Retalhos da nossa história – CCLXI

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Helena Graça – jornalista, poetisa e caricaturista

Introdutor da imprensa e do jornalismo no Faial, o notável professor, advogado e político João José da Graça Júnior teve, do seu casamento com Elisa Hermínia de Sequeira Bettencourt realizado na Matriz da Horta em 4 de Maio de 1857, os seguintes filhos: Filipe, Elisa, Sara, José Filipe, Helena e Júnia. Os dois primeiros faleceram ainda crianças, ao passo que José Filipe da Graça e Helena Graça se revelaram herdeiros do seu pai, em especial nas lides da docência e da escrita.
Helena Graça nasceu a 11 de Março de 1870 e distinguiu-se como jornalista, poetisa e exímia caricaturista. Colaboradora assídua da imprensa local, ela foi a primeira senhora a dirigir um periódico faialense. Chamava-se “O Feminino”, começou em 30 de Outubro de 1929, era um quinzenário literário e humorístico e nele se encontram também interessantes trabalhos de xilogravura que ela mesma executava. Durou 10 anos. 
Por ocasião do seu falecimento, em 16 de Maio de 1949, os diários faialenses “O Telégrafo” e “Correio da Horta” não só deram a notícia, como inseriram artigos de opinião de amigos e admiradores. Ressalvados os naturais e compreensíveis exageros próprios dos elogios, podemos recolher, desses depoimentos, alguns elementos da sua obra e do seu carácter. 
Assim, Osório Goulart, revela-nos que ela deixou três livros de poesias: “Nuances” (1919), “Focados”(1920) e “Vespas e Mariposas”(1921). Foi igualmente novelista e escritora de teatro, tendo publicado no seu jornal “O Feminino” as novelas: “Amor de Pai”, “Mistérios da Alma”, “Abel e Caim” e “O Remorso”, além da revista “Rebenta a Bolha”, e das comédias “A Família Bermeredes” e “Amor Voluntário”, sendo esta representada em Julho de 1928 no Teatro Faialense. É ainda Osório Goulart a assinalar que “uma das múltiplas facetas do formoso talento de Helena Graça era o humorismo irónico, que deu vigoroso e artístico relevo no seu lápis de caricaturista; mas num meio pequeno qualquer traço irrisório escandalizava e, por isso, a certa altura, o lápis repousou na sombra para sempre”. 
 
Manuel Joaquim Dias, falecido em 21 de Janeiro de 1930 – portanto 19 anos antes de Helena Graça – escrevia, num álbum de homenagem a ela, estes versos encomiásticos: “O madrigal que eu intento/Confesso que me embaraça/ Não me voa o pensamento/ Do gracioso talento/ Que até no nome tem Graça”! 
Além destes testemunhos sobre a obra de Helena Graça, outros se encontram arquivados em “O Telégrafo” – em especial o de sua amiga Maria Arouca Vieira Massano – e no “Correio da Horta” que lhe dedicou número especial, no qual, além do escritor Osório Goulart, igualmente colaboraram a professora Ana Adelina Bettencourt da Costa Nunes e o jurista José da Silva Peixoto. Em “Saudosa Homenagem”, aquela poetisa realça alguns aspectos da personalidade de Helena Graça: “senhora de raros dotes intelectuais, de fina sensibilidade, e de requintada gentileza, que se impunha pela distinção do seu porte e pela afabilidade do seu trato”, ela que sendo “filha do erudito escritor e jurisconsulto, senhor João José da Graça (…) de seu pai herdou o gosto pelas letras, que também em seu irmão José Filipe da Graça, que a morte cedo ceifou, tinham encontrado verdadeiro culto”1 . Já o escritor e jornalista Dr. Silva Peixoto, se, por um lado, mostra verdadeiro pesar pela morte, lamenta que ela tenha ido “a enterrar, acompanhada apenas por umas reduzidas dúzias de pessoas – entre as quais se contavam alguns amigos e um certo número de admiradores do seu talento ou das excelsas virtudes do Pai da defunta senhora, em póstuma e comovida homenagem a um Homem que foi alguém na ilha do Faial, que a cobriu de glória e a impôs, impondo a sua mentalidade”. Pois “a filha que durante décadas foi um dos mais altos expoentes da sociedade faialense, compondo versos, fazendo jornalismo ou traçando as suas admiráveis caricaturas, seguiu a caminho do cemitério, desapercebidamente, modestamente, sem que a cidade lhe pagasse o tributo que lhe devia.” E, afinal, quem fechara os olhos para o mundo “era um valor espiritual (não facilmente realizável em dinheiro ou em outros valores materiais), era uma poetisa que vivera o seu sonho de Ideal e de Beleza, lutara pela dignificação da mulher faialense, cantara a Ilha Azul (sua apesar do acaso ter feito com que nascesse na ilha Graciosa) em estrofes singelas e sinceras, fora directora de um jornal feminino, o único que se publicou neste distrito, senão em todo o arquipélago”2. 
Para que o esquecimento não lhe cubra a memória, como receava Silva Peixoto, aqui se recorda esta figura de mulher que ao Faial deu “relevante brilho com o seu formoso talento”. 
Helena Graça casara, na igreja da Conceição da cidade da Horta a 5 de Fevereiro de 1894, com Manuel Rodrigues Luís, nascido na Criação Velha, Pico, a 15 de Novembro de 1868 e falecido na Horta em 31 de Março de 1944, empregado de escritório e administrador do diário regenerador “O Globo”. Tiveram apenas uma filha, Maria Elisa Graça Rodrigues, que, após uma longa vida viria a falecer na sua casa à Rua Vasco da Gama, nas Angústias a 25 de Maio de 1988, onde também residiu até à morte em 1976 sua prima Camila Mendes de Faria, filha de Sara Graça Mendes de Faria e de Domingos Mendes de Faria. 
Como bem salientou o conceituado professor e escritor Dr. Tomás da Rosa, Helena Graça, além de jornalista era uma “ verdadeira artista, faialense pela família, pela residência e pelo convívio social e cultural”.

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