Ainda na década de 20 do último século o porto da Horta continuou a ser procurado por hidroaviões que diligenciavam realizar a desejada travessia do Atlântico Norte. A juntar aos aviadores americanos, italianos e alemães que anteriormente já haviam amarado na baía faialense, serão ingleses e franceses que, em 1928, tentarão idêntico feito, utilizando a Horta como base de abastecimento.
Assim, em 28 de Junho de 1928 “o hidroavião inglês G- CAJI, às 18h 55m amarou no porto exterior, sendo rebocado pelas lanchas a gasolina ‘Thiestle’ e ‘Elite’ para o porto artificial, amarrando à boia para ele preparada” 1. Esta era mais uma das “grandes viagens aéreas” em que o capitão inglês Frank Courtney intentava ligar a Europa à América. Acompanhavam-no o telegrafista Hugh Gilmour, o mecânico Fred Pierce e o proprietário do avião, Mr. Elwood Hosmer. O voo de Lisboa à Horta durou 12 horas e, embora fosse Verão, Courtney esteve vários dias na capital portuguesa aguardando que o tempo permitisse a viagem. A espera foi tão longa que os faialenses chegaram a pensar que, tal como sucedera no ano anterior, Courtney já não viria à Horta. Felizmente, as condições atmosféricas melhoraram e o consagrado aviador inglês pôde largar de Lisboa em direcção ao Faial no dia 28 de Junho às 5 horas da manhã. Mas a travessia foi demorada e difícil: fortes ventos contrários reduziram a velocidade do G-CAJI que, já próximo dos Açores, sofreu avarias em dois instrumentos de bordo que lhe causaram grandes desvios na rota. Nada disto impediu que o G- CAJI fizesse “uma das mais belas” amaragens de quantas a Horta havia presenciado. Logo que ancorou, muitas lanchas, conduzindo nacionais e estrangeiros, acercaram-se daquele aparelho, desejosos de o ver de perto. Pouco depois “os distintos aviadores desembarcaram no cais de Santa Cruz onde foram vitoriados por uma compacta multidão”, seguindo para a residência de Mr. Ward, superintendente da Comercial Cable C.ª, onde se hospedaram. À semelhança do que já acontecera com a passagem de outros pioneiros da aviação, a descida e a amaragem do hidroavião de Frank Courtney foi muito fotografada e filmada e logo comunicada ao mundo, através das companhias de cabo submarino 2. Depois de devidamente abastecido de combustível, Courtney fez várias tentativas para prosseguir viagem até ao continente americano, designadamente nos dias 4, 8, 17, 26 e 29 de Julho. Todas elas, registadas nos Serviços de Pilotagem e na imprensa da época, mostram que levantava voo, mas, forçado pelas condições atmosféricas, era obrigado a arribar ao Faial. Só na tarde de 1 de Agosto é que o CG- CAJI “descolou de Porto Pim e seguiu para norte” 3. Relata um jornal que muita gente assistiu à descolagem que se deu “em frente à casa do antigo cônsul inglês, hoje propriedade dos srs. Lourenços, aproando ao areal do Porto Pim, por cima do qual veio a sair na altura de alguns metros, singrando por entre os montes da Guia e Queimado, trabalho em que Courtney mostrou a sua grande perícia”4 . Avariou a cerca de 500 milhas a oeste do Faial, sendo os aviadores salvos pelo vapor “Minnewaska” que os levou até Nova Iorque.
Estava ainda Courtney na Horta quando cá chegou o hidroavião francês “La Fregate”. Era um biplano da aviação militar gaulesa que, vindo directamente de Brest, fez uma excelente amaragem, a 23 de Julho de 1928, “às 5 h e 20 m no ancoradouro exterior, indo amarrar à popa do cruzador francês ‘Ville de Ys’”5 . Apesar de não ter havido problemas durante a viagem, que durou 15 horas, sofrera pequenas avarias, cuja reparação determinou que fosse içado para o molhe da doca. Era comandado pelo piloto De Paris que, com os seus dois arrojados companheiros, tencionava atingir a América, com escala na Bermuda. Por razões não divulgadas – provavelmente por necessitar da substituição de um dos seus motores – o certo é que a viagem do “La Fregate” findou na Horta, já que a 6 de Agosto seguiu para França, devidamente desmantelado e encaixotado, no cruzador Duguay Trouin.
Entretanto, e não obstante os notórios avanços na aeronáutica, esta ainda era, nos anos 30 do século passado, uma actividade sedutora e aventureira que apaixonava multidões. Flagrante exemplo disso foi a passagem pela Horta do enorme hidroavião alemão “Dornier DO X” em 1932. Concebido em 1929 pelo Dr. Claudius Dornier, súbdito alemão que conquistou imensa fama com os seus diversos tipos de aeroplanos, o DO X efectuou ainda naquele ano o seu primeiro voo transportando 170 pessoas, o que constituiu o maior recorde do mundo.
A versão deste gigante dos ares que em 1932 aportou à Horta, media cerca de 50 metros, tinha o peso próprio de 30 toneladas, podendo carregar outras 24 e deslocar-se com o peso máximo de 54.000 quilos. Para isso dispunha de uma força de 7.200 cavalos propulsionada por 12 motores e oferecia, no seu interior, uma sala para passageiros, dois quartos para dormir, uma sala de fumo, um bar, cozinha eléctrica e toilete, ocupando estes espaços um comprimento de 24 metros por 3,2 de largura e tinha capacidade e alojamentos para transportar 70 passageiros. Possuía ainda uma estação de telegrafia sem fios tão poderosa que na viagem da Terra Nova para o Faial lhe permitiu estar sempre em permanente comunicação com os Estados Unidos. Esta etapa da volta ao mundo que o DO X iniciara no ano anterior teve a duração de 17 horas, pois saiu de Holyrood (Terra Nova) a 21 de Maio de 1932 pelas 6 h e 30 m e entrou no porto da Horta às 23 h e 30m. Fizeram a maior parte do percurso com tempo bom, excelente visibilidade que até lhes permitiu a navegação astronómica, ainda que os ventos contrários lhes diminuíssem a marcha. Todavia, à medida que o DO X se aproximava dos Açores, o céu apresentou-se muito nublado impedindo a visão. Cerca das 21 horas avistaram os sinais luminosos de um farol que tomaram por ser o dos Capelinhos no Faial, quando, efectivamente, era o do Carapacho na Graciosa. Pouco depois divisaram os promontórios das ilhas São Jorge e Pico mas do Faial nada se via. Mudaram um pouco o rumo e, finalmente, avistaram o farol da Ribeirinha que tomaram como ponto de referência para uma amaragem que fizeram junto à costa daquela freguesia faialense. Haviam saído da Terra Nova há cerca de 15 horas e, daquela zona vieram navegando, usando dois dos seus doze motores, “a demandar o porto da Horta, dentro do qual, comboiados pelo piloto [Daniel Bettencourt] foram com segurança absoluta de manobra amarrar à boia que lhes havia sido destinada”6 . Apesar da hora tardia a que chegou, ainda assim muitas foram as pessoas que aguardavam aquele gigante dos ares, além, é claro, das autoridades locais, a começar pelo governador civil Dr. Pais Almeida, cônsul da Alemanha Otto Schroeder e guarda-mor de saúde Dr. Manuel Francisco das Neves Júnior. Durante a noite tomou cerca de 21 mil litros e logo na manhã de 22 de Maio levantou voo em direcção a Vigo, que era a etapa seguinte do seu périplo pelo mundo.
O DO X era comandado por Frederick Christiansen e compunha-se de 14 pessoas, sendo 10 alemães, dois suíços, um americano e um austríaco.
Livro n.º 13 de Registo de Serviço de Pilotagem da Horta, fl. 68-v
O Telégrafo, 30 Junho 1928
Livro n.º 13 cit., fl. 73
O Telégrafo, 3 Agosto 1928
Livro n.º 13 cit. fl. 72
O Eco Cedrense, 24 Maio 1932













