Projeto de Resolução

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(Recomenda ao Governo Regional que transfira para o espólio do Ecomuseu da Ilha do Corvo os dois exemplares empalhados do boi-raça anã da ilha do Corvo que integram atualmente a coleção de História Natural do Museu Carlos Machado)

O Museu Carlos Machado possui, na sua coleção de História
Natural, dois exemplares empalhados do boi-raça anã da ilha do Corvo. Esta raça bovina, específica da ilha do Corvo, extinguiu-se em meados do século passado.
A forma como o boi-raça anã da ilha do Corvo adquiriu as suas características, nomeadamente a sua diminuta dimensão, é controversa. No entanto, as suas características pouco comuns foram, ao longo do tempo, assinaladas por diferentes observadores.

Em 1857, o jornal “O Fayalense” cita, a propósito desta raça, uma notícia do Illustrated London News, que referia o seguinte: “Sua Majestade o Rei de Portugal, mandou de presente, a Sua Majestade a Rainha Vitória, um touro, duas vaquinhas e um bezerrinho de raça muito particular. Os animais, que são da mais perfeita simetria, são muito pequeninos tendo apenas quarenta polegadas de alto,
apresentam uma cor escura e uma ótima disposição. As vacas são muito dóceis; mas o touro, sendo levado para a quinta modelo do príncipe Alberto, onde se acham presentemente, mostrou um ânimo inteiramente contrário ao dos seus companheiros arremessando ao ar um burro que infelizmente lhe veio ao encontro. Estes animais
liliputianos assemelham-se muito aos da raça de Alderney ou Jersey, mas parece que o seu desenvolvimento excede pouco mais de metade”.

Raul Brandão, que visitou a ilha do Corvo em 1924, fez algumas referências à raça bovina que encontrou na ilha do Corvo. Integrou estas observações no livro que escreveu a propósito da viagem que realizou às ilhas dos Açores: “As Ilhas Desconhecidas” (1927).

No âmbito da descrição que fez dos agricultores corvinos refere que “cada lavrador tem dois boizinhos, os bois do carro, ao pé da porta; os outros andam nos currais, ao ar livre, até fevereiro. As vaquinhas, encantadora raça do Corvo, são mungidas nos pastos, e produzem este leite perfumado”. Os tais “boizinhos pesavam sessenta quilos”, refere Raul Brandão.

Finalmente, o escritor profetiza a futura extinção da raça bovina da ilha do Corvo: “as pequeninas vacas originárias da ilha – que vão acabar e é pena – são duma inteligência e duma meiguice extraordinárias: – falam-lhes e elas respondem”.

Poucas dezenas de anos depois, Carlos Alberto Medeiros, autor do livro “A Ilha do Corvo” (1967), testemunhou isso mesmo: “um caso curioso da criação de gado bovino no Corvo foi o desenvolvimento de uma raça especial (vaquinhas ou raça do Corvo), caracterizadas pelas suas reduzidas dimensões. O fenómeno foi interpretado pelo Pe. Ernesto Ferreira como um exemplo de nanismo;

o trabalho sobre a agricultura no distrito da Horta, publicado no Boletim do Ministério da Agricultura em 1931, atende, pelo contrário, a desequilíbrios alimentares decorrentes da constituição de pastos.

Como esta raça tinha escasso valor económico, os corvinos foram-na gradualmente substituindo por vacas holandesas, que hoje ganharam exclusividade”.

Tendo em conta que, como anunciou recentemente a
Diretora da Cultura dos Açores, que estamos a pouco dias da inauguração do edifício “Museu do Tempo”, que integra o Ecomuseu da ilha do Corvo (o primeiro projeto museológico desenvolvido na ilha), estão criadas as condições para transferir para a ilha do Corvo os dois exemplares empalhados do boi-raça anã que atualmente integram o espólio do Museu Carlos Machado.

A presença, nas instalações do Ecomuseu da Ilha do Corvo, dos dois exemplares empalhados da ancestral raça bovina da ilha do Corvo tem inegável interesse e constituirá um excelente veículo de promoção do projeto museológico em referência. A perspetiva passa também por valorizar e melhorar a qualidade dos materiais interpretativos e o contexto em que passará a ser possível ver os derradeiros exemplares da raça bovina da ilha do Corvo.

Assim, a Representação Parlamentar do Partido Popular
Monárquico, nos termos da alínea d) do artigo 31.º do Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, propõe que a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores aprove a seguinte Resolução:
A Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores
recomenda ao Governo Regional que transfira, para o espólio do Ecomuseu da Ilha do Corvo, os dois exemplares empalhados do boi- raça anã da ilha do Corvo que integram atualmente a coleção de História Natural do Museu Carlos Machado.

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