Dr. António da Terra – médico e político

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Nasceu a 27 de Janeiro de 1905 em Santa Bárbara das Ribeiras, ilha do Pico, “filho legítimo de Alexandre José da Terra, agricultor, e de Clara de Jesus Oliveira, doméstica, moradores no lugar das Pontas Negras, desta freguesia” . Feito o ensino primário, frequentou o Liceu da Horta (1922) e a Universidade de Coimbra, onde concluiu no ano de 1933, com a elevada classificação de 18 valores, a sua formatura em medicina, especializando-se “também em cirurgia e, concorrendo a exame para médico-escolar, foi um dos mais altos classificados ficando colocado no Liceu da Horta”.
A avaliar pela notícia inserta no jornal “Correio da Horta” de sábado 2 de Junho de 1934 o povo das Ribeiras – naturalmente orgulhoso dos êxitos do seu ilustre filho – preparou-lhe uma “brilhante e sincera recepção” quando ali chegou no iate-motor Ribeirense, no dia 31 de Maio. Mais de 500 pessoas acorreram ao cais, inclusive a filarmónica “Recreio Ribeirense”, vendo-se muitas senhoras e crianças empunhando ramos de flores. O correspondente daquele periódico, José Maria Henriques Júnior, relata que o “Ribeirense” vinha todo “embandeirado e ao chegar próximo do ancoradouro entrou a tocar a sua sereia e a lançar foguetes ao ar, sendo estes correspondidos de terra, em grande número e entusiasmo”. Como o porto das Ribeiras não tinha condições para a atracagem daquele iate, foi a lancha “Calheta”, que, levando a bordo a filarmónica, possibilitou o apoteótico desembarque do Dr. António da Terra. Música, foguetes e muitas flores abrilhantaram os cumprimentos no cais e o cortejo até à residência da mãe do jovem médico, onde houve um “Pico de honra” que foi ocasião para “vários brindes e vivas” e para o agradecimento “muito sensibilizado” por aquela homenagem que – finaliza o articulista – “foi bem merecida e nunca dantes houve igual”.
Curiosamente, a 1.ª página da mesma edição daquele jornal, divulga o seguinte anúncio: “Dr. António Terra / Médico-cirurgião / Consultas das 10 às 12 no consultório do Exmo. Sr. Dr. Neves / A começar na próxima quarta-feira”, ou seja, a 6 de Junho de 1934 já estava ele residindo no Faial e passados quatro dias realizava o seu primeiro acto cirúrgico no Hospital da Santa Casa da Misericórdia: uma apendicite, em que teve como auxiliar o Dr. Santos e como cloroformizador o Dr. Neves.
Ainda em 1934, o Dr. António da Terra tomou posse do cargo de médico-escolar, cabendo-lhe pronunciar o discurso oficial na abertura solene das aulas do Liceu da Horta em 12 de Outubro desse ano. Como também dava consultas ao domicílio, naturalmente devia ter uma vida profissional bastante intensa. Mesmo assim, ainda dispunha de tempo e forças para participar na política local, alinhando no chamado “partido do Dr. Neves” que, constituindo, ao tempo, a facção mais poderosa da União Nacional, tinha no seu seio uma forte oposição por parte dos simpatizantes do “partido dos Peixotos”, com o Dr. Manuel José da Silva como ideólogo e o coronel Álvaro Soares de Melo como líder.
Numa alternância começada pouco depois do 28 de Maio de 1926 e só terminada na década de 40 do século XX, a estrutura directiva da União Nacional no distrito da Horta era partilhada por membros daquelas duas facções que, sublinhe-se, se digladiavam violentamente, contando com o apoio quase sempre explícito quer do governador civil quer do ministro do Interior.
Quando o Dr. Terra se iniciou nas lides políticas locais, ocupava a pasta do Interior o tenente-coronel Linhares de Lima – também natural do Pico – que exercia elevado cargo na Comissão Executiva da União Nacional e que era um protector empenhado daqueles que no distrito se opunham aos seguidores do Dr. Neves. Daí ter determinado mudanças que abrangeram, não só a autoridade superior do distrito da Horta – acabando por nomear o Dr. Luciano Machado Soares, casado com uma sua sobrinha – como também os membros das autarquias, de instituições de solidariedade social, dos serviços de censura à imprensa e demitindo a comissão distrital da União Nacional. A saída do Dr. Neves permitiu a ascensão de elementos da facção contrária, em especial o coronel Álvaro Soares de Melo e os médicos Dr. Alberto Campos de Medeiros, Dr. José Estevão da Silva Azevedo e Dr. António de Freitas Pimentel. Foram estes que, sempre apoiados no ministro Linhares de Lima – que em Dezembro de 1934 seria eleito deputado à Assembleia Nacional – conseguiram partilhar com os apoiantes do Dr. Neves, sobretudo os médicos Dr. António da Terra e Dr. Humberto dos Santos Freitas, posições de destaque nas estruturas distrital e local da União Nacional. E é assim que no segundo semestre de 1935 o governador Machado Soares – que antecipadamente fora “introduzindo, de acordo com as directrizes do ministro do Interior, novos elementos nas comissões administrativas, não sem grande relutância e resistência passiva do grupo” chefiado pelo Dr. Neves “que queria continuar com o monopólio do mando” – conseguiu que na chamada União Nacional houvesse uma distribuição mais ou menos equitativa de elementos das duas facções na procura de uma integração de todos os que se reivindicavam de nacionalistas e de leais servidores do Estado Novo. Essa partilha do poder está eloquentemente manifestada num ofício de 10 de Novembro de 1935 dirigido ao governador Machado Soares pelo presidente da comissão distrital da União Nacional que já era o Dr. Terra. Diz-se nesse documento: “Tenho a honra de comunicar a V. Ex.ª que a comissão distrital da União Nacional reunida para apreciar o pedido por V. Ex.ª formulado, resolveu propor pelo grupo antigo, e aprovado pro unanimidade, o Dr. António Terra, e, pelo grupo moderno, o Dr. António de Freitas Pimentel, aprovado por maioria” .
Nota-se, portanto, que tentavam coexistir na comissão distrital da União Nacional as duas facções que há muito se combatiam. Partilhavam-se os cargos, entregando, em Dezembro desse ano, a presidência da Câmara Municipal da Horta ao Dr. António da Terra que já era o líder distrital da União Nacional, ao passo que o Dr. Freitas Pimentel, vice-líder da mesma organização, assumiria, no mesmo mês, o cargo de governador civil substituto do distrito. Mas não foi por isso que acabaram as desavenças, as calúnias e as acções persecutórias que iriam atingir, nos anos subsequentes, grandes proporções que acabariam em processos judiciais.
Como presidente da Câmara Municipal da Horta, o Dr. António Terra foi nomeado, em representação dos municípios dos Açores, procurador à Câmara Corporativa na I Legislatura (1935-1938), integrando a 23.ª Secção – Administração Local, subscrevendo os pareceres relativos a: “Código Administrativo”, “Alterações à Constituição”, “Alterações às bases para o novo Código Administrativo”, “Regime Administrativo das Ilhas Adjacentes”, “Povoamento Florestal” e “Alterações à Constituição”.
Devido a um conflito ocorrido a 4 de Junho de 1938 na reunião da comissão distrital da União Nacional – que dentro do espírito da equitativa distribuição de lugares continuava a ter uma composição paritária – o Dr. António da Terra seria demitido da presidência da Câmara pelo governador civil capitão Silva Mendes, em defesa do Dr. Freitas Pimentel que, segundo os partidários do grupo antigo, teria difamado o Eng.º Nobre Guedes, presidente da Comissão Executiva da União Nacional, o que era firmemente negado pelos partidários do grupo moderno. O certo é que este facto foi imediatamente comunicado ao visado e à própria comissão executiva da U. N. que instaurou um inquérito feito pelo vogal da mesma, Dr. Madeira Pinto, que propositadamente se deslocou à Horta, onde ouviu diversas personalidades de um e outro grupo, acabando por elaborar um extenso relatório, onde não acusa abertamente ninguém, mas insinua uma eventual culpabilidade do Dr. Freitas Pimentel que, levando o caso a tribunal, acabaria por ser ilibado, mas só em 1940.
O Dr. António da Terra que ainda presidia, nesse ano, à comissão distrital da U. N. continuava exercendo clínica e cirurgia e desempenhando o cardo de médico escolar do Liceu da Horta. Leccionava também neste estabelecimento sua esposa, Dr.ª Maria Leonor Barreira Antunes, com quem casara em Coimbra a 12 de Janeiro de 1935. Motivos familiares e profissionais determinaram que requeresse transferência para o Liceu de Faro para onde seguiu, com sua família em 4 de Agosto de 1946. O jornal “Correio da Horta”, que se honrava de o ter “no número dos seus melhores e mais dedicados amigos”, considera -o na edição do dia anterior um “ilustre filho do Distrito” que, “durante os anos que viveu nesta cidade, firmou um nome, quer como operador muito distinto, quer como homem público de inteligente acção e actividade, quer ainda como orador brilhante”. Médico do Hospital da Santa Casa, presidente da U. N. no distrito, presidente da Câmara da Horta e procurador dos Municípios Açorianos à Câmara Corporativa, o Dr. Terra transferir-se-ia, mais tarde, de Faro para Santarém onde prosseguiu a sua carreira profissional na Escola de Regentes Agrícolas, visitando na época estival as ilhas do Faial e Pico, nelas exercendo “largamente a sua profissão atendendo e operando muitas dezenas de doentes, pondo assim à disposição dos que sofriam os seus vastos e científicos conhecimentos” .
O Dr. António da Terra faleceu em 29 de Dezembro de 1989 na freguesia de São Nicolau da cidade de Santarém.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Livro de Baptismos de Santa Bárbara das Ribeiras, fl. 2-v, assento nº 3 de1905
2 AGCH, Caixa de correspondência recebida, ano 1935
3 Correio da Horta, 1Setembro 1951

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