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Retalhos da nossa história – CXXXII – Governador Augusto da Silva Carvalho Osório

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A prematura exoneração do Dr. Manuel António Lino determinou que o Ministério de João Franco rapidamente nomeasse um novo governador civil do distrito da Horta. Assim, no dia 13 de Setembro de 1906 eram publicados, no Diário do Governo, dois decretos relativos àquele cargo: um, de exoneração do Dr. Lino, e outro, de nomeação para a chefia do distrito de Augusto da Silva Carvalho Osório, jovem político franquista, irmão do recém-eleito deputado pelo círculo da Horta João da Silva Carvalho Osório, ambos parentes próximos do Presidente do Conselho.

Tendo prestado juramento no Ministério do Reino a 15 de Setembro , o governador Augusto Osório chegou à Horta no dia 28 desse mês, “tomando posse pelas 11 e meia horas com a assistência de grande número de cavalheiros”. Era, como escrevia um jornal local, “mais uma esperança para a nossa terra que bastante desprezada tem sido pelos governos”, já que o novo chefe do distrito, “além de ser um carácter sério, tem a vantagem de manter boas relações com o exmo. presidente de ministros de quem é sobrinho”. Este periódico transcrevia, na mesma edição, um artigo do Correio de Lisboa onde se acentuava que o novo governador vinha “encontrar a política do seu distrito numa situação verdadeiramente difícil e irregular, que lhe será necessário modificar de harmonia com os interesses dos seu partido”, tendo para isso de “proceder com grande prudência e isenção e com superior critério”. Mas, acreditava o anónimo articulista – provavelmente o militar e político Henrique Linhares de Lima – que Augusto Osório saberia resolver “a contento de todos o problema da política do seu novo distrito”, porque conhecendo-o da “escola superior, que cursámos juntos”, tinha em alto apreço, não só a sua amizade, mas, sobretudo, “as suas qualidades de inteligência e de carácter” . 

O acto de posse de Augusto Osório, a que assistiram diversas autoridades e elementos dos partidos regenerador-liberal (franquista) e progressista, teve a particularidade de contar com a especial e significativa presença do Dr. Manuel António Lino que, propositadamente, se deslocou da Terceira ao Faial, tendo, aliás, viajado no mesmo navio que transportou o novo governador e sido o primeiro subscritor do auto de posse do seu sucessor. Este gesto de civismo e delicadeza foi deveras apreciado “por todos os que mais intimamente conheceram o Dr. Lino durante a sua estada aqui como governador do distrito” que o obsequiaram, antes do seu regresso a Angra no dia seguinte, com um jantar de despedida no Fayal-Hotel, tendo nele participado, além do novo chefe do distrito, membros da comissão executiva do partido regenerador-liberal e os representantes daquela formação política na Madalena e nas Lajes do Pico, Dr. João Menezes e Gaspar Vieira das Neves, respectivamente. Nos discursos então proferidos pelo Dr. Lino e por Francisco Pereira Ribeiro Jr. (líder distrital dos regeneradores-liberais) ressalta a apresentação que aquele fez ao “actual governador civil, com palavras laudatórias, dos representantes locais” do partido franquista e “os desejos de feliz administração”  dirigidos ao novo titular da mais elevada magistratura distrital.

Não eram decorridos ainda três meses e um inopinado telegrama do Ministério do Reino, de 6 de Dezembro, convocava o governador para reuniões em Lisboa. Fazendo-se eco da opinião pública, O Telégrafo desse dia avançava com “o pressentimento de que s. ex.ª não voltará à Horta e, portanto, será mais uma esperança perdida, visto que até agora pouco ou nada se tem conseguido em favor do distrito”. Daí a razão por que na véspera da partida – a 13 de Dezembro – o mesmo diário tenha publicado uma extensa Carta Aberta (Em Prol do Distrito) ao Illmo. e Exmo. Governador Civil. Aí se acentua que, apesar do período relativamente curto de administração no distrito, o governador Augusto Osório conseguiu “cativar todos os que tiveram o prazer de apreciar as suas primorosas qualidades de carácter e nobreza de sentimentos”. E, depois da saudação da despedida, surgia a petição “deveras atendível e justa” de vários “melhoramentos que o distrito absolutamente carece” e que eram do conhecimento do governador; a sua recapitulação visava unicamente “avivar desejos íntimos dum povo extremamente dedicado à mãe-pátria, mas também desmedidamente prejudicado pelos descuidos de todos os governos”. Da lista reivindicativa destacam-se “uma draga para limpeza do porto, boias para amarração, subsídio de rendimento dos cabos submarinos, interesses florentinos, (ligações telegráficas e construção de estradas que não existiam), melhoria de navegação para os Açores e aumento de verbas para obras públicas de forma a não sacrificar mais o operário que está já no presente reduzido a trabalhar em semanas alternadas”.  

Não se concretizaram as previsões de que o governador Augusto Osório deixara definitivamente o distrito da Horta, embora a sua ausência se tenha prolongado por mais de seis meses. 

Efectivamente, só a 26 de Junho de 1907 voltou de Lisboa, numa altura em que, após a dissolução das Cortes, João Franco governava em ditadura apoiado pelo rei D. Carlos e já com a oposição dos partidos regenerador, progressista e republicano. Ao contrário da vaga de contestação que ia marcando a vida na capital portuguesa, no pacato distrito da Horta a tranquilidade era completa e, a acreditar na imprensa faialense da época e hoje disponível, o regresso do governador constituiu um momento de exaltação, “conforme à promessa feita aos seus amigos e aos que, em grande número, o consideram e admiram pelo seu fino trato e cavalheirismo, envoltos na grande simpatia que facilmente inspira”. Vinha ele, portanto, “orientado nos grandes princípios de ordem política e administrativa do actual governo, com as mais louváveis intenções e prestante boa vontade a respeito dos variados assuntos da administração que mais directamente vem interessando os povos do distrito”.  Desdobrou-se então em viagens pelas quatro ilhas do distrito – curiosamente em Santa Cruz das Flores, com o “cais de desembarque embandeirado e adornado com arcos de verdura, era aguardado pelos principais vultos políticos de todas facções e muitos curiosos”  que festivamente o acompanharam a casa do médico Dr. José Armas onde se hospedou – e esforçou-se na resolução do problema de desassoreamento do porto da Horta tratando com o ministro das Obras Públicas da aquisição da indispensável draga e conseguindo que este membro do Governo autorizasse a continuação dos trabalhos do porto artificial em vista dos transtornos que adviriam aos operários se voltassem a ser suspensos. 

Na correspondência do Governo Civil da Horta dirigida ao Ministério da Marinha encontram-se vários ofícios, do tempo em que Augusto Osório foi governador, em que são avalizadas várias representações de autarquias do Pico e Flores solicitando que os navios da Empresa Insulana de Navegação escalassem os respectivos portos. Apenas como exemplos as exposições – remetidas com parecer favorável do governador – das Câmaras de Lajes das Flores, de São Roque do Pico e da Madalena ou, mesmo, da Junta de Paróquia de Calheta de Nesquim, todas pedindo que no novo contrato de navegação para os Açores os portos daquelas localidades fossem considerados nos itinerários dos navios daquela empresa .

Entretanto, a nível nacional, a ditadura de João Franco desencadeara, na segunda metade de 1907, sobretudo em Lisboa, uma onda de anarquia que se tornou imparável e que culminou, no fatídico 1 de Fevereiro de 1908, com o assassinato de D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe. Esta tragédia determinou também o fim do franquismo e, naturalmente, levou à imediata exoneração do governador Augusto da Silva Carvalho Osório (decreto de 15 de Fevereiro 1908).

Filho de Maria Josefina da Silva Carvalho e de Augusto Maria Coutinho da Cunha Osório, nasceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1878 e ali faleceu a 28 de Dezembro  de 1940. Casou em 7 de Janeiro de 1905 com Ana Carlota de Serpa Pimentel de Sousa Coutinho. Descendente do grande estadista liberal José da Silva Carvalho, era irmão do deputado pelo círculo plurinominal da Horta, João da Silva Carvalho Osório que também desempenhou as funções de secretário particular do próprio João Franco durante o seu consulado (1906-1908).

 

 

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