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Retalhos da nossa história- CLXXXI – Os voos da Pan American pela baía da Horta (1)

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Na segunda metade da década de 30 do século XX foram várias e importantes as experiências realizadas por companhias aéreas em viagens de ligação da Europa à América do Norte – e em sentido inverso – transportando carga e passageiros e fazendo escala na abrigada e excelente baía da Horta. 

 Coincidindo com os voos experimentais dos alemães da Lufthansa nos anos de 1936, 1937 e 1938, temos os da Air France feitos com os seus hidroaviões gigantes “Lieutenant de Vaisseaux de Paris” e “Ville de Saint Pierre”, os da inglesa Imperial Airways com o “Mercury” e os da Pan American Airways (Pan Am) com os seus Sikorski S 42B e Boeing (“Clippers”). Desta verdadeira corrida pelo domínio aéreo do Atlântico Norte saiu vencedora aquela companhia estadunidense. Fundada em 1927 pelo jovem e dinâmico empresário Juan Trippe, a Pan Am estabeleceu durante os anos 30 serviços de hidroaviões para a América do Sul, Ásia e Europa, assumindo-se como uma das empresas mais prestigiadas do mundo e introduzindo algumas inovações  revolucionárias no mercado mundial da aviação. Suplantou assim toda a concorrência, também no domínio das carreiras comerciais no Atlântico Norte ligando os dois continentes e utilizando a Horta para escala obrigatória dos seus hidroaviões. Partindo dos pareceres elaborados por Lindbergh após a sua estadia no Faial em 1933, e de estudos subsequentes, a Pan Am, em cooperação com a Imperial Airways, intensificou as suas experiências utilizando o quadrimotor Sikorski S 24 B que batizou de “Clipper III”, o qual, procedente das Bermudas, chegou à Horta na manhã do dia 18 de agosto de 1937. Após uma viagem de 15 horas e 24 minutos “amarou com extraordinária facilidade nas águas serenas da nossa baía”, sob o comando do capitão Harold Gray, tendo ainda mais seis tripulantes: dois pilotos, um radiotelegrafista, dois mecânicos e um assistente de bordo. Aquele potente hidroavião pesava 22 toneladas, tinha 68 pés de comprimento, com um raio de ação de 3.597 milhas o que lhe permitia voar 22 horas consecutivas a uma média horária de 163,5 milhas. Estava equipado com “os mais modernos aparelhos de navegação aérea” e podia “descolar com 45. 500 libras de carga”1. Nesta primeira viagem experimental transportou para a Horta várias “malas de correio e 14 volumes de carga constituída por aparelhos e sobressalentes de aviação destinada aos hidroaviões daquela companhia”. Os jornais faialenses, que dedicaram largo espaço ao acontecimento, sublinham que o “Clipper III”, depois de várias evoluções sobre a cidade, “amarou com a maior facilidade e perícia na nossa baía”, perante a vista de “milhares de curiosos”2. A importância do que se passou foi tão relevante, que o mais antigo daqueles periódicos inseriu, na primeira página da edição de 18 de agosto, a seguinte local, significativamente intitulada “WELCOME: Ao descer hoje, pela primeira vez, nas águas da nossa linda baía, um poderoso ‘Clipper’ pertencente à importantíssima companhia de navegação aérea ‘Pan American Airways’, o velho diário ‘O Telégrafo’, interpretando o sentir dos faialenses, saúda os distintos aviadores americanos, fazendo votos para que esta viagem experimental marque o início duma progressiva exploração comercial entre a grande República Norte-Americana e a Europa, com o aproveitamento da nossa ilha como ponto de escala no meio do Atlântico”. 

Esta viagem foi, naturalmente precedida dos indispensáveis preparativos – colocação na baía de uma boia para amarração do hidro, fixação no guindaste ‘Titan’ de um ‘saco’ para indicar a direção do vento, previsão meteorológica feita pelo Observa-tório Príncipe Alberto de Mónaco com a supervisão do tenente-coronel José Agostinho, chefe dos serviços meteorológicos dos Açores – tudo isto realizado sob a direção dos três técnicos superiores que antecipadamente a Pan Am fizera deslocar para o Faial. O “Clipper III”, logo no dia 19 realizou um voo experimental nos céus dos Açores, “descolando com toda a facilidade” e, após sobrevoar algumas ilhas, “fez novamente uma magnífica amaragem”3.  No dia 21 de Agosto seguiu para Lisboa, numa viagem que demorou 7 horas e 28 minutos, tendo ancorado em Alverca. A Emissora Nacional, reproduzindo notícia do jornal O Século, fez circunstanciada descrição da chegada do Clipper III à capital portuguesa referindo, a dado passo, que reinava “grande entusiasmo entre o povo faialense por ter sido escolhido o seu esplêndido porto para base aérea das futuras carreiras de ligação entre o Velho e o Novo Continente”4. Depois de Lisboa, o “Clipper III” viajou por Inglaterra e França, e, vindo de Marselha, voltou à Horta a 31 de agosto, aqui se mantendo até 2 de setembro, dia em que voou para as Bermudas e Nova Iorque. Entretanto, a Pan American continuava os preparativos para começar as ligações comerciais entre os dois continentes utilizando o Faial como ponto de escala dos seus hidroaviões transatlânticos. Com efeito, temos notícia da permanência na Horta de técnicos especializados daquela companhia no segundo semestre de 1937 e durante alguns períodos de 1938, com maior incidência em finais desse ano, altura em que chegaram os engenheiros Morris Head e John Yeomans que vinham “iniciar os preparativos para o estabelecimento de carreiras aéreas entre a América do Norte e a Europa, com escala pela Horta, a inaugurar possivelmente em março próximo”. Com esse objectivo a Pan Am procedera ao arrendamento de uma propriedade de Francisco Gregório Martins na rua Vasco da Gama em frente ao Castelo de Santa Cruz – a antiga “Relva”, que anteriormente pertencera à Família Dabney que a vendera à firma Silveira & Edwards C.ª – para lá depositar material e estabelecer os seus escritórios, enquanto fazia chegar ao Faial duas lanchas de grande tonelagem para serviço das suas aeronaves, além de mais alguns técnicos especializados. Procedia-se, portanto, à organização dos equipamentos daquela companhia, instalando escritórios e serviços de rádio e de meteorologia de apoio, bem como à importação de 725 bidões com milhares de litros de combustível para abastecimento dos aviões, de forma que, em 1939, as ligações aéreas transatlânticas regulares de transporte de carga e de passageiros se tornassem, finalmente, uma efetiva realidade.

1   Correio da Horta, 18 agosto 1937

2   O Telégrafo, Idem

3   Idem, 19 agosto 1938

4   Ibidem, 24 agosto 1938

 

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