Muitos foram – e ainda são – os membros desta família com profundas raízes nas ilhas Faial e Pico, que se destacaram na vida das comunidades a que pertenceram ou que ainda integram. Já aqui ficaram registados os esboços biográficos de alguns considerados mais relevantes no domínio das artes e das letras, precisamente o padre José Leal Furtado (barítono de grande valor), o frade egresso João José Furtado (músico distinto, organista e mestre da capela da Matriz da Horta), José Cândido Bettencourt Furtado (exímio pianista e director de orquestra), Henrique de Sousa Furtado (organista da Matriz, fundador e membro da orquestra João de Deus), D. Silvina Furtado de Sousa, (poetisa, contista, pianista, pintora, amadora teatral e pedagoga) e Marcelino de Almeida Lima (historiador, romancista, genealogista, jornalista, amador teatral e conferencista).
Terminamos estas abordagens com Heitor de Sousa Pimentel, outro Furtado que se notabilizou na arte musical, nomeadamente nos Estados Unidos, país que o acolheu e onde viria a falecer.
Filho de Cândido Maria de Sousa, distinto amador teatral que atingiu lugar cimeiro na dramaturgia faialense da segunda metade do século XIX e de D. Virgínia Adelaide de Sousa – filha de João José Furtado e irmã de José Cândido Bettencourt Furtado e de Henrique de Sousa Furtado – Heitor de Sousa Pimentel nasceu na freguesia Matriz da Horta a 27 de Abril de 1879, sendo baptizado na igreja paroquial a 16 de Julho do mesmo ano. Era irmão de D. Silvina Furtado de Sousa, a celebrada Iracema (19.1.1973 -6.9.1973) e de Asdrúbal de Sousa (nascido a 7.4.1881 e provavelmente falecido no Brasil). Como já aqui assinalei , a vida desta família tem a marca do mistério e do sofrimento, um e outro ciosamente guardados pela família e pelos amigos mais próximos. Consegui averiguar que em 1882 se deu a separação do casal e, com ela, a da própria família. Enquanto Cândido Maria de Sousa foi, nesse ano, viver para Lisboa levando consigo a filha, a mulher ficou na Horta residindo na rua de Jesus com os dois filhos Heitor e Asdrúbal e ainda com o sogro José Maria de Sousa, de 78 anos e o enteado Virgílio de 12 anos. É isto que consta do Rol de Confessados da Matriz de 1883, ano em que D. Virgínia Adelaide de Sousa obteve passaporte para o Brasil, país onde chegou a 24 de Outubro, desembarcando no Rio de Janeiro apenas com seu filho Asdrúbal, tendo viajado desde Lisboa no paquete francês “Equateur”. Em apenas um ano – 1882/1883 – a família Furtado de Sousa desfez-se. Em Lisboa ficaram Cândido M. Sousa e sua filha; no Brasil radicaram-se D. Virgínia A. Sousa e filhinho Asdrúbal. No Faial, certamente ao cuidado de familiares, ficou o pequeno Heitor de Sousa que pouco tempo depois seria protegido pelo abastado e generoso proprietário António Pimentel da Silveira, que por largo tempo foi presidente da direcção do Asilo da Infância Desvalida e da comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia. Essa protecção fez que Heitor de Sousa – sem jamais renegar a sua família – se considerasse filho adoptivo daquele benemérito cidadão passando inclusivamente a chamar-se Heitor de Sousa Pimentel .
É este o nome que usará toda a vida, desde a sua primeira matrícula no Liceu da Horta em 1894 até à sua morte em 1947. Concluídos os estudos, empregou-se na Caixa Económica Faialense, então propriedade da sociedade Amor da Pátria. Manteve, como se assinalou, sempre estreita relação com os seus familiares – pelo menos com os que não emigraram, pois da mãe e do irmão Asdrúbal apenas saberia que viviam no Brasil – manifestando publicamente esse relacionamento por ocasião da morte do pai Cândido Maria de Sousa ao fazer celebrar uma missa de sufrágio na igreja Matriz “pelo eterno descanso do finado” e firmando pela vida fora uma estreita ligação à irmã D. Silvina Furtado de Sousa que o recordava permanentemente, tendo sido uma das suas professoras de música, tornando-o exímio executante de piano e de contrabaixo. Foi, como outros membros desta família, um distinto artista; foi elemento destacado de várias orquestras e filarmónicas, havendo registo de haver integrado em 1918 a conceituada “Unânime Praiense” .
Entretanto, constituíra família em 27 de Abril de 1903, ao casar na igreja Matriz com D. Leontina Albertina Franco, de 23 anos de idade, filha do proprietário João Maria da Silva Franco e de D. Maria da Glória da Silva Franco. Foram pais destes seis filhos: Teresa (nascida 11.4.1904), António (n. 10.7.1905), Adelaide (n. 28.10.1906), Frederico (n. 27.7.1908), Asdrúbal (n. 28.12.1910) e Heitor de Sousa Pimentel Jr. (n. 10.3.1919).
À excepção de António que apenas viveu dois meses (f. 24.9.1905), os outros emigraram para os Estados Unidos com os pais em 1921 e lá estudaram, trabalharam e constituíram famílias, das quais, ainda hoje, existe descendência.
Antes, porém, da última saída para o Novo Mundo, já Heitor de Sousa Pimentel havia vivido em dois períodos distintos naquele país. A sua primeira experiência americana ocorreu em 1909, quando foi de visita a seus cunhados que residiam na Califórnia. Apesar de contar 30 anos de idade, de ser casado e pai de quatro filhos era ainda “soldado reservista” pertencendo “ao terceiro batalhão de regimento de caçadores número dez” sendo “dispensado do serviço militar activo e de primeira reserva” para “servir de amparo”, a sua irmã D. Silvina Furtado de Sousa, pelo que esta teve de conceder-lhe a indispensável autorização numa “escritura notarial de consentimento, obrigação e fiança” para que lhe fosse concedido o necessário passaporte. Regressado ainda em 1909, voltou ao seu emprego na Caixa Económica Faialense e à actividade musical, embora por pouco tempo, pois em 7 de Março de 1912 embarcou no paquete “Roma” para a América do Norte, deixando “o emprego na Caixa Económica Faialense” . Não se concretizou o declarado objectivo de ali “fixar residência definitiva”, uma vez que, três anos depois, Heitor de Sousa Pimentel já está na Horta, é empregado na Caixa de Crédito Distrital e é um dos elementos da orquestra que abrilhanta o sarau músico-dramático que, a 17 de Março de 1915, decorreu no Teatro Faialense promovido “pelas professoras de canto e piano D. Lídia Correia de Bettencourt Furtado e D. Silvina Furtado de Sousa” , respectivamente sua prima e sua irmã. E a orquestra de que fazia parte integrava ainda o seu tio Henrique de Sousa Furtado, além destes conhecidos músicos: maestro Symaria, Alfredo S. da Silva, Jaime Mesquita, José Goulart Cardoso, José M. de Simas, José S. Furtado, Luís Proença de Pina Coelho, Manuel de Almeida, Manuel Dutra Jr. e Manuel J. Norte. Além da actividade profissional e artística – membro de orquestras e de filarmónica – Heitor de Sousa Pimentel faz parte da direcção do Grémio Literário Artista Faialense em 1915 e 1916 , e é vereador da Câmara Municipal da Horta em 1917 .
As possíveis dificuldades financeiras, a circunstância do falecimento do seu sogro em Janeiro de 1921, o desejo de propiciar um futuro melhor aos seus cinco filhos, ou ainda o espírito de aventura próprio da Família Furtado, certamente que foram, isoladamente ou em conjunto, razões que determinaram a emigração, agora sim definitiva, de Heitor de Sousa Pimentel, de sua mulher e dos seus cinco filhos para a grande nação americana. Com data de 30 de Março de 1921, fez publicar nos jornais faialenses O Telégrafo e A Democracia a seguinte despedida: “Heitor de Sousa Pimentel e família retirando-se para os Estados Unidos da América do Norte onde vão fixar residência, servem-se deste meio para se despedirem de todos o seus parentes e amigos, de quem por acaso não o tenham feito pessoalmente, oferecendo os seus préstimos na cidade de Newport, R. I.” No seu noticiário de 1 de Abril de 1921 O Telégrafo regista que “com sua exma. família seguiu para a América do Norte o sr. Heitor de Sousa Pimentel, um dos bons rapazes da nossa primeira sociedade. Que seja muito feliz”. E, embora sejam naturalmente escassas as informações do que foi a vida desta família em terras do Novo Mundo, pode presumir-se que ela realizou à sua maneira o desejado “sonho americano”, a começar no próprio Heitor de Sousa Pimentel que se dedicou inteiramente à sua paixão musical. Quando faleceu em Abril de 1947, um artigo inserto em diário faialense corrobora esta afirmação. Lá se escreve que Heitor de Sousa Pimentel, “um faialense simpático, com um porte distinto, pessoa que passou nesta nossa terra com um sorriso acolhedor para quantos o rodeavam”, apesar de ausente há 26 anos, não fora esquecido. Ele que “foi empregado da Caixa Económica da Sociedade Amor da Pátria, (…) foi um artista no instrumento a que se dedicou e, caso curioso, depois de abalar desta sua e nossa terra para os Estados Unidos da América, aonde veio a falecer há pouco, foi a música o seu principal meio de vida. Lá se impôs como contrabaixista fazendo “parte da Orquestra Sinfónica de Boston, lugar que não ocupa qualquer músico (…)”.











