Professor João Pereira Dutra Jr. – industrial, jornalista e político

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Nasceu a 11 de Fevereiro de 1884 na freguesia dos Cedros. Era filho de “João Pereira Dutra, lavrador e de Ana Luísa de Escobar, de profissão doméstica, naturais, recebidos e paroquianos desta dita freguesia”1 . Feita a escola primária, prosseguiu estudos no Liceu da Horta (1ª matrícula em 1895) e no Seminário de Angra em 1900. Tendo desistido da carreira eclesiástica, ingressou na recém-criada Escola Normal da Horta nela concluindo o curso do magistério em 1902 com a elevada classificação de 18 valores. Neste ano foram 15 os diplomados e apenas outros dois – o padre Manuel Garcia Dutra e Dª Mariana de Sequeira Bettencourt da Rosa – obtiveram distinção igual à de João Pereira Dutra Júnior. Exerceu o professorado na escola da Praça da sua terra natal – temporariamente interrompido pela tentativa gorada de seguir carreira como funcionário aduaneiro – tendo-se reformado do ensino em 1937.

Vivendo na mais próspera e populosa freguesia – onde a agro-pecuária tinha grande importância – o professor Dutra Júnior manifestou desde cedo um especial interesse pelos lacticínios, fazendo uma viagem de estudo à Califórnia em 1916-1917. Foi um dos fundadores, em 1921, da firma comercial e industrial “Castro, Meirinho & Xavier” que teve, durante largos anos, a fábrica de lacticínios mais moderna e desenvolvida das várias que existiam naquela localidade, suplantando a “Florida” do professor Constantino Magno do Amaral Júnior, a da “União dos Lavradores” e a da “União Industria Cedrense”, só vindo a perder a supremacia que tinha em toda a ilha do Faial com a criação, em 1941, da “Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial”, a única que actualmente existe nesta ilha.
Dinâmico e ilustrado, o professor Dutra Júnior colaborou activamente no desenvolvimento social e cultural da sua terra, sendo um dos que estiveram na fundação, em 19 de Março de 1927, da “Associação Educativa União e Progresso” (A.E.U.P.). Numa época em que os sacerdotes e os professores viviam nas localidades onde exerciam a sua missão, a freguesia dos Cedros foi uma das mais beneficiadas por esse facto, demonstrado, aliás, pela composição dos corpos directivos daquela Associação, onde surgem os professores João Pereira Dutra Júnior, Manuel Ávila Coelho e Constantino Magno do Amaral Júnior.

Foram estes que, em estreita colaboração com os padres José da Rosa Dutra e Francisco Vieira Soares, fundaram em 19 de Março de 1928 – precisamente um ano depois da existência da A.E.U.P. – a revista quinzenal “O Eco Cedrense”, composta e impressa em tipografia própria que pretendia, “ainda que pobre e humildemente redigida”, falar “ao povo a sua humilde linguagem, rude e sincera, tornando-a acessível a todas as bolsas”, contribuindo “de algum modo para indicar o caminho da verdade e do bem ainda aos mais humildes”. Nessa publicação, que durou mais de quatro anos, substituindo inclusivamente o jornal “Correio da Horta” quando este viu suspensa a sua publicação por arbitrária determinação do governador civil Dr. Pais Almeida, os seus criadores exerceram papel decisivo. Nele se destacou, naturalmente, o professor Dutra Júnior. Logo a primeira edição insere um artigo da sua autoria – assinado com as iniciais D. Jr. – intitulado “A Freguesia dos Cedros”, onde salienta as respectivas potencialidades na agricultura, na indústria de lacticínios, no artesanato e na cultura. Aqui, assinala o 1º aniversário da fundação da A.E.U.P. que “tão benéficos efeitos” tinha já produzido, sendo “sua filha primogénita a filarmónica Lira Campesina Cedrense que tão eficazmente vai contribuindo para a educação artística deste povo”. Adiantava ainda existirem “muitos outros projectos, aguardando oportunidade para entrar em prática” sendo espectável que, “a pouco-e-pouco, mas com passo seguro e reflectido, irão os cedrenses marchando no caminho do aperfeiçoamento moral e intelectual, até atingirem a culminância praticável às possibilidades locais”.

Era, portanto, “nesta ordem de ideias” que se iniciava a publicação de “O Eco Cedrense” que seria, “sem dúvida, um valioso elemento para a realização deste desideratum”. Todo este plano, informava o professor Dutra Júnior, estava “sob a direcção do nosso revmo. Vigário Pe. José da Rosa Dutra, que numa esclarecida compreensão do seu ministério entende que a acção sacerdotal não deve limitar-se ao templo, mas estender-se a tudo o que moral e materialmente possa ser proveitoso aos seus paroquianos”. Além de redactor prolixo – onde manteve secções permanentes como “Palestras Úteis”, “Cenas da Aldeia” e “Pela Educação” – o professor Dutra Júnior era um artista, sendo “muito felicitado pelo excelente trabalho, em desenho e gravura com que se tem dignado ilustrar as páginas de “O Eco Cedrense”, sendo da sua autoria “a belíssima gravura da capa, como todos os títulos que encimam as secções da revista e ainda outras gravuras que temos inserido”2 .

Além de ser um dos pilares de “O Eco Cedrense”, colaborou em outros jornais e revistas onde mostrou ser um escritor vigoroso e ilustrado.

Professor e jornalista, esteve na génese da Associação Educativa União e Progresso, da filarmónica Lira Campesina Cedrense e de O Eco Cedrense e alargou a sua acção ao comércio e à indústria, sendo ainda Juiz de Paz e o primeiro presidente da assembleia geral da Casa do Povo dos Cedros fundada em 19 de Março de 1938.

Na política, exerceu funções na União Nacional, sendo nomeado procurador à Junta Geral do Distrito Autónomo da Horta em 1942, assumindo a presidência deste corpo administrativo desde 23 de Janeiro de 1943, por sinal numa reunião extraordinária, destinada a “apreciar e estudar as possibilidades de construção de um edifício próprio para os paços da Junta Geral do Distrito, no mesmo terreno que fora cedido à Administração Geral dos Correio e Telégrafos para a construção de uma estação nesta cidade, que é bastante amplo e o mais central”.

Esta pretensão não se concretizaria, pois a obra dos CTT já fora adjudicada, a construção do edifício ia começar e a Junta Geral jamais teve verbas para uma sede própria, instalando-se em edifícios vários, nomeadamente partilhando a ala sul do Convento dos Jesuítas com o Governo Civil e a Direcção Distrital de Finanças. Estiveram presentes naquela sessão extraordinária da Junta Geral, da presidência do professor Dutra Júnior, os procuradores Dr. Bernardo Vidigal (reitor do Liceu), Dr. Monteiro Fernandes (delegado do INTP), Eng.º Álvaro Freitas (director das Obras Públicas), Dr. Gabriel Baptista de Simas, Guilherme da Silva Brum Júnior e Manuel Bernardo de Almada. Compareceu à sessão o Governador do Distrito, Dr. Gomes Belo, e também, a convite, o presidente da Câmara Municipal da Horta, tenente Manuel José Cardoso de Simas e os vereadores professor João Xavier Ramos, José Rogério da Silva Gonçalves e Tomás Goulart da Silva.

Os trabalhos das várias sessões ordinárias e extraordinárias da Junta Geral de 1943 foram sempre dirigidos pelo presidente João Pereira Dutra Júnior. Curiosamente, a última sessão a que presidiu – a de Dezembro daquele ano – foi a da compra da Quinta de São Lourenço “para a instalação da Escola Prática da Agricultura e instalação de serviços agro-pecuários” 3.
Em 7 de Agosto de 1941, no decurso da viagem presidencial aos Açores, em sessão realizada na Câmara Municipal da Horta, foi condecorado pelo Chede de Estado, general Óscar Carmona, com a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial.

Vitimado por “tuberculose pulmonar, faleceu às três horas do dia 9 de Março de 1944, na sua casa do lugar da Estrada Nacional, freguesia dos Cedros”4 . Deixou viúva D.ª Ana Cabeça Dutra, com quem casara em 22 de Fevereiro de 1908, e era pai de Dª Maria Cabeça Dutra, Dª Liduína Cabeça Dutra e Eng.º Civil Luís Cabeça Dutra. Os jornais da época exaltam a sua figura e obra, registando “a grande e significativa manifestação de sentimento prestada pelo povo da sua freguesia, acompanhando-o à sua última morada” 5.

1 Livro n.º16 Baptismos, Cedros, fls. 165-166
2 O Eco Cedrense, 29 Abril 1928
3 Livro n.º1 de Actas da Junta Geral da Horta (1940-1947) fls. 48-v e 72 a 75
4 Livro n.º 34 de Óbitos, Registo Civil da Horta
5 Correio da Horta, 12 Abril 1944