Decorridos 14 anos sobre a sua inauguração, o aeroporto da Horta conhecia já um grande incremento, devido ao substancial acréscimo de utilizadores, ao constante desenvolvimento tecnológico da aviação e ao próprio dinamismo do transporte aéreo. Registando um movimento sempre crescente – dir-se-ia mesmo espetacular em relação aos tímidos estudos de viabilidade que justificaram a sua construção – cedo se verificou que a pista com apenas 1500 metros de comprimento, sem ajudas de aproximação, desadequada iluminação da pista e inexistência de abastecimento de combustíveis impedia voos mais largos que permitissem as desejadas ligações diretas do Faial com Lisboa ou mesmo com outras áreas dos dois lados do Atlântico. E isso foi-se tornando cada vez mais evidente porque a Horta se transformou num importante centro gerador de tráfego aéreo, direcionado não só para os outros três aeroportos da Região, mas também, e sobretudo, para Lisboa e cidades dos Estados Unidos e Canadá. Daí que se tenha desencadeado nos inícios da década de 80 do século XX um movimento no sentido de forçar a TAP e as empresas A.N.A. e Petrogal a criarem as condições para a realização de voos diretos da Horta para Lisboa. Possuo documentação dos anos 1982/1983 que atesta esse infrutífero esforço …
Um princípio de solução para o problema que prejudicava esta zona da Região, surgiu quando a TAP-AIR PORTUGAL adquiriu, em junho de 1983, sete modernos aviões Boeing 737-200 Adv. Estes birreatores, com os seus motores de grande potência, capacidade para 115-130 passageiros, excelentes performances aerodinâmicas e travões aperfeiçoados, permitiam manobrar satisfatoriamente e com bom rendimento em aeroportos de pistas de 1.220 metros. Os pneumáticos de baixa pressão e a capacidade dos aparelhos para rolarem em pistas macadamizadas possibilitavam que eles operassem em qualquer aeroporto mesmo sem pavimentação. Estas e outras características daqueles aviões foram comunicadas na sede da Boeing, aos representantes de todos os órgãos de comunicação social dos Açores e da Madeira que, a convite daquela construtora e da transportadora aérea nacional, se deslocaram a Seattle aquando da entrega daquelas aeronaves. Ao ouvirmos tais declarações, logo se nos firmou a esperança de que poderia estar encontrada a resposta para as desejadas ligações aéreas da Horta com Lisboa.
Essa esperança acentuou-se um pouco mais durante a viagem de regresso aos Açores a bordo de um dos novos aviões – precisamente o que seria batizado com o nome de “Ponta Delgada” no dia 10 de Junho de 1983 no aeroporto de São Miguel – e foi sendo sucessivamente reforçada ao tornar-se uma reivindicação assumida conjuntamente pela imprensa faialense, técnicos aeronáuticos, operadores de viagens e turismo e, mais importante de tudo, pelos responsáveis políticos, designadamente deputados regionais eleitos pelo círculo do Faial, Câmara Municipal e titular da Secretaria dos Transportes e Turismo, Alberto Romão Madruga da Costa. Não era passado um ano e, aproveitando a presença na Horta do presidente da TAP-AIR PORTUGAL, José Gomes Mota, que se fazia acompanhar de dirigentes da mesma empresa encarregados das áreas operacional, comercialização e operações em terra, foi ele confrontado com este requerimento por mim apresentado, poucos dias antes na Assembleia Regional dos Açores, relativo àquela pretensão:
“1. Considerando que é decorrido cerca de um ano sobre a entrada ao serviço da TAP-AIR PORTUGAL dos aviões Boeing 737-200 Adv., adequados à operação em pistas de dimensões mais reduzidas;
2. Considerando o volume de tráfego que se gera no aeroporto da Horta com destino a Lisboa, sobretudo na época alta;
Pergunta-se:
Estará a TAP-AIR PORTUGAL, com a utilização deste tipo de aviões, em condições e disposta em assegurar com a frequência adequada as ligações Lisboa/Horta/Lisboa?”
A esta questão, colocada ao Governo Regional a 21 de maio de 1984, respondeu em 6 de agosto o secretário dos Transportes e Turismo, informando que, “em recente encontro com o presidente do Conselho de Gerência da TAP (…) ficou assente procederem-se aos estudos necessários sobre o assunto”, lembrando que “recentes declarações” daquele gestor “levam a concluir no sentido de se virem a realizar esses voos”. Efetivamente, o presidente da TAP havia afirmado, no decorrer daquela visita, que a transportadora aérea nacional tinha o maior interesse em abrir novas carreiras e que “esta do Faial poderá ser uma delas”. Tudo iria depender, acrescentou, “de um estudo técnico a que se está já a proceder, a fim de se saber se o aeroporto da Horta poderá receber, sem grandes penalizações, os novos aparelhos da TAP-AIR PORTUGAL”1. Caso aquele estudo fosse positivo e uma vez que a Petrogal resolvesse o abastecimento de combustível, as ligações aéreas da Horta com Lisboa passariam da esperança à realidade.
E o certo é que se fizeram os estudos técnicos, se assegurou o abastecimento de combustíveis e tudo se preparou para que a TAP iniciasse a 4 de julho de 1985 os voos regulares entre Lisboa e a Horta.
O acontecimento fez confluir numeroso público para o aeroporto faialense e ocorreu em época de duplo aniversário: 152 anos da cidade da Horta e 40 anos da TAP. O avião utilizado na viagem inaugural foi o Boeing 737-200 Adv “Ponta Delgada”, o mesmo que dois anos antes nos transportara de Seattle até São Miguel com escala em Montreal. Fez o percurso Lisboa/ Horta em duas horas e trinta minutos e, após a aterragem na pista de Castelo Branco, foi saudado com banda de música e palmas da multidão que ali propositadamente se deslocou. Estiveram presentes naquela cerimónia as principais autoridades regionais e autárquicas, designadamente o ministro da República, general Conceição e Silva, os presidentes da Assembleia e do Governo, respetivamente Reis Leite e Mota Amaral, o secretário dos Transportes e Turismo, Tomás Duarte, presidente da Câmara Municipal da Horta, Herberto Dart, bem como uma equipa de dirigentes da TAP, liderada pelo seu presidente Gomes Mota.
Nos dias de hoje, em que uns quantos responsáveis parecem esquecer as lições do passado, têm perfeito cabimento as palavras de Tomás Duarte, no que apelidou de “curta intervenção” que, “por privilégio do cargo e benefício da sorte” (substituíra meses antes Alberto Romão Madruga da Costa) lhe competiu proferir. Classificou aquele acontecimento de “transcendente importância que pela sua projeção, embora marcando indelevelmente o lustre das suas páginas, ultrapassa o âmbito dos anais da terra faialense”, já que não se tratava “apenas de ligar a capital, sem escala intermédia, a uma antiga sede de distrito açoriana”, mas sim de “trazer a Europa para mais perto do nosso arquipélago por uma das suas tradicionais portas de entrada desde os primórdios do povoamento”. Por isso, lembrava ele com toda a propriedade, “nem se deveria falar em voo inaugural Lisboa/Faial porque esse, em boa verdade, já foi efetuado há quase meio século atrás”. Aludia aquele governante à posição cimeira da Horta nos começos da aviação, referindo expressamente os voos dos pioneiros da aeronáutica que nas primeiras décadas do século XX usaram as águas da sua baía como local de amaragem dos aviões e, sobretudo, lembrando que a Horta foi a primeira cidade dos Açores a ser ligada com Lisboa pelas carreiras aéreas regulares da Pan American de 1939 a 1945. Nesse período, em que aquela companhia americana efetuou, com os seus famosos hidroaviões da classe “Clipper”, centenas de voos e transportou milhares de passageiros, a Horta conheceu intensa atividade e o seu nome – também por isso – teve grande projeção mundial. O longo interregno que impediu o Faial e esta zona da Região de ter ligações com o exterior havia terminado em 1971 com a inauguração do aeroporto de Castelo Branco que veio reavivar uma esperança que parecia perdida. E passados exactamente 40 anos da sua existência – tantos quantos tinha a TAP em 4 de julho de 1985 – o Faial voltou a ter voos directos com a capital do Pais. Tudo isso foi possível porque os mais responsáveis souberam colocar, acima dos seus proveitos pessoais ou de grupo, os superiores interesses da comunidade. Valho-me da frase elegante de Tomás Duarte que, para não esquecer ninguém, lembrou “todos os que colaboraram na sua efetivação: pleiteando na Assem-bleia Regional ou reclamando na imprensa, no encaminhamento pelos circuitos do Governo ou na promessa cumprida do presidente da TAP- AIR PORTUGAL”. Com a entrada em funcionamento da linha Lisboa/Horta/Lisboa deu-se, não só um reencontro com o nosso passado, mas constituiu-se “um indispensável vetor de promoção no desenvolvimento equilibrado que se quer nesta Região Autónoma”.2











