
Em finais de Novembro de 1972 a imprensa faialense informava que chegavam à Horta o busto do “Dr. António Maria Barbosa, que foi médico de notável renome, e o medalhão de João José da Graça, a quem se deve a introdução da imprensa no Faial”. Tratava-se, segundo a mesma notícia, de “dois trabalhos do distinto escultor Numídico Bessone, que haviam sido encomendados a pedido do governador Dr. Freitas Pimentel”1.
Entregues à Câmara Municipal da Horta, aquelas obras de arte tiveram destinos diferentes, pois enquanto o medalhão do advogado Graça foi colocado na Praça da República – onde ainda se encontra – o busto do catedrático Barbosa jamais viu a luz do dia!
É uma falha que importa colmatar, até porque se trata de um distinto faialense cuja vida e obra importa conhecer.
Nascido a 12 de Julho de 1825, na cidade da Horta, António Maria Barbosa, filho do desembargador Manuel Joaquim Barbosa e de Genoveva Inácia Bettencourt, distinguir-se-ia, anos mais tarde, como “um dos príncipes das ciências médicas de Portugal e o seu mais abalizado operador”. 2 Nascido fora do casamento e tendo o pai sido promovido a desembargador da Relação do Porto, o que o fez voltar naquele mesmo ano para o Continente Português de onde era natural, ficou o recém-nascido entregue aos cuidados educacionais do padre Tomás Pereira da Silva, beneficiado da igreja Matriz e, por morte deste, aos do prior dos carmelitas faialenses Frei Jacinto da Conceição. Possuidor de excelentes dotes de inteligência e de trabalho, António Maria Barbosa concluiu com elevado aproveitamento as disciplinas de Português, Latim, Francês e Filosofia, empregando-se depois como praticante numa farmácia hortense, onde, no período de dois anos, mais se arreigou nele a firme vocação de cursar Medicina. Com esse fim, e a expensas de seu pai, já então desembargador da Casa de Suplicação, seguiu António Maria Barbosa para Lisboa a 8 de Julho de 1844. Matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica, fez um curso brilhante, tendo defendido tese de licenciatura em 1850. Logo no ano seguinte obteve, por concurso, o lugar de cirurgião do banco do Hospital de São José, sendo nomeado director em 1855. Tendo prestado relevantes serviços no tratamento das vítimas das epidemias de cólera e de febre-amarela que grassaram em Lisboa no ano de 1857, foi nomeado em 1859 médico da Casa Real por D. Pedro V e em 1863 catedrático da Escola Médico-Cirúrgica, leccionando as cadeiras de Anatomia Patológica e de Medicina Operatória. O Dr. António Maria Barbosa foi pioneiro em operações cirúrgicas, realizando em si próprio a primeira experiência de eterização que se fez em Portugal – na presença e sob a direcção do Dr. Francisco Barral – e sendo também o primeiro a proceder à extirpação de tumores hemorrágicos com o esmagador de Chassaignac, a fazer a operação de ovariotomia ou a tratar a difteria com insuflações de enxofre. “Cirurgião notável e afamado operador, a ele se ficou a dever a introdução em Portugal de muitos progressos científicos” 3, sendo autor de vastíssima bibliografia. Publicou não só numerosos artigos em conceituadas revistas da especialidade, principalmente na “Gazeta Médica”, no “Jornal da Sociedade Farmacêutica Lusitana”e no “Jornal das Ciências Médicas de Lisboa” como ainda vários livros, de que se destacam: “Ensaio sobre a cólera epidémica”, (1854), “Memória sobre as principais causas da mortalidade no Hospital de S. José” (1856), “Dissertação sobre os apertos orgânicos da uretra” (1858), “Breve notícia sobre a febre-amarela no Porto, Belém e Lisboa em 1856” (1858) “Estudos sobre o garrotilho ou croup …” (1863), e “Memória sobre a laqueação da artéria ilíaca primitiva” (1874). Foi membro de várias instituições científicas: Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, de que foi presidente no biénio 1870-1871 e sócio benemérito a partir de 1882; sócio efectivo da Academia Real das Ciências, de que foi presidente em 1879; sócio honorário da Sociedade Farmacêutica Lusitana e sócio correspondente do Instituto de Coimbra, das Academias de Medicina de Turim, da Bélgica e de Madrid, e das Sociedades de Cirurgia, Anatomia e Higiene de Paris, das Ciências Médicas e Naturais de Bruxelas e de Antropologia de Espanha. Recebeu importantes condecorações: Medalha Municipal de Lisboa (1859); Comendador da Ordem de Santiago (1863); Comendador da Real Ordem de Isabel a Católica (1863); Cavaleiro da Nobre Ordem da Torre e Espada (1872); Comendador da Rosa, do Brasil (1872); Comendador da Ordem de Gustavo Wasa, da Suécia, (1875); da Ordem de Cristo (1879) e da Ordem dos Santos Maurício e Lázaro, de Itália, (1879). Por decreto de 11 de Maio de 1871 foi nomeado Cavaleiro da Casa Real, havendo igualmente recebido, por diploma de 20 de Abril de 1876, carta de Conselheiro.
Apesar de ser “um dos principais homens das ciências médicas neste país e o seu mais abalizado operador”4, jamais esqueceu a sua terra natal estando sempre disponível para auxiliar na resolução dos problemas que mais afligiam os seus patrícios. Essa abertura às necessidades da sua ilha, conjugada com o grande prestígio que desfrutava e com as relações privilegiadas que mantinha em Lisboa com os principais detentores do poder – incluindo a Família Real de que era médico – colocavam-no em posição especial para corresponder às solicitações oficiais ou particulares que de cá lhe dirigiam. O seu auxílio foi decisivo na “angariação de donativos para ocorrer aos prejuízos causados pelo tremor de terra que se sentiu nesta ilha do Faial” em 3 de Maio de 1882, “e mais principalmente auxiliar a reedificação ou nova edificação do Hospital da Misericórdia” 5. Presidente da comissão angariadora, que integrava outros destacados faialenses residentes em Lisboa, como os drs. Curry Cabral e António José d’Ávila, o Conselheiro António Maria Barbosa correspondeu sempre às representações da Câmara Municipal da Horta que a ele recorria com frequência. Disso nos dão conta os Livros de Vereações que registam os ofícios dele em resposta aos pedidos da edilidade faialense, como seja o que noticia “que o edifício que serve de Paços do Concelho, ainda durante esta legislatura [a de 1882] será concedido, que a colegiada da Matriz será conservada e providos os lugares” (…) e “que o subsídio da estrada da Laginha será enviado” 6 brevemente. A Câmara “ficou inteirada e reconhecida pela atenção” e uns meses depois, precisamente na sessão de 31 de Janeiro de 1883, quando finalmente chegou o esperado subsídio para a estrada da Laginha, deliberou, por proposta do presidente – que era João José da Graça – “colocar na sala das suas sessões um retrato de tão prestante e benemérito filho desta terra, a quem ela deve tanta consideração não só por este serviço mas também por outros que já lhe tem prestado” 7. A cerimónia festiva da colocação do retrato do Conselheiro Barbosa no salão nobre da Câmara Municipal realizou-se a 6 de Dezembro de 1885, ano em que também prestou um “valioso” serviço à igreja da Matriz, “como consta da lápide comemorativa que existe na respectiva sacristia”8 . Ainda no ano de 1882 a Câmara da Horta, “prestando a devida homenagem a este benemérito faialense, mandou amenizar o largo [do Carmo] próximo à casa em que ele foi criado e gravar numa lápide esta inscrição: – ‘Largo do Conselheiro Barbosa’” 9.
Falta agora colmatar essa incompreensível falha, colocando no amplo espaço que ostenta o nome deste distinto faialense o seu busto que por aí jaz esquecido e/ou ignorado.
O Doutor António Maria Barbosa faleceu em Lisboa no dia 8 de Julho de 1892. Contava 67 anos de idade
1 O Telégrafo, 18 Novembro 1972
2 A.L. Silveira Macedo, Fayalenses Distinctos, Boletim do Núcleo Cultural da Horta, vol. 2, n.º1, 1959, p.87
3 O Fayalense, 1892, Julho 31, (45), p.1
4 O Atlântico, 1892, Agosto 7 (1550), p.2
5 O Fayalense, 1882, Junho 18 (46), p.1
6 B.P.A.R.H. Livro de Vereações da Câmara, nº 42, fl. 253-v.
7 Idem Ibidem, fl. 82
8 O Atlântico 1892, Agosto 7 (1550), p.3
9 A.L. Silveira Macedo, ob. cit. p.90












