Rampa do porto velho da Madalena está a ser destruída

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A natureza e qualidade do transporte marítimo de passageiros e mercadorias entre o Pico e o Faial foi, por centenas de anos, influenciada fortemente pelo facto de não haver portos no Pico que permitissem o uso das embarcações que resultavam da evolução rápida da concepção, dimensão e construção que se foi verificando, especialmente na segunda parte do século XIX e durante todo o século XX.
Exatamente na segunda metade do século XIX começaram a ser feitas grandes obras portuárias nos Açores, mas nunca foi encarada, a partir dessa altura, a enorme necessidade económica e social que era a de construir um porto adequado na fronteira do Pico que servisse o indispensável tráfego e o desenvolvimento conjunto destas duas ilhas tão próximas – o Faial e o Pico. Os Governos da Monarquia Constitucional, da Republica e do Estado Novo ignoraram sempre essa enorme necessidade, de forma liminar, absurda e muito condenável. Repare-se que, no que toca aos Governos do Estado Novo, foi encarado e decidido, nos anos 60, fazer um porto nas Velas, que aliás era necessário, mas foi sempre ignorada a necessidade urgente de resolver o problema do Pico, sendo que nesses mesmos anos 60 as ligações Pico Faial já movimentavam mais de 180000 passageiros e milhares de toneladas de carga/ano.
Foi preciso que se desse o 25 de Abril e que fosse instituída a Autonomia para que o problema portuário do Pico fosse encarado com seriedade.
Sem querer entrar na discussão interminável de saber se as soluções portuárias adotadas foram, ou não, as melhores, o certo é que depois de haver o novo Porto da Madalena tudo se foi modificando, para melhor, na ligação marítima entre as duas ilhas. Novos navios de passageiros e carga foram surgindo, a circulação de passageiros aumentou muito, a movimentação de cargas adaptou-se às novas circunstâncias e metodologias usadas, tudo isto reforçando uma ligação cada vez mais complementar e menos dependente entre duas ilhas que aspiram ao seu desenvolvimento.
Essa enorme transformação nas condições do transporte marítimo entre o Pico e o Faial, verificada nos últimos 40 anos, põe em evidencia e coloca na primeira linha da importância histórica e cultural a preservação material dos elementos definidores das condições portuárias que se praticavam por enorme necessidade, mas com grande risco.
O Porto Velho da Madalena, com a sua pequena bacia de mar, o seu curto e alteroso cais e a sua indispensável rampa de varagem, mereciam ter sido preservados, como documento vivo de uma época muito longa em que a subsistência obrigava a práticas de transporte muito arriscadas e violentas. Hoje já serão muitos os que não sabem que os Barcos do Pico, essenciais no transporte de carga nos dois sentidos, tinham que varar (na Madalena, Areia Larga e Calhau) todos os dias, porque os portos, por não terem abrigo, assim o impunham. Daqui a uma ou duas gerações só os “curiosos da história” irão saber isso e outras coisas e os vindouros vão perder a possibilidade de ter a compreensão plena de uma época em que marcámos passo na história por determinação absurda de quem mandava.
Vem tudo isto a propósito das noticias e imagens que nos mostram que a centenária Rampa do Porto Velho da Madalena, frente à emblemática Igreja, está a ser desmanchada, com retirada das lajes que a definiam e que está a ser construída nesse local de milhares de varagens uma escadaria ou um anfiteatro! Esta ideia não lembraria ao Diabo, mas ocorreu a pessoas que certamente não sabem o que estão a fazer!
Há mais ou menos 30 anos ouvi ao Senhor Dr. Tomás Duarte, pessoa que sempre se classificou como Homem do Canal, ser necessário preservar a rampa do Porto Velho, colocar lá reconstruções ou réplicas de lanchas e barcos do Pico e de uma ou duas embarcações tradicionais de pesca, associando a essa infraestrutura uma memória do transporte no Canal, a instalar em edifício vizinho à rampa.
É pena que esta opinião de Tomás Duarte não tenha sido seguida e é pena que, em nome de um desejado desenvolvimento, se adotem soluções que são imensamente castradoras da nossa memória e da nossa identidade.
O conjunto Igreja, Rampa de Varagem, Cais e Boca Estreita do Porto Velho da Madalena, valem muitos e muitos anos de uma História que nos marcou, para o bem e para o mal, a todos. 

Horta, 5 de fevereiro de 2018

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