Relação da vegetação dos Açores com a vegetação da Macaronésia

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A vegetação natural das ilhas encontra-se distribuída em comunidades específicas cuja composição é função de fatores fisiográficos e climáticos. De entre os processos que estão na origem da dinâmica da paisagem, no que diz respeito à componente geológica, destacam-se os fenómenos vulcanológicos, tectónicos e erosivos, todos com um papel importante na construção da paisagem açoriana. As componentes climáticas influenciam a paisagem de modo diversificado, não só pelo facto de os parâmetros climáticos determinarem, em grande medida, o funcionamento dos ecossistemas como também porque à paisagem está associada a sua água, essencial à vida. Nos Açores é possível verificar que as diferenças climáticas entre as ilhas são pouco acentuadas se comparadas com outros arquipélagos da Macaronésia, como por exemplo o da Madeira, cujo clima varia grandemente entre as ilhas da Madeira e de Porto Santo.
A Macaronésia é antes de mais um conceito, que continua a ser útil e usado no campo da biogeografia para designar o conjunto de territórios atlânticos – Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde – cuja paisagem foi moldada pelo isolamento até à descoberta pelo homem e que devido às suas características climáticas mantêm relíquias vivas da vegetação subtropical da Era Terciária. A elevada biodiversidade vegetal da Madeira e Canárias, em que surgem formações florestais complexas e espécies de vegetação reliquiais em latitudes onde se esperariam formações desérticas ou pré-deserticas, junto ao deserto do Sahara, deve-se ao isolamento e ao efeito de oceanidade, com o mar a proporcionar a humidade necessária para que florestas temperadas húmidas se desenvolvam. Aqui, o distanciamento dos continentes, o regime de ventos e a altitude ditam o surgimento de uma forte componente de oceanidade que a vegetação interpreta como sendo tropicalidade.
Foi há 100 milhões de anos, ainda no Cretácico, que o oceano Atlântico se começou a formar pela separação entre as massas continentais que iriam dar origem às atuais América do Sul e África. Por esta altura terminava um período glaciar e iniciava-se um outro período de maior amenidade climática no planeta. Na Era Terciária, iniciada há cerca de 65 milhões de anos, tinha-se instalado um clima subtropical húmido nas atuais Europa e América do Norte, a que correspondiam formações vegetais do tipo laurissilva. Estas formações ter-se-ão extinguido ou tornado residuais nas zonas continentais devido a posteriores alterações climáticas, mas mantiveram-se nos arquipélagos que entretanto surgiram por fenómenos de vulcanismo, devido ao clima ameno de que os territórios insulares usufruíam. De entre estes destacam-se a Madeira e as Canárias mas também outros que entretanto imergiram, atuais baixios, como Josefine, Gorringe, Ampére, Ormonde, Siene, que poderão ter funcionado como um rosário de ilhas e permitiram uma mais facilitada dispersão de vida até aos arquipélagos mais isolados e que surgiram posteriormente, como os Açores.
É importante referir que as rochas mais antigas conhecidas nos Açores, em Santa Maria, datam de 8.12 milhões de anos, altura em que vegetação laurissilva já se encontrava extinta em grande parte do continente europeu, pelo que as relíquias vegetais que entretanto aí chegaram terão tido como única fonte os arquipélagos mais próximos, e por isso apenas as que tiveram condições de aí sobreviver e de se propagar eficientemente para territórios mais longínquos chegaram aos Açores. Este facto poderá ser uma das causas da menor diversidade florística natural dos Açores, se comparado com os arquipélagos da Madeira e das Canárias.
Assim, o modo como um território isolado como os Açores foi colonizado pela flora natural da laurissilva ainda não se encontra totalmente esclarecido, no entanto a hipótese de dispersão por meio de um rosário de ilhas conjugada com o transporte dos propágulos por parte de aves (para uma parte das espécies de plantas), do vento e de jangadas naturais provenientes de outras ilhas (para outra parte das plantas) é considerada a mais plausível, face aos conhecimentos atualmente disponíveis.