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Retalhos da nossa história – CLI – Furtados, uma família de artistas (3)

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José Cândido de Bettencourt Furtado, fez jus à sua ascendência, distinguindo-se pelo elevado talento musical e por uma vida atribulada que, tal como um dos seus antepassados, terminou em suicídio.

Nascido em 19 de Março de 1847, foi baptizado a 3 de Abril na Matriz da Horta, de que era vigário Henrique da Pureza Greaves , também ele um frade egresso, tal como João José Furtado, pai do neófito. Feito o ensino primário, matriculou-se pela primeira vez no Liceu da Horta em 1860, juntamente com 19 colegas, alguns dos quais viriam a ocupar posições de destaque na sociedade faialense, casos de António da Cunha Menezes Brum, na direcção das Obras Públicas, de José Maria da Rosa, reitor do Liceu, jornalista, músico, político e do padre José Veríssimo Ribeiro, capelão fidalgo da Casa Real. Quatro anos decorridos, precisamente no Verão de 1864, deve ter viajado para o Brasil, pois é de 8 de Julho desse ano o “termo de fiadoria” prestado no Governo Civil por seu pai para que lhe fosse concedido o indispensável passaporte .

Mercê de muito talento e do grande esforço que empregou na sua formação musical, contando, naturalmente, com o estímulo paterno, José Cândido Furtado depressa se tornou um pianista exímio e um disputado organista. Quando a 10 de Fevereiro de 1870 casou com D. Maria Elisa da Silva Correia, surge já com a profissão de “organista desta igreja Matriz”, ao passo que seu pai, uma das testemunhas do acto, é referenciado como “mestre da capela desta mesma igreja” . Na década de setenta de XIX, concorreu e foi admitido no cargo de organista da Sé de Angra, onde permaneceu algum tempo. 

Em 1878 já está na Horta, havendo registo de que em 19 de Junho deu, no Teatro Faialense, um concerto de piano  e, no ano seguinte, foi um dos fundadores da Sociedade Humanitária de Literatura e Agricultura, integrando o primeiro elenco directivo, que era assim formado: João José da Graça Júnior, presidente, Dr. António Emílio Severino de Avelar, Luís Teles de Barcelos, João Sérgio Álvares Cabral e José Cândido de Bettencourt Furtado. Foi também um dos subscritores dos estatutos da Caixa de Crédito Distrital da Horta instituída em 2 de Junho de 1881 e ligada àquela Sociedade. No arranque desta, a sua acção foi notável, merecendo do presidente Graça Jr. os mais rasgados elogios, arquivados no Relatório por este apresentado à assembleia geral em sessão de 27 de Dezembro de 1880: “(…) Para a música encontramos nós no nosso ilustre consócio José Cândido Bettencourt Furtado um decidido e preciosíssimo auxílio”, pois, além da sua reconhecida competência pelo saber e pela vocação, o sr. José Cândido é uma dessas organizações felizes, desses espíritos fadados para a luz e para o bem, para quem a vontade é uma força invencível que domina todos os obstáculos, aplana todas as dificuldades e consegue o que nenhum outro era capaz de conseguir, nas circunstâncias em que se acha uma terra como a nossa, desprovida de quase todos os recursos”. E, prosseguindo no seu Relatório, destaca o presidente que foi devido ao grande esforço e à inexcedível dedicação de José Cândido que a “sociedade conseguiu ter uma orquestra que no dizer de pessoas muito insuspeitas se pode apresentar em toda a parte”. Ele pôs ao serviço ao serviço da agremiação “o seu magnífico piano, comprou instrumentos, escreveu todas as partituras, reuniu tocadores, ensaiou e dirigiu uma orquestra composta por seu irmão Henrique Furtado, João Sérgio Álvares Cabral, Daniel de Moura Lane, Avelar Ribeiro, João de Deus Azevedo, J. S. Machado, Pinto Bastos e José Furtado da Silva, a qual “tem sido sempre ouvida com grande apreço e entusiasmo”. Por isso, o presidente da Sociedade Humanitária acentuava “para ficar duma vez para sempre indelevelmente consignado” que esta agremiação “contraiu uma dívida de gratidão para com o seu benemérito sócio José Cândido de Bettencourt Furtado, não só pela organização da orquestra, como pelos muitos outros relevantes serviços que lhe tem prestado e continua a prestar, que a memória não pode esquecer nem o tempo poderá apagar” . E, como se acaba de ler, não apagou!

Não obstante ser já exímio mestre de piano e director de uma orquestra considerada a melhor dos Açores, a fama de José Cândido Furtado ultrapassou as fronteiras do arquipélago e levou-o, ainda na década de oitenta, a emigrar para os Estados Unidos da América. Aí “é que teve, talvez, os dias mais felizes e gloriosos da sua vida”, sendo nomeado “organista da igreja portuguesa de New Bedford” e vendo “o seu nome, quer como concertista, quer como mestre, muito conhecido e apreciado” . 

Decorrido algum tempo, regressou à Horta, vivendo dos seus vastos rendimentos – que, tal como seus irmãos, herdara dos progenitores, e a que juntara os bens de sua mulher – e trabalhando como professor de música. Além de músico, exerceu cargos políticos, alguns deles remunerados – foi, nomeadamente, administrador de Concelho da Horta ( em 1892 e 1898-1900) e da Madalena (1904-1906), por influência directa de seu cunhado Conselheiro Miguel António da Silveira, dirigente máximo do Partido Progressista no distrito da Horta. Distinguiu-se também como desportista “dedicado e audacioso; os seus barcos de recreio e as suas partidas de caça ficaram legendárias na Ilha” . Em 1900, a “chalupa de recreio ‘Lidia’ [nome da filha] fez a travessia do porto da Horta ao das Velas, São Jorge, ida e volta em 8 horas” , o que, para a época, era um feito assinalável. 

Em 1906, sendo ainda administrador do Concelho da Madalena, obteve três meses de licença, e, viajando no navio “Brooklyn, seguiu a 13 de Janeiro para os Estados Unidos, de onde regressou a 12 de Fevereiro” . 

Para quem conheceu José Cândido de Bettencourt Furtado, “o que definitivamente consagra a memória deste simpático artista é o seu carácter do mais puro quilate, os seus actos de desinteresse e de altruísmo, a generosidade verdadeira que sabia pôr em todos os seus actos e que, dizem, concorreu grandemente para a perda da maior parte dos seus haveres pessoais. Dizem também que Bettencourt Furtado, em vez de sucumbir aos estragos de uma doença, como os jornais noticiaram, se deitara ao mar a bordo do navio que o levava novamente à sua querida ilha”.  Em sua companhia vinham a esposa D. Maria Elisa Correia Furtado e a filha D. Maria Lídia Correia Bettencourt Furtado. Além desta, foi também pai de Raúl Correia de Bettencourt Furtado, capitão-de-fragata e deputado pelo círculo da Horta em 1905-1906, e de Adolfo Correia de Bettencourt Furtado, funcionário público e amador teatral que, após haver participado, no Teatro Failense, com “notável êxito” num espectáculo da “Companhia de Declamação” formada por artistas profissionais em que avultava Catarina Falco, seguiu para Lisboa incorporado na mesma e onde integrou temporariamente integrou o elenco da “Companhia do Teatro Gymnasio” .

José Cândido de Bettencourt Furtado foi, em determinado momento da sua vida, membro da loja maçónica “Regeneração” (1879-1893), onde possuía o grau de Cavaleiro da Rosa Cruz.  

(continua)

 

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