agosto): ainda não foi divulgado o cartaz e só foi revelado um nome: Matias Damásio.

3. O jornal afirma, face ao quadro atrás apresentado, que “os mais conhecidos e caros artistas e bandas de Portugal vão passar pelos palcos das festividades açorianas durante o verão deste ano”, e acrescenta que a totalidade das festas nos Açores, só com a contratação de artistas, aponta para uma estimativa de custos “superiores a dois milhões e meio de euros”, uma vez que o custo de cada espetáculo, nalguns casos, pode “orçar entre os 30 mil e os 70 mil euros, com todos os custos de produção incluídos (cachet dos artistas, passagens aéreas, estadias, alimentação, transportes e requisitos técnicos de som e luz).”

4. Ao fim e ao cabo, e chamando as coisas pelo seu nome, os autarcas dos Açores, estão a preparar-se para desperdiçar este verão, pelo menos, 2,5 milhões de euros, só para pagar artistas e espetáculos. Exatamente os mesmos autarcas que, há quatro anos, em plena intervenção da troika, com o país sob um pesado resgate e com as suas finanças públicas sem crédito, declaravam juras de amor aos “artistas locais”, à “prata da casa” e à necessidade de contenção e de equilíbrio nos gastos. Pois são esses mesmos que se preparam, agora, sem que as suas finanças tenham melhorado assim tanto, para prescindir de mais de 2,5 milhões de euros, por causa das eleições e para pagar a artistas de fora para virem fazer um concerto à “sua” festa.

E fazem-no conscientemente. Porque se lhes incutiu no subconsciente (e em parte do “povo” que eles governam!) que tem de ser assim para se poder ganhar eleições. Para muitos deles (autarcas e “povo”), um bom governo e uma boa gestão medem-se não pelas medidas de investimento reprodutivo, não pelo progresso em benefício do futuro dos seus munícipes, mas pelos artistas que se contratam nas festas, pela duração dos fogos de artifício, pelas comezainas que se oferecem e pelos amigos que se protege.

É assim que estamos!

Haja Pão e Circo enquanto se pode ter, embora todos saibam que um dia também os imperadores de Roma acabaram por soçobrar…

Não aprendemos mesmo nada!

18.06.2017

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