Reflexões Crónicas – Os Açores antes dos Açorianos: mitos e invenções

0
79

No passado domingo à noite o canal National Geographic emitiu um documentário intitulado “Ascensão de Atlântida”, que foi publicitado como uma revelação acerca da presença de uma sociedade nos Açores milénios antes dos portugueses.
Na realidade, o programa tratou-se de uma longa exposição acerca de vários povos antigos do Mediterrâneo, percorrendo os locais onde se encontram vestígios deles e tirando conclusões precipitadas e demasiado forçadas sobre o que supostamente terá sido a antiga civilização (mais ou menos lendária) conhecida como Atlântida.
A eventual novidade, pelo menos no âmbito dos documentários deste género, foi inserir os Açores no “circuito”. No entanto, e ao contrário do que foi “vendido” pela publicidade feita (de forma bastante forçada), a referência às nossas ilhas cinge-se aos últimos dez minutos. Neles o Professor Félix Rodrigues (UAc) apresenta vários “acha-dos arqueológicos” na Terceira e no Pico, os quais, segundo ele, remontam à época romana (há c. 2000 anos) ou, eventualmente, a alguns milénios antes (até c. 6000). E, apesar de todas as informações apresentadas serem meras teorias e nunca serem acompanhadas de provas, fazem-se afirmações conclusivas tidas por exactas, como, por exemplo, “[os romanos] usavam isto [este espaço] como necrópole”, “surpreendente-mente, as pessoas daqui tinham costumes idênticos aos do Mediterrâneo” e “viveram nestas ilhas atlânticas há 2000 anos, talvez mais cedo”. Além de, como se referiu, não serem nunca apresentadas provas concretas para o que é afirmado (muito menos para fazer afirmações com esse tom conclusivo), é importante referir também alguns detalhes:
1. O Professor Félix Rodrigues, com todo o respeito que lhe devemos enquanto académico, não é arqueólogo nem historiador, é físico, e, portanto, não é a pessoa mais habilitada para teorizar em torno de factos arqueológicos, cuja disciplina – a Arqueologia –, além de uma ciência por direito próprio, tem as suas metodologias de trabalho e análise e cruza conhecimentos de várias áreas nos seus estudos para poder encontrar conclusões consistentes.
2. Todo este documentário, no seu conteúdo e na forma como foi publicitado, é um exercício sensacionalista feito sem qualquer aval de especialistas nas matérias abordadas e que não acrescenta nenhum conhecimento ao público, apenas discorre sobre teorias cujas conclusões são apresentadas como se fossem verdades históricas.
3. Existem muitas teorias sobre presenças pré-portuguesas nos Açores, desde as referidas até à passagem de Fenícios pelas ilhas ou à que afirma que a Terceira é (ou era…) o local de repouso dos faraós egípcios, mas nenhuma até hoje apresentou sequer provas credíveis.
4. Muito recentemente, e teorias à parte, foram feitas duas datações credíveis, nas ilhas de São Miguel e Terceira, que podem indicar uma presença humana naquelas ilhas anterior ao século XV. No entanto, são achados muitos recentes, que devem ser postos em contexto e que carecem ainda de uma maior investigação antes de serem feitas quaisquer conclusões.
5. Os Açores já eram conhecidos pelo menos desde o século XIV, quando surgem representados na cartografia, mas as ilhas eram ainda mais ou menos míticas, tinham sido avistadas e eventualmente aportadas, mas, que se saiba, nunca povoadas. Até agora foram encontrados vestígios que provam a presença humana desde o século XV, quando começaram a ser povoadas pelos portugueses, e é esse o consenso que existe entre os investigadores, até provas em contrário.

[email protected]
Imagem: Primeiro mapa impresso dos Açores, publicado em Itália por Bordone, em 1534, no qual as ilhas aindauma configuração semelhanteà com que surgiam nas primitivas cartas de representação do Atlântico dos séculos XIV e XV. Colecção do autor.

Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o “Acordo Ortográfico” de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de comprovadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO