Quo Vadis… Faial?

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1. Em maio de 2016, nas vésperas das últimas eleições para o Parlamento dos Açores, o Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA) publicou o ICDIR – Indicador Compósito de Desenvolvimento Intrarregional (1980-2010).
Esse indicador “tem como objetivo medir o posicionamento e a evolução de cada ilha no contexto regional, (…) nas vertentes económica, social e ambiental.”
Na informação fornecida, o SREA tomou a iniciativa de adiantar algumas conclusões e propor leituras daquele índice que, no ambiente pré-eleitoral que então se vivia, dividiu o espetro político e secundarizou alguns dos números apresentados.
2. Mas, para que fique registado, o SREA concluía que os resultados “revelam, em 2010, uma Região globalmente mais coesa, em termos de desenvolvimento, do que em 1980. No período em estudo, de 30 anos, oito das nove ilhas, exceto S. Miguel, melhoraram o seu desempenho. Esta melhoria é devida, sobretudo, à evolução no período 2000-2010, onde oito ilhas tiveram comportamento favorável, seis delas significativamente, enquanto no período de 1980 a 2000 apenas três ilhas tinham evoluído positivamente no Indicador em análise. A Terceira é a única ilha que, em 2010, apresenta todos os indicadores acima da média regional.”
3. Revisitar e reanalisar esse Indicador (e, sobretudo, os seus componentes) leva-nos a preocupações não concordantes com o otimismo do SREA, no que à ilha do Faial diz respeito.
Comecemos por explicar que o ICDIR resulta de três componentes:
a) o Indicador de Competitividade Económica, que “pretende captar o potencial (em termos de recursos humanos e infraestruturas) de cada ilha em termos de competitividade (…) e eficácia na criação de riqueza”;
b) o Indicador de Coesão Social, que “procura refletir o grau de acesso da população a equipamentos e serviços coletivos básicos (…) traduzidos no aumento da qualidade de vida”;
c) o Indicador de Sustentabilidade Ambiental, que “está associado às pressões exercidas pelas atividades económicas e pelas práticas sociais sobre o ambiente”, embora, até 2015, “o número de indicadores recolhidos no âmbito deste componente [seja] diminuto.”
Assim, o ICDIR e respetivos componentes, no que diz respeito ao Faial, é o seguinte:

 

ICDIR

Competitividade económica

Coesão Social

Sustentabilidade ambiental

 

1980

1990

2000

2010

1980

1990

2000

2010

1980

1990

2000

2010

1980

1990

2000

2010

Faial

95,0

93,3

94,0

103,6

105,4

105,4

98,6

91,3

107,7

118,5

120,7

111,1

71,6

57,4

68,1

110,8

4. Não precisamos de ser especialistas para, olhando para estes números, ficarmos profundamente preocupados. É que se centrarmos a análise da evolução da nossa ilha na última década, só podemos concluir que estamos a regredir de forma preocupante. Na competitividade económica, estamos a recuar desde 1990. Na coesão social, recuamos desde 2000. Só na sustentabilidade ambiental (indicador ainda pouco significativo, como o reconhece o SREA) é que crescemos e é só esse indicador que determina que o CDIR do Faial não seja outro….
5. Não há como negar esta evidência. O Faial está a regredir no conjunto regional a olhos vistos. E o mais patético é verificar que, apesar destes serem números oficiais do Governo, ninguém no poder regional quer saber! Ilhas há que, ao contrário do Faial, estão a crescer naqueles indicadores, até estão acima da média regional, reclamam apoios e investimento, e são atendidas. Aqui, nada! Aqui impera o silêncio e o conformismo habituais. Os nossos poderes locais de há muito perderam proatividade, visão e antecipação na defesa dos nossos interesses. Limitam-se, alguns mais por obrigação do que por convicção, a reagir, muitas vezes quando já nada há a fazer.
O que a estatística e estes indicadores mostram sobre o que está a acontecer ao Faial na competitivade económica e na coesão social não é mais do que o reflexo de um problema que só não vê quem não quer: a diluição completa do poder e da influência do Faial no contexto regional. Exemplos? Os departamentos governamentais no Faial estão cada vez mais esvaziados de poder e os seus centros de decisão colocados fora do Faial. Verifique-se a frequência com os seus titulares (Agricultura, Turismo, Comunidades, designadamente) vêm ao Faial, onde supostamente está a sede desses departamentos. A RTP e a RDP no Faial estão quase transformadas em correspondentes, esvaziadas de autonomia e quase sem programação própria. Não há no Faial uma personalidade que seja que, para este novo centralismo que se construiu nos Açores, tenha qualidade de pensamento e de opinião para integrar os muitos painéis de debate que enchem a Televisão dos Açores. As empresas públicas regionais com sede no Faial são comandadas à distância por quem cá poucas vezes vem e que até já nem se dá à maçada de vir aqui fazer uma conferencia de imprensa sobre o acidente marítimo na Madalena! Até mesmo os serviços dependentes do Governo Regional nesta ilha estão cheios de dirigentes simpáticos e cooperantes, mas incapazes de bater o pé, em defesa do Faial, às ordens superiores.
Em 2010 fechou a Fábrica de Peixe do Pasteleiro.
Em 2013 foi a Radionaval.
Já antes tinha sido o Quartel do Carmo.
Agora é o IMAR.
O que recebeu o Faial em contrapartida de tudo isto que perdeu e que teve reflexos diretos na sua economia e na sua coesão social?
Compare-se, agora, com o que se faz em relação a outras ilhas!
E, no fim, não nos admiremos!!!
Quo vadis… Faial? 

04.02.2018

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