O Presidente da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA), Luís Garcia, manifestou o seu profundo pesar pelo falecimento do poeta e escritor açoriano José Henrique Álamo Oliveira, que faleceu ontem, dia 6 de julho, aos 80 anos, no Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira, após doença prolongada.
Natural da freguesia do Raminho, na Ilha Terceira, onde nasceu em maio de 1945, Álamo Oliveira destacou-se como uma das figuras marcantes da literatura açoriana contemporânea. Iniciou os seus estudos em Filosofia no Seminário de Angra do Heroísmo e cumpriu serviço militar na Guiné-Bissau, entre 1967 e 1969, experiências que viriam a influenciar parte da sua obra literária.
Dedicou a sua vida de trabalho sempre à Cultura, tendo sido catalogador na Biblioteca Pública e Arquivo de Angra entre 1970/71 e funcionário Administrativo no Departamento Regional de Estudos e Planeamento. Em 1982, foi transferido para a Direção Regional da Cultura e, após a aposentação, foi convidado a colaborar, até 2010, na Direção Regional das Comunidades.
Foi sócio fundador do Alpendre-grupo de teatro (1976), onde foi diretor artístico e encenador. Tem cerca de 40 livros de poesia, romance, conto, teatro e ensaio. Está representado em mais de uma dezena de antologias de poesia e de ficção narrativa.
O seu romance “Até Hoje Memórias de Cão”, em 3.ª edição, recebeu, em 1985, o prémio Maré Viva, da Câmara Municipal do Seixal. Em 1999, recebeu o prémio Almeida Garrett/Teatro com a peça “A Solidão da Casa do Regalo”.
Tem poesia e prosa traduzidas para inglês, francês, espanhol, italiano, esloveno e croata. O seu romance “Já Não Gosto de Chocolates” está traduzido e publicado em inglês e em japonês. Em abril de 2002, o Portuguese Studies Program, da Universidade da Califórnia em Berkeley, convidou-o, na qualidade de escritor do semestre, para lecionar a sua própria obra aos estudantes de língua portuguesa, sendo o primeiro português a receber tal distinção.
Com algumas incursões na área das artes plásticas (exposições individuais e coletivas em Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, Lisboa, Porto e Guiné-Bissau, nas décadas de 60 a 80), criou mais de uma centena de capas para livros.
Em 2010, foram-lhe conferidas as seguintes distinções: Insígnia Autonómica de Reconhecimento pela Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e pelo Governo Regional dos Açores e Grau de Comendador da Ordem de Mérito da Presidência da República.
A Companhia das Ilhas iniciou em 2017 a publicação da sua obra de ficção, teatro e poesia.
A sua vida e obra marcaram profundamente a cultura açoriana, deixando um legado literário de grande relevância para a identidade do arquipélago.
Luís Garcia, em seu nome pessoal e em nome da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, expressa as mais sentidas condolências e solidariedade à sua família.
Governo lamenta falecimento de uma das figuras de referência da cultura dos açores
Foi com profundo pesar que recebi a notícia do falecimento de Álamo Oliveira, um homem cuja vida foi dedicada à criação literária, à defesa da cultura açoriana e à valorização da identidade do nosso povo.
A notícia da partida de Álamo Oliveira deixou-nos mais pobres. Partiu um homem que foi, ao longo da vida, uma das vozes mais autênticas da alma açoriana. Um criador inquieto, generoso e profundamente ligado às raízes das nossas ilhas, às suas gentes, às suas dores, às suas alegrias, às suas memórias.
Álamo não foi apenas escritor, poeta, dramaturgo. Foi, acima de tudo, um homem que escolheu viver através da palavra. Que escreveu como quem escuta, como quem procura dar sentido ao que somos. E fê-lo com uma entrega rara, com verdade, com exigência e com uma sensibilidade que tocava fundo.
A sua obra é extensa, diversa, e profundamente marcante. São perto de 40 livros entre poesia, romance, teatro, conto e ensaio, muitos deles traduzidos e lidos além-fronteiras. Mas para além dos livros, ficam as ideias, as perguntas, os palcos por onde passou, os leitores que tocou, os jovens que inspirou. Fica sobretudo uma maneira muito própria, muito nossa, de estar no mundo com dignidade, com coragem e com beleza.
Foi fundador do Alpendre – Grupo de Teatro, onde assumiu com paixão o papel de diretor artístico e encenador. As suas peças, tal como as suas letras e criações para a cultura popular, mostravam um olhar atento sobre a sociedade e uma profunda preocupação com o ser humano. E talvez seja isso que mais nos fica: Álamo via nas palavras uma forma de elevar o espírito, de reparar o que está quebrado, de dar sentido ao que é difícil nomear.
A emigração, a saudade, o sentimento de pertença, a luta por justiça, a fé nos outros, tudo isso atravessa a sua escrita como um fio de esperança. E essa esperança é talvez o seu maior legado. Uma esperança que não é ingénua, mas feita de resistência e de ternura. Porque ele acreditava, genuinamente, que a literatura podia mudar alguma coisa no mundo.
Álamo foi distinguido com a Insígnia Autonómica de Reconhecimento pelo Governo Regional dos Açores e com o grau de Comendador da Ordem do Mérito pela Presidência da República. Mas a distinção maior é aquela que só o tempo sabe dar, a da permanência. E essa, ele conquistou.
Em nome do Governo dos Açores e em meu nome pessoal, endereço à sua família, aos amigos, e a todos os que com ele caminharam, o nosso mais sentido pesar. Álamo Oliveira parte, mas deixa-nos o mais precioso dos testemunhos, a palavra que fica, a memória que ilumina, a Açorianidade que resiste.
















