Início Artigos de opinião Fernando Faria Retalhos da nossa história – CLXVII – Professor Júlio Dutra de Andrade

Retalhos da nossa história – CLXVII – Professor Júlio Dutra de Andrade

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Diplomado na Escola do Ensino Normal da Horta com a alta classificação de 17 valores, Júlio Dutra de Andrade foi um cidadão que se distinguiu, não só como professor, mas também como jornalista, escritor, dramaturgo, musicólogo e desportista. Nasceu na Matriz da Horta a 30 de janeiro de 1896, filho de José Dutra de Andrade e de Águeda do Coração de Jesus e concluiu o curso de professor do ensino primário em 1915. Estudara no Liceu da Horta de 1908 a 1912 e na Escola Normal de 1912 a 1915 

Foram 16 os jovens de ambos os sexos que em 1915 completaram o curso do ensino normal, alguns dos quais se destacaram ao serviço das comunidades onde foram colocados como docentes. Além do professor António Pinheiro de Faria, já aqui referenciado, naquele ano ficaram aprovados para a docência: D. Georgina Gouveia, D. Amélia Nunes de Morais, D. Cecília Ávila de Melo, D. Clotilde Cândida Pereira, D. Genuína de la Cerda, D. Gertrudes Madruga, D. Antonieta Cananas, D. Maria Amélia de Matos, D. Elisa Berta de Serpa, D. Maria José de Sousa, D. Maria Esménia Lopes, D. Maria de Lourdes, Rui de Mendonça, Júlio Andrade e Laurino Pacheco da Ponte.

Tendo concluído o curso a 15 de junho, Júlio Andrade foi nomeado, a 23 de julho, pela comissão administrativa da Câmara Municipal da Madalena professor interino da escola do sexo masculino da freguesia da Criação Velha, tendo “principiado os exercícios escolares” no dia imediato1. Pouco tempo decorrido conseguia a transferência para o Faial, aqui exercendo o seu múnus profissional em várias escolas, sobretudo nas de Lombega e Pedro Miguel. Era professor naquela localidade de Castelo Branco quando casou, a 3 de setembro de 1919, na paróquia da Conceição, com D. Adelaide Albertina Brum, professora no Norte Pequeno, diplomada em 1916 com a classificação de 18 valores. Mais tarde o casal Andrade transferiu-se para Pedro Miguel e ali ensinou as primeiras letras a centenas de crianças, arrancando-as às trevas da ignorância e nelas deixando marcados os traços essenciais da sua personalidade. 

O professor Júlio Andrade foi também poeta, dramaturgo, jornalista, etnógrafo e desportista. Da sua obra póstuma “Anoitecer”, editada pela família em 1978, recolhemos os títulos das suas publicações, algumas delas esgotadas:

– Poesia: “Miragens” (1917); “Fumos” (1919); “Os Açores” (1941); “Cartas do meu sentir” (1950); “Cancioneiro da Ilha do Faial” (1954); Limite (1969) e “Anoitecer” (1978).

– Prosa: “Esboços” (1919); “A Chamarrita” (1957); “Bailhos, Rodas e Cantorias” (1960) e “O Último Carrasco Açoriano” (1969).

 – Jornais: Fundador de “O Álbum” (1920) com Manuel Silos e de “A Horta Desportiva” (1931) com o Dr. Agostinho da Silva e Engenheiro técnico António Belisário da Fonseca Vieira.

– Teatro: “Atribulações de um criado” (1920) – representado na Fanfarrinha, Angra); “Campestres” (1931) – Teatro Faialense, Velas e Vila Franca do Campo; “O Moleiro” (1937) – Teatro Faialense; “Má – Língua” (1931) – Teatro Faialense; “Na Terra da Coisa Rara” (1939) – no Sporting Club da Horta; e “Reviver” (1940) – Teatro Faialense.

Como assinala o Dr. José da Silva Peixoto no prefácio de “Anoitecer”, Júlio Andrade, “pela temática da sua obra que abarca os mais variados géneros e atingiu cerca de vinte títulos diferentes, pelo seu Amor à Ilha do seu nascimento, ao longo de uma vida que Deus acrescentou, bem merece a perdurável homenagem e a gratidão dos seus contemporâneos, que não o poderão esquecer”.

Escritor de teatro, companheiro do professor António Pinheiro de Faria, integrou o grupo que sucedeu ao inesquecível António Baptista falecido em 1927. Se o teatro no Faial não teve solução de continuidade com o desaparecimento de Baptista, tal facto deve-se a “alguns alimentadores do fogo sagrado” que “se moveram num grupo rejuvenescido, trazendo à frente três novos laboriosos de mérito e convição – Amílcar Goulart, Constantino do Amaral e Júlio Dutra de Andrade”2 a que mais tarde se ligaria o Dr. José da Silva Peixoto. Foram estes quatro autores que juntaram ao seu redor nos diversos grupos dramáticos faialenses um conjunto notável de amadores teatrais de comprovados méritos. 

Mas, multifacetado como era, o professor Júlio Andrade foi também músico de relevo, tendo composto a partitura das suas peças musicadas e dirigido durante anos, até sair do Faial, a Capela da Matriz da Horta, além de ter sido, em 1937, regente e tocador da filarmónica “Unânime Praiense”, anos depois de ter fundado e dirigido a filarmónica de Santo Amaro (1925-1928). 

Ouando jovem foi ainda desportista de nomeada, distinguindo-se na prática de diversas modalidades como o futebol, o atletismo, o remo, a natação, o ténis e o hóquei em campo. Sempre em representação do Fayal Sport Club, evidenciou-se no futebol pela velocidade, técnica e garra que empregava nos jogos que disputava, sendo, porventura, mais importantes os três que em junho de 1922 opuseram o clube verde ao categorizado Casa Pia Atlético Club, então vice-campeão nacional. No cômputo desses jogos, presenciados por milhares de espetadores e abrilhantados pelas filarmónicas Artista Faialense e União Faialense, o Casa Pia venceu dois (2-0 e 4-1) e empatou o último a zero. Marcou seis golos e sofreu um, sendo este da autoria de Júlio Andrade. Para a época foi um grande feito, assim relatado por um espetador: “Júlio Andrade apodera-se da bola, foge pela esquerda numa corrida vertiginosa, e, sempre em linha recta sem se desviar de ninguém, passa além das defesas do Casa Pia, e com um pontapé soberbo, cola a bola às redes casapianas. A assistência, de pé, eletrizada, delira de entusiasmo, e até que a bola volte ao centro, as palmas parece não ter fim”3. Essa dedicação pelo desporto levou Júlio Andrade ao desempenho de cargos de realce no hierarquia desportiva, tendo exercido os cargos de presidente da direcção do Fayal Sport e da Associação de Futebol da Horta e sido fundador, administrador e diretor do jornal “A Horta Desportiva”. 

 Imperiosas razões familiares, designadamente o estudo das suas duas filhas, professoras D. Marília Brum Andrade Tavares e D. Edila Brum Andrade Gaitonde, forçaram-no a sair para Lisboa em 1943, onde residiu até ao fim dos seus dias. Mesmo distante – é o que afiança o seu amigo Silva Peixoto – “viveu corroído de saudades” e “nem um só dia deixou de pensar na sua Terra onde decorrera a sua juventude e mocidade”4. Certamente para amenizar essa nostalgia, aceitou ser durante vários anos o representante da Associação de Futebol da Horta junto da Federação Portuguesa de Futebol e era de lá que enviava frequente colaboração para os jornais da sua amada ilha, que, de vez em quando, visitava num “matar de saudades” jamais conseguido. Ela, que lá, em Lisboa, a recordava assim: “Faial!, ilha começo, onde acordado / todas as noites me deito / berço de pinho barato, / do mesmo pinho importado / de que o meu barco à partida, / há-de ser feito./ Aqui, saudades sem fundo calando/ no meu querer de sempre ir, / caminhar, / partir / e sempre ficar…/ Até quando?”

Após a sua morte, ocorrida em Lisboa a 23 de fevereiro de 1978, muitos foram os testemunhos e as homenagens que recordaram o Homem e a sua Obra. Uns e outras estão registados na imprensa, nas atas dos vários organismos que assinalaram o pesar do seu falecimento – Câmara Municipal       da Horta, Associação de Futebol e Fayal Sport Club – e na lápide que, desde 26 de agosto de 1978, dá o nome do professor Júlio Andrade à rua que vai  da ermida de Santo Amaro à Volta, freguesia da Conceição, da capital faialense.

 

 

1 AGCH, maço 1915-A, pasta n.º 9 da Câmara Municipal da Madalena

2  Lima, Marcelino – O Teatro na Ilha do Faial, Lisboa 1957, p. 34

3  A Democracia, 30 Junho 1922

 

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