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Retalhos da nossa história – CL – Furtados, uma família de artistas (2)

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João José Furtado, nasceu na Prainha do Norte, ilha do Pico, em 6 de Junho de 1810. Filho do capitão de milícias João José Furtado e de D. Maria Ana Margarida Bettencourt, era sobrinho do “ilustradíssimo e talentoso sacerdote” padre José Leal Furtado (já aqui evocado) e, tal como ele, foi também um músico distinto, exercendo os cargos oficiais e remunerados de organista e de mestre de capela da Matriz da Horta.

 Jovem ainda, professou no convento do Carmo da cidade da Horta, provavelmente no tempo da Usurpação, pois teria 24 anos de idade quando, em 28 de Maio de 1834, foi publicado o decreto do Regente D. Pedro, devido ao ministro Joaquim António de Aguiar, que extinguiu as ordens religiosas em Portugal. Uma vez que esse diploma determinava que daí em diante os edifícios onde funcionavam essas comunidades passavam a propriedade do Estado, os religiosos que nelas viviam tiveram de sair. Vem daí o nome de egressos porque ficaram conhecidos os religiosos expulsos por haverem saído dessas extintas residências. 

Como se sabe, a Horta do século XIX estava bem povoada de estabelecimentos religiosos regulares. Existiam os conventos de São Francisco, do Carmo, de Santo António, de São João e da Glória, que, possuindo boas bibliotecas, possibilitavam que vários dos seus membros tivessem acesso a uma formação que os habilitava para a docência de primeiras letras, gramática latina, filosofia e matemática, leccionadas sobretudo pelos franciscanos e carmelitas. Em alguns casos havia mesmo estudos superiores para o clero, ministrando-se Teologia, Retórica e Lógica. Portanto, depois da implantação definitiva do Liberalismo, quando foram extintos os mosteiros, muitos dos religiosos, despojados de bens e de alojamento, regressaram às terras de origem ou ficaram na área de residência, recorrendo uns à caridade pública, optando outros pelo ensino da catequese e das primeiras letras quer na própria habitação quer em colégios particulares. Alguns dos que eram clérigos regulares passaram a exercer o seu múnus nas paróquias, como vigários, beneficiados, curas e tesoureiros… Enquanto não tivessem outra fonte de rendimento, os frades egressos receberiam uma modesta pensão, suportada pelo Estado que, recorde-se, se apoderara de todo o património dos mosteiros que abruptamente extinguira.  

O frade egresso João José Furtado, em vez de regressar à sua Prainha do Norte, escolheu viver na recém-criada cidade da Horta. Naturalmente, terá contado com apoio de familiares e, fazendo uso dos seus conhecimentos literários e musicais, entregou-se ao trabalho. Pediu a redução ao estado laical, mas em tempo de difíceis e morosas comunicações, nunca obteve de Roma a desejada autorização. 

 Mesmo assim, constituiu família, unindo-se a D. Maria Madalena Madruga (1820-1879), também picoense, nascida nas Lajes, filha de António Manuel Madruga, proprietário, e D. Gertrudes Emília. 

No período que vai de 1842 a 1857, tiveram dez filhos, todos registados nos assentos de baptismo da paróquia da Matriz como “naturais”, apenas com indicação do nome da mãe:

– João José Furtado (5.7.1842 – 19.4.1865). Manteve-se solteiro;

– D. Maria Madalena de Bettencourt Furtado (30.8.1843 – 24.6.1930) Casou a 22 de Novembro de 1862, na igreja do Carmo com o proprietário e negociante Marcelino de Almeida Lima, sendo pais de nove filhos, com especial destaque para o consagrado investigador e romancista Marcelino Lima;

– D. Carolina Adelaide Madruga Furtado (4.2.1845 – 18.6.1920). Casou na Matriz a 16 de Junho de 1866 com António de Sousa Severino de Avelar, funcionário público e irmão do conhecido médico e político Dr. António Emílio Severino de Avelar;

– José Cândido de Bettencourt Furtado (19.3.1847 – 11.10. 1909). Casou na Matriz a 10 de Fevereiro de 1870 com D. Maria Elisa Correia, filha do negociante José da Silva Correia e de sua mulher D. Laura Prudenciana da Silva;

– Henrique (nasceu a 16.11.1848 e viveu poucos dias);

– António Manuel Madruga (22.4.1849 – 1.12.1867). Faleceu solteiro;

– D. Rosa (teve meses de vida: 1.6.1850 – 6.9.1850);

– D. Teófila Inocência Furtado (n. 28.12.1852). Casou na paroquial da Feteira em 6 de Fevereiro de 1882 com o conselheiro Miguel António da Silveira, negociante, governador do distrito, deputado às Cortes e líder distrital do Partido Progressista;

– Henrique de Sousa Furtado (21.1.1855 -26.5.1940). Casou na Matriz a 22 de Junho de 1882 com D. Elvira dos Anjos Terra, filha de Florêncio José Terra Brum, capitão da marinha mercante, e de Olinda Mariana e irmã do conhecido professor, jornalista e escritor Florêncio José Terra;

– D. Virgínia Adelaide de Sousa, nascida a 19 de Março de 1857, casou na Matriz da Horta a 6 de Março de 1876 com Cândido Maria de Sousa, funcionário público e destacado amador teatral, um dos fundadores do Grémio Literário Faialense e da Sociedade Luz e Caridade. Tiveram três filhos: Silvina Furtado de Sousa, a celebrada musicóloga e poetisa “Iracema” (19.1.1877 – 6.9.1973), Heitor de Sousa Pimentel, também distinto artista (27.4.1879 – 13?.4.1947) e Asdrúbal de Sousa (nascido a 7.4.1881 e provavelmente falecido no Brasil). A vida de D. Virgínia Adelaide de Sousa, bem como a de seu marido e filhos tem a marca do mistério e do sofrimento, um e outro ciosamente guardados pela família e pelos amigos mais próximos. 

A própria D. Silvina Furtado de Sousa – com quem tivemos ainda a honra de privar –  enaltecia frequentemente a memória do pai, jamais se referindo à mãe, o que fazia que, mesmo os mais próximos, presumissem haver falecido sendo ela ainda criança. É que em 1882, tendo apenas cinco anos, foi com o pai para Lisboa que trocara o cargo de aspirante da Alfândega da Horta pelo de escrivão do crime no Tribunal da Boa Hora. Viveu com o pai na capital portuguesa até 19 de Janeiro de 1893, dia em que ele faleceu subitamente, sucumbindo a uma “tísica pulmonar”. A notícia da morte do pai, que lhe foi bruscamente comunicada por um agente policial, o regresso à Horta e a sua vida em casa do tio José Cândido de Bettencourt Furtado, os amores não correspondidos, os seus êxitos e fracassos e a permanente e angustiante saudade que constantemente atormentava a sempre lembrada “Iracema”, jamais a levaram a revelar o que se passara entre os seus progenitores. Como era sina da família Furtado, também o casal Cândido Maria e Virgínia Adelaide e os seus filhos, passaram por momentos tremendamente difíceis que levaram à discórdia e à separação e provocaram infelicidade e tragédia…

Voltando, porém, a João José Furtado assinale-se que faleceu a 1 de Novembro de 1886, na sua casa da rua D. Pedro IV, freguesia da Matriz da Horta. Sobrevivera à mãe de seus filhos cujo decesso ocorrera em 19 de Dezembro de 1879, pelo que, a 2 de Março de 1881, o tabelião João de Deus Paulino de Oliveira registou num dos seus livros uma extensa “Escritura de partilha que fazem D. Maria Madalena Bettencourt Lima e seu marido Marcelino de Almeida Lima, D. Carolina Adelaide de Avelar e seu marido António de Sousa Severino de Avelar, José Cândido Bettencourt Furtado e sua consorte Maria Elisa Correia Furtado, D. Teófila Inocência Furtado, solteira, maior, Henrique de Sousa Furtado, solteiro, maior e D. Virgínia Adelaide de Sousa e seu marido Cândido Maria de Sousa, moradores nesta cidade, dos bens ficados ao falecimento de sua mãe e sogra D. Maria Madalena Madruga” . A descrição dos mesmos, que ocupa várias páginas daquele livro, é um indicativo de que, ao menos materialmente, a vida não correra nada mal à numerosa família de João José Furtado.

(continua)

 

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