1 É usual aplicar-se a designação “polvo” às organizações que no seu processo de crescimento, afirmação e funcionamento se estruturam de forma tentacular, controlando e dominando tudo aquilo e todos aqueles sobre os quais impõem a sua influência, mantendo a sua submissão como a do polvo que aprisiona as suas vítimas sob o efeito dos seus tentáculos.
Este fenómeno também se verifica nos Açores. Começou por ser um polvo de natureza política, que visava enraizar-se e perpetuar-se no poder, mas já atinge o mundo da economia.
2 O polvo açoriano sustenta-se no aparelho do Partido Socialista e tem como instrumento a máquina do Governo, confundida com a Adminis-tração regional.
Este polvo socialista tem a sua cabeça na estrutura governativa, sustentada numa enorme corte de pessoal político de assessoria e de apoio aos gabinetes dos governantes (chefes de gabinete, adjuntos, secretárias particulares, assessores de imprensa – trabalham, neste momento, para os poderes políticos regionais mais jornalistas do que na generalidade da comunicação social açoriana -, fotógrafos, etc. etc.).
3 Este polvo logo estendeu os seus primeiros tentáculos à estrutura da Administração regional, esvaziando tecnicamente alguns cargos, dando-lhes uma feição de cariz exclusivamente político-partidário. Seguiu-se-lhe a escolha dos dirigentes intermédios de primeiro e segundo nível que, em muitos casos, passou a ser feita pelo crivo da confiança partidária. Este tornou-se um dos mais fortes tentáculos do polvo, dando ao poder político um poderoso meio de controlo sobre a Administração Pública regional e, por via dela, sobre a sociedade e sobre as pessoas.
4 Seguiu-se a consolidação de outro importante tentáculo deste polvo: o setor público empresarial da Região, onde o governo possui e exerce o poder de nomeação de um número significativo de lugares da administração das empresas ou de representação do capital público. Para se ter uma ideia aproximada do impacto deste setor, refira-se que, no final de 1996, quando o PSD abandonou o poder, o setor empresarial da Região era composto por três empresas de capital totalmente público (EDA, SATA e LOTAÇOR) e por participações diretas em mais 10 empresas. Atualmente, a Região, através do Governo Regional, detém participações diretas ou indiretas em 50 empresas: 21 são detidas pelo Governo a 100%; 11 empresas o Governo possui entre 50% a 99% do seu capital; e em 18 empresas o Governo Regional detém uma participação inferior a 50%. Desenvolveu-se, assim, de forma exponencial um amplo campo de colocações de natureza política em cargos altamente remunerados. Depressa este sector se transformou, pela sua importância, volume e número, em mais um e poderoso tentáculo do polvo socialista.
5 Por outro lado, e de forma organizada, o Partido Socialista deu instruções e criou as condições para os seus militantes e apoiantes assumirem, por todos os Açores, o controlo das principais instituições e agremiações da sociedade, alargando o seu poder de tal forma que os próprios associados de muitas delas, conscientemente, escolhem figuras próximas do poder como forma de, por essa via, ser mais fácil a obtenção dos apoios e dos financiamentos de que as instituições precisam.
6 Temos, assim, um quadro claro e evidente da força, amplitude e significado deste poderoso polvo que o PS tem vindo a construir nos Açores, que domina a Administração e a sociedade, mas que já vai dando também sinais claros de extensão do seu poder e influência ao empresariado e ao setor económico.
Exemplos? Cito apenas este, denunciado há tempos pelo jornalista Estêvão Gago da Câmara, nestes termos: “O governo de Sérgio Ávila está a promover a alteração ao contrato do Jogo de forma a ceder a concessão e permitir a venda da Asta, por 1 euro, a duas desconhecidas e estranhas (?) empresas NewCO e Noria Summer SA. Em vez de “rasgar” o contrato, Ávila/Paim jogam a cartada de, por um euro, conseguir um financiamento de dez milhões para concluir os hotéis da Calheta e Termas das Furnas. Garantias do empréstimo? Os terrenos de todos nós, no Aterro e nos velhinhos Banhos das Furnas, que nos termos do atual contrato voltariam à posse da Região no final da concessão…tal qual! Quem são as ditas “resagatadoras” da Asta? De uma fiquei a saber que é de Campolide, tem NIF. E dedica-se à “Promoção e atividade imobiliária, incluindo atividade imobiliária turística…gestão de estabelecimentos turísticos…administração de imóveis próprios ou alheios, incluindo o arrendamento dos mesmos…Ah! Nasceu o ano passado, com 50 mil euros de capital social! A outra, a NewCo, em rigor ainda nem nome tem. “NewCo” é um nome genérico para proposta de empresas spin-off, startup, ou empresas controladas antes de receberem um nome definitivo…envolvidas em fusões que podem ter o mesmo nome (ou um semelhante). Em certos casos a nova empresa, poderá deter o nome de “NewCo” (Sic, Wikipedia). E não digo mais. Pff. Chamem a polícia!”
7 O efeito multiplicador deste polvo, da política à sociedade e à economia, é óbvio e só não o vê quem não quer. Ele abarca não só os diretamente envolvidos, mas, naturalmente, estende-se ao seu alargado conjunto de relações, reproduzindo, por essa via, toda uma rede de dependências e de submissões pessoais, políticas e económicas, cujo efeito é hoje cada vez mais claro. Esse poder desenvolveu-se de forma tentacular, asfixiante, inibindo os movimentos, amarrando os cidadãos nas suas opções, limitando as suas decisões, impedindo-os de enfrentar o sistema com medo das consequências, tolhendo o exercício quotidiano da democracia plena. Até quando?
10.02.2014











