Retalhos da nossa história – CLII: Furtados, uma família de artistas (4)

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Henrique de Sousa Furtado, o penúltimo dos 10 filhos do distinto organista e mestre da capela da Matriz, João José Furtado, também se dedicou, como seu pai e outros dos seus familiares, à arte musical.

Nascido na freguesia Matriz a 21 de Janeiro de 1855, matriculou-se no Liceu da Horta em 1870 com mais 29 alunos, destacando-se, de entre eles, a primeira jovem que frequentou aquele instituto, de seu nome Lúcia Pinto, curiosamente de ascendência hebraica, filha do rabi Mayer Pinto e de Maria Sabat Pinto.

Pela escritura de partilha feita em 2 de Março de 1881 dos bens que ficaram de sua mãe D. Maria Madalena Madruga, falecida a 19 de Dezembro de 1879 – e que couberam aos filhos e genros desta – verifica-se que Henrique de Sousa Furtado, bem como os outros herdeiros, se tornou um grande proprietário. Era ainda solteiro e para o “pagamento da sua legítima na importância de um conto duzentos trinta e quatro mil duzentos reis”, foram-lhe “dados e adjudicados” vários bens que se traduziam no domínio directo e foro anual de terrenos situados em vários sítios do Faial, e no domínio pleno de prédios localizados no Cais do Mourato, no Cachorro e no Mistério, freguesia das Bandeiras, na ilha do Pico. Numa síntese do minucioso e extenso documento, deduz-se que Henrique de Sousa Furtado – tal como suas irmãs D. Maria Madalena Bettencourt Lima casada com Marcelino de Almeida Lima, D. Carolina Adelaide Avelar e seu marido António de Sousa Severino de Avelar, D. Teófila Inocência Furtado e D. Virgínia Adelaide de Sousa e seu marido Cândido Maria de Sousa, bem como o seu irmão José Cândido Bettencourt Furtado e consorte D. Maria Elisa Correia Furtado – proporcionando-lhe, aos 26 anos de idade, uma independência económica bastante aceitável.

Com efeito, coube-lhe em herança, na ilha do Faial o domínio directo e foro anual de 769 ares e 66 centiares de várias terras lavradias, localizadas no Monte Carneiro (freguesia Matriz), nos Flamengos, na Feteira, em Castelo Branco e na Ribeirinha cujo valor total foi calculado em 736 mil reis. Delas recebia anualmente, em pagamento dos respectivos foros, 10 mil e 229 reis em dinheiro e 10 mil litros de trigo. Como as propriedades da ilha do Pico ficaram indivisas, coube a Henrique Furtado, em domínio pleno, a sexta parte de uma “casa alta de morada, cozinha e casa de lagar e pertences e reduto que mede 290 ares e 40 centiares de vinha árvores fruto e hortas de cultura, situadas no Cais do Mourato, freguesia das Bandeiras, no valor de um conto de reis, a ele pertencendo, portanto, cento e sessenta e seis mil seiscentos e sessenta reis (166$666 rs.). Também neste local ficou com um sexto de uma vinha e pomar com a dimensão de 145 ares e 20 centiares no valor total de 300$000 rs. e ainda de “um armazém, dois alambiques e seus pertences, trem de cascadura e reduto que mede dois ares e quarenta e dois centiares, no valor de quatrocentos e cinquenta mil reis”. Herdou, igualmente na freguesia das Bandeiras, a sexta parte do “domínio pleno de cinquenta e oito ares e oito centiares de terreno plantado de vinha, chamado de Mistério, no valor de seis mil reis” e “oitenta e sete ares e doze centiares de terreno plantado de vinha situado no lugar do Cachorro”, compreendendo-se “neste prédio a ermida de invocação de Nossa Senhora dos Milagres”, tudo no “valor de quatrocentos e cinquenta mil reis”.

 Além dos prédios, Henrique de Sousa Furtado herdou, em dinheiro, a quantia de cento e trinta mil e duzentos reis(1).

Naquela escritura de partilha é identificado como “solteiro, proprietário e organista da igreja Matriz”. E foi neste templo que realizou o seu casamento em 1882. A cerimónia decorreu no dia 22 de Junho, tinha ele 27 anos e a noiva, D. Elvira dos Anjos Terra, de 25, era filha de Florêncio José Terra, comandante da marinha mercante, e de D. Maria dos Anjos Sarmento Terra. Foram testemunhas do acto, “João José Furtado, mestre da Capela da Matriz, e Florêncio José Terra, solteiro, proprietário” (2), irmão da noiva e que se salientaria na vida cultural e social do seu tempo como escritor, professor, jornalista e político.

É provável que, quando casou, Henrique Furtado, já possuísse o Curso Superior de Piano do Conservatório de Lisboa, o que lhe valeu não só o exercício do cargo de organista da Matriz, mas também a participação em diversos agrupamentos musicais e em múltiplos espectáculos públicos. Na década de 80 do século XIX integrou o primeiro agrupamento musical que foi, no Faial, “único no seu género” e que tornou “mais brilhantes as festividades” (3) religiosas e artísticas.

Tratava-se da “Orquestra João de Deus”, que apenas em 1892 se constituiu oficialmente quando, a 2 de Julho, viu os seus estatutos aprovados pelo governador civil Dr. Manuel de Arriaga Nunes, os quais dois meses antes lhe haviam sido propostos pelos seguintes membros: João de Deus Teixeira, Henrique de Sousa Furtado, Manuel Augusto de Ávila, Guilherme Augusto da Terra Mesquita, Jaime Constantino da Terra Mesquita, José Silveira Garcia, Tomás Inácio da Silva, Tomás Francisco de Medeiros e José Goulart Cardoso. Documento extenso, constando de 38 artigos, com vários parágrafos, logo no artigo 1.º claramente definia os seus objectivos: “Com a denominação de Sociedade Orquestra João de Deus, é instituída na cidade da Horta, ilha do Faial, uma associação de recreio com o fim de desenvolver por todos os meios ao seu alcance o gosto pela música, prestando-se a tocar aonde forem convidados os associados, recebendo, por isso, os proventos que pela Sociedade forem estipulados”. A “administração da Sociedade”- prescrevia o artigo 18.º – competia a “um regente da orquestra e a uma direcção, composta de um presidente, um secretário e um tesoureiro”, sendo o regente de nomeação permanente, escolhido de entre os sócios (foi João de Deus Teixeira) e a direcção eleita anualmente em assembleia geral, recaindo a escolha do presidente sempre em Henrique de Sousa Furtado, pelo menos até 1899, último ano de que existem actas daquela agremiação (4).

A sua actividade musical não se limitou, porém, à Orquestra João de Deus ou à de organista da Capela da Matriz. Deu ainda vários contributos em espectáculos teatrais ou em saraus músico-literários, de que são maiores expoentes o ter sido pianista da Companhia de Zarzuela espanhola que em 1897 se exibiu no Teatro Faialense durante três semanas, realizando 19 récitas, sendo 15 de assinatura e o de haver integrado a orquestra que abrilhantou o sarau músico-dramático organizado, em 17 de Março de 1915, pelas professoras D. Lídia Correia Bettencourt Furtado e D. Silvina Furtado de Sousa, docentes de canto e de piano, ambas sobrinhas de Henrique de Sousa Furtado. Ele fez parte da orquestra que tocou a “Morning, Noon and Night in Viena (ouverture) e que acompanhou o dueto de “Laura e Gioconda” e que contava com o maestro Symaria, Alfredo S. da Silva, Heitor de Sousa Pimentel, Jaime Mesquita, José Goulart Cardoso, José M. de Simas, José S. Furtado, Luís Proença de Pina Coelho, Manuel de Almeida, Manuel Dutra Jr. e Manuel J. Norte, sob a regência de D. Silvina F. de Sousa. Ainda no mesmo sarau, Henrique Sousa Furtado, Silvina F. de Sousa e o maestro Francisco Xavier Symaria, formaram o terceto para harmónio, piano e violino que executou “Adagio Religioso” do quarto concerto de Viextemps (5). 

A par da sua actividade musical, Henrique Furtado também não descurou a sua participação na vida da comunidade faialense. Assim, em 22 de Novembro de 1874 é um dos 11 jovens que fundam o Grémio Literário Faialense que desempenharia papel de relevo na vida cultural, recreativa e social da cidade da Horta. Recordam-se os seus nomes: Luís Teles de Barcelos, Manuel Rocha de Almeida, António da Cunha Menezes Brum, Luís da Terra, Frederico Xavier de Mesquita, Henrique de Sousa Furtado, José Garcia do Amaral, Florêncio José Terra, Ernesto Garcia do Amaral, Cândido Maria de Sousa e Domingos Mendes de Faria.

 Desde 15 de Janeiro de 1903 foi, durante largo tempo e até à sua aposentação, mordomo-fiscal do Hospital da Santa da Misericórdia da Horta, cujo quadro de pessoal era apenas composto – no ano de 1912 – de três médicos (Drs. Avelar, Mesquita e Neves) de um guarda- livros (António Xavier Baptista), de três enfermeiros (Bento Joaquim Cordeiro, Rosa Emília de Morais e Maria Josefa Bettencourt), de um cozinheiro (José Duarte), de dois criados (José da Rosa e Francisca Madalena) e de uma lavadeira (Quitéria Vicência). Destes 12 funcionários hospitalares, o que tinha vencimento mais elevado era precisamente Henrique de Sousa Furtado que, conforme se lê na folha de pagamento de 29 de Junho de 1912, auferia 24.980 reis líquidos, ao passo que cada um dos três médicos recebia 9.990 reis, certamente porque exerceriam o cargo a tempo parcial(6).

Do seu casamento com D. Elvira dos Anjos Terra teve os seguintes filhos: D. Maria Terra Furtado (n. 30.10.1883), Vasco da Terra Furtado (16.11.1884 – 16.1.1955,) D. Rosa Terra Furtado (n. 20.4.1886) e D. Júlia de Sousa Furtado (17.10.1888 -3.8.1969).

Henrique de Sousa Furtado, que ficara viúvo a 7 de Abril de 1920, faleceu na freguesia das Bandeiras, Pico, no dia 26 de Maio de 1940. Mordomo-fiscal aposentado do Hospital Walter Bensaúde, “contava 84 anos, foi durante muitos anos organista da Matriz e era o último dos filhos do grande músico sr. João José Furtado” (7). 


(1) BPARH, Livro 127, 1.º ofício do Tabelião João de Deus Paulino de Oliveira, fls. 18 v. a 29 v.

(2) Idem, Livro 7 de Casamentos da Matriz, assento n.º 10, fls. 23 e 23 v.

[3] O Açoriano, 4 Outubro 1891, p. 3

[4] BPARH – Caixa 11, Livro 12.

[5] Lima, Marcelino, O Teatro na Ilha do Faial, pp. 80, 81 e 104, com aditamentos feitos por D. Silvina F. Sousa em exemplar dela herdado.

[6] AGCH – Maço 1912-F, folhas avulsas

[7] Correio da Horta, 27 Maio 1940, p.2

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