No dia 4 de Outubro de 1946 – completam-se hoje 67 anos – um ciclone de extrema violência assolou o arquipélago açoriano, provocando prejuízos materiais de grande monta. Nas ilhas do Faial e Pico os ventos tempestuosos e o mar alteroso destruíram culturas agrícolas, danificaram vários prédios e, na orla marítima da cidade da Horta, fizeram ruir uma vasta extensão da muralha que protegia as casas da chamada Rua do Mar (actual Rua Conselho Miguel da Silveira), sobretudo as do então “populoso bairro da Conceição”, que “acossadas sem remissão e violentamente sacudidas, tiveram de ser evacuadas, para que os seus moradores se pusessem a salvo do perigo eminente” . Estragos de vulto registaram-se ainda na estrada do Pasteleiro, onde se abateu o paredão de suporte e na chamada “Casa do Cônsul” ficaram “descobertos os alicerces em mais de quatro metros de profundidade, ameaçando ruína a parte da varanda voltada ao mar” . O maior prejuízo verificar-se-ia, porém, no molhe da doca, onde a força das vagas fez rasgar a respectiva muralha em três brechas: “a primeira e a maior no seu início, próximo da Central Eléctrica, a outra, pelo lado exterior, logo a seguir quase ao nível do mar e a terceira perto do marégrafo”. Deste perderam-se aparelhos e madeiramentos, só se salvando a estrutura de betão; a fúria do mar também danificou os pavimentos do piso inferior, partiu a escada de acesso ao farol, destruiu completamente um dos armazéns de carvão da Casa Bensaúde e causou grandes prejuízos na Central Eléctrica que deixou de funcionar. Algumas casas destruídas e muitas destelhadas na orla marítima da cidade até à Feteira, vias de comunicação arruinadas e obstruídas completavam o quadro triste da tremenda tempestade que, no Pico, deixou também um rasto desolador. A zona sul da ilha foi a mais fustigada, em especial as freguesias de Ribeiras, Calheta de Nesquim e São Caetano.
O mar, galgando a terra, fez ruir por completo os armazéns e instalações de derretimento de óleo situados no cais de Santa Cruz das Ribeiras, perdendo-se cerca de 300 bidões, danificando “inúmeras casas” e destruindo cinco canoas baleiras e dois barcos de pesca. A Calheta do Nesquim “foi também muito sacrificada”, com o cais bastante avariado, duas casas destruídas e com a muralha de defesa do porto e a igreja paroquial deveras arruinadas. Em São Caetano, “das 22 casas que existiam junto à costa (adegas e recolha de apetrechos marítimos) não há o menor vestígio”, pois “o mar tudo destruiu e tudo cobriu de pedregulhos”, tendo desaparecido três pequenos barcos de pesca, e ficando com graves avarias “o barco-motor ‘São Caetano’ , uma gasolina e outras embarcações ligeiras”.
A imprensa da Horta, tendo dado ampla cobertura ao ciclone de 4 de Outubro de 1946 e aos enormes prejuízos por ele causados, não deixava de enfatizar, em simultâneo, a “enérgica e bem conduzida acção” das autoridades que tomaram as “providências imediatas e oportunas” .
Manda a verdade que se diga que só em parte é que estas providências foram imediatas, já que no caso paradigmático do rombo da doca a sua demorada reconstrução – que a colocou em risco de completa destruição – mostra a inépcia e o desinteresse do poder central que contou com a conivência silenciosa das autoridades locais, quase sempre bem acolitadas pelos jornais faialenses, temerosos da censura prévia e das consequências que adviriam se ultrapassassem os estreitos limites que ela permitia. Vivia-se então em pleno Estado Novo, havendo o controlo governamental dos meios de comunicação social que, coagidos pela lei censória ou por opção própria, não inseriam notícias contrárias ao poder político e, mesmo nos artigos de opinião, raramente se aventuravam em ultrapassar o que lhes era consentido.
Neste caso da reparação do rombo da doca da Horta que, pela sua gravidade, devia ter sido prioritária e não foi, constatamos que os jornais locais não se fizeram arautos dessa justíssima reivindicação, com uma honrosa excepção. Surgiu ela no diário “O Telégrafo” em artigos de opinião subscritos por Rui Barbo e Zé da Horta, pseudónimos do farmacêutico Domingos Homem Garcia Jr., os quais constituíram verdadeiras pedradas no charco do medo e da apatia. Assim, em 19 de Fevereiro de 1947, recordava ele que fora já “no 4 de Outubro do ano findo que um grande ciclone causou enormes prejuízos em todas as ilhas” e que “pela primeira vez sofreu a nossa doca alarmantes rombos, portas abertas para uma destruição parcial que custará mais ao Estado do que o total do dispêndio havido com toda a obra – uns milhares de contos, se uma criminosa indiferença continuar votada a uma reparação que é urgentíssima, pois no estado em que se encontra não são precisos grandes mares para completarem a obra iniciada pelo ciclone” . Uns dias decorridos, e como que em resposta a este justíssimo alerta inserido na crítica demolidora daquele articulista, o mesmo jornal informava que no Plano de Obras para 1947 da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos estavam previstas importantes dotações para o distrito da Horta, realçando a mais elevada que era a verba de 3.500 contos para trabalhos no porto e muralha de defesa da cidade. Este anúncio não fez, porém, calar aos que temiam pela segurança da doca e deles se fez eco, mais uma vez, o incómodo e corajoso Zé da Horta que, ainda nesse mês de Fevereiro, após relembrar que o desastre acontecera há cinco meses, e, porque nada de fazia, questionava “qual era a reacção dos organismos locais?” Teve como resposta um processo-crime que lhe moveu o director de Obras Públicas, facto que o levou a publicar uma “declaração” em que diz ser, “para os devidos efeitos, o autor de todos os artigos firmados com os pseudónimos Rui Barbo e Zé da Horta, assumindo deles inteira responsabilidade” . Apesar do intimidatório processo em tribunal, Domingos Garcia não se calou e o director do periódico lá foi publicando as suas opiniões, entremeadas com notícias que só pelos títulos nos dão a ideia do equilibrismo a que se via forçado. Este, da edição de 22 de Abril de 1947, é exemplar: “Continua a ser notável a acção do Governador do Distrito da Horta” que em Lisboa insistia junto do poder central pelas indispensáveis obras no porto e na prometida avenida marginal, “cujo projecto estava quase concluído”! A realidade, contudo, não se compadecia com meras palavras que, obviamente, nada concretizavam. O atraso nas obras de reconstrução do porto era de tal ordem que, em Setembro, o persistente Zé da Horta voltava à carga lembrando que o Inverno vinha a caminho e a “nossa doca, que é a nossa principal regalia, para ali está no mesmíssimo estado em que a deixou o grande ciclone de 4 de Outubro de 1946!” Em Novembro foi notícia a aprovação do projecto de reparação da doca e em Dezembro aconteceu o que se temia, isto é, “a doca rasgou ameaçando a cidade” o que levou Rui Barbo a escrever que ela “estava a esboroar-se, pedra atrás de pedra, com o vulgar mar bravio que há dias corre …. E o Inverno ainda vem a caminho!” . Uma “Nota Oficiosa” do governador Mascarenhas Gaivão divulgada três dias depois, respondia a este dramático alerta e procurava sossegar a população garantindo que “os estragos causados na doca”, pelos últimos temporais, “não afectam a segurança da cidade” e que “o molhe da doca resiste e resistirá”. Só no início de 1948 é que surgiu a boa nova da próxima chegada do engenheiro Ângelo Corbal que vinha “tratar da reparação da doca” . Era, na verdade, “o homem certo para o lugar certo” como certeiramente assinalou Rui Barbo, pois tratava-se de “pessoa invulgarmente dinâmica e sabedora” que por cá “deixara obra” quando exercera o cargo de director das Obras Públicas. Veio como delegado especial da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos, orientou os indispensáveis trabalhos de reconstrução da doca, que assim se salvou de uma derrocada eminente e, porventura, fatal.











