Início Artigos de opinião Costa Pereira “POR CÁ NEM TUI’s, NEM UI’s!”

“POR CÁ NEM TUI’s, NEM UI’s!”

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1. A questão do relacionamento entre as nossas ilhas é um assunto melindroso e delicado. Foram cinco séculos de vivência de costas voltadas umas para as outras e, também por isso, esse divisionismo e individualismo seculares não se superam completamente em quatro décadas que são as que temos de regime autonómico.
O problema, preocupante, é que nestes quarenta anos de Autonomia que temos nos Açores, já fomos mais unidos, já houve mais solidariedade entre ilhas, já houve mais compreensão para com os ritmos e necessidades de cada uma das nossas nove ilhas, em síntese, já houve mais Região do que há hoje.
Estamos, na minha opinião, a pagar a fatura dos erros de governos que colocaram (e colocam) ilhas contra ilhas, que, por mero tacticismo político-partidário, não hesitaram, nem hesitam, em dividir para reinar, apoiando rivalidades e incentivando ruturas, usando os abundantes dinheiros que a Europa colocou à nossa disposição para cavar mais fundo o fosso que separa umas ilhas das outras.
2. A questão do Triângulo (realidade geográfica, histórica, económica e social que agrupa as ilhas do Faial, Pico e S. Jorge), e do relacionamento entre as suas três ilhas é um exemplo cristalino desse divisionismo existente e incentivado.
De um lado, houve, nestas quatro décadas, uma omissão histórica, geracional, imperdoável, por parte dos sucessivos autarcas dos vários partidos que foram poder nas Câmaras das três ilhas e que nunca quiseram verdadeira e genuinamente apoiar e incentivar de forma eficaz, consistente e continuada as virtualidades do Triângulo. Todos eles, salvo uma ou outra honrosa exceção, se preocuparam mais com o presente do seu “quintal” do que com o futuro que o conjunto podia trazer para todos.
3. Mas os últimos governos regionais ajudaram a cavar mais fundo e a exponenciar a falta de ambição dos autarcas para a realidade do Triângulo. Tomemos um exemplo: com as mais variadas desculpas, técnicas e políticas, o governo e os organismos dele dependentes, nunca quiseram apostar na promoção do Triângulo, privilegiando campanhas que beneficiaram outros e que a estas ilhas só trouxeram as sobras dos fluxos gerados.
As palavras ditas por um turista da Tui, à RTP-Açores, quando justificava a sua escolha em vir para o Pico, são de uma clareza cristalina e comprovam as graves e continuadas omissões de que temos sido vítimas. Dizia ele que tinha optado por este destino porque com um só bilhete de avião podia visitar e conhecer três ilhas!
Esta mais-valia do Triângulo tem sido sistematicamente escondida por quem não quer o desenvolvimento integral e harmonioso dos Açores e só divisa o seu próprio interesse!
4. Mas o Governo Regional, para além deste pecado grave de omissão, peca também por atos concretos que cultivam e incentivam o divisionismo no Triângulo. Atentemos no que disse o Secretário Regional Vítor Fraga na inauguração do voo “charter” da Tui para o Pico: “a potenciação dos fluxos turísticos provenientes deste mercado para os Açores é feita numa perspetiva de igualdade entre todas as ilhas e para que todos possam beneficiar dos incrementos que esses fluxos turísticos trazem…”.
Onde está a “igualdade entre todas as ilhas” neste domínio, agora apregoada?
Como se fala de igualdade quando o destino Pico/Triângulo, só tem acesso a 1/3 da lotação do voo?
Porque é que numas ilhas, faz-se pressão, reivindica-se, exige-se e as coisas acontecem, enquanto noutras, nomeadamente no Faial, é pregar no deserto, e nada sucede?
Ainda agora, até António Costa, já a lançar a campanha eleitoral de Vasco Cordeiro, veio prometer voos low cost para a Terceira. Quer esses voos, quer os charters que já se realizam para a Terceira, Pico e S. Miguel são subsidiados e/ou recebem incentivos. Então, se há dinheiros públicos nestes negócios, porque só funcionam para algumas ilhas? Onde está a apregoada “igualdade entre todas as ilhas”?
Há, portanto, um quadro, objetivo e inquestionável, de crescente aprofundamento da divergência no tratamento das várias ilhas. E, neste domínio, é indubitável o cada vez maior anulamento do lugar do Faial no contexto regional.
Por isso, questiono-me com angústia, por onde andam, o que dizem e, sobretudo, o que fazem pelo Faial, os nossos líderes e atuais detentores do poder?
Como compreender, justificar ou aceitar o seu silêncio cúmplice?
Ou como perceber que esses líderes locais do poder, em vez de lutarem por aquilo que é importante, decisivo e estratégico para o nosso futuro (por onde anda, por exemplo, a luta, que é cada vez mais necessária, pela ampliação da pista do aeroporto da Horta?), se andem a entreter a escrever cartas sobre assuntos, neste contexto, menores e quase insignificantes (como o estacionamento no aeroporto, por exemplo)?
Por alguma razão, ninguém ouve estes líderes, lhes dá crédito ou sequer os considera nas decisões do Governo Regional. E o Governo sabe que pode fazer o que quiser, porque, por cumplicidade e obediência, eles a nada se opõem nem levantam a voz na defesa dos seus conterrâneos. Nem sequer um “ui” de dor, perante um Governo que deixará sem cumprimento mais de 2/3 das promessas que há quatro anos fez ao povo desta ilha.
Copio, por isso, em título, uma frase que um amigo, que muito considero, escreveu numa rede social, referindo-se à vinda dos voos charter para o Pico e notando, com verdade e fina ironia, que no Faial, neste esvaziamento e abandono que nos isola e mata, a verdade, nua e crua, é esta: “Por cá, nem Tui’s, nem Ui’s!”
É o que temos enquanto assim quisermos continuar!

02.05.2016

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