Retalhos da nossa história – CXCIII – Maestro Veríssimo dos Santos os seus recitais e a Banda Sinfónica do Faial 1

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Quase ignorado na ilha do Faial onde nasceu – mesmo entre os melómanos e os que se dedicam ao estudo e divulgação do nosso passado – Manuel Veríssimo dos Santos bem merece que o recordemos pela sua extraordinária carreira musical, desenvolvida sobretudo nos Estados Unidos da América.

Nascido na freguesia da Conceição da cidade da Horta em 7 de Abril de 1866, era filho de José António dos Santos e de Maria Clara de Escobar. Não terá frequentado o Liceu da Horta, mas a forma como redigia e assinava o que escrevia indiciam que era possuidor de estudos superiores à instrução elementar. Desconhecemos onde terá iniciado a sua aprendizagem musical, sendo de supor que o fez na filarmónica com sede mais próxima da sua naturalidade, ou seja, na celebrada “Artista Faialense”. Sabemos, porém, que em 1894 era já clarinetista da “Unânime Praiense”, ano em que assumiu pela primeira vez a regência da mesma. Viria a dirigi-la, depois da dissidência que a atingiu no fim de Oitocentos – e a fazer fé nos documentos nela existentes e divulgados por Carlos Lobão1 – nos anos 1910-1912, 1926, 1929-1932. 

Entretanto, Veríssimo dos Santos protagonizou a grande cisão que, também musicalmente, dividiu em duas a freguesia da Praia, ficando, de um lado, os moradores da Lomba e do Chão Frio, e do outro os da parte baixa mais próxima à igreja paroquial. A ruptura, que segundo consta, se deu em Outubro de 1896 logo após a festa de Nossa Senhora do Rosário, originou que aquela localidade passasse a ter duas filarmónicas, já que os dissidentes da “Unânime” criaram a “Recreio Praiense”. De começo, aquela separação provocou sérios atritos e algumas acusações divulgadas na imprensa pelas duas partes. É aí que vamos encontrar o motivo da divisão, mais precisamente num extenso comunicado, de 9 de Novembro de 1899 assinado por Manuel Veríssimo dos Santos, António de Vargas Dias e José Augusto Lopes. Respondendo a uma “Declaração” dos directores da “Unânime”, João Inácio de Sousa, António Goulart Brum e Constantino Magno do Amaral, aqueles afirmam, “em nome da verdade e da justiça” que, “como era do conhecimento público a filarmónica ‘Unânime Praiense’ compunha-se de sócios residentes na Lomba, Chão Frio e Praia e sendo a maioria dos dois primeiros sítios, resolveu arranjar casa para ensaios de forma que o local não se tornasse mais longe a uns do que a outros, o que não foi aceite pelos da Praia, que eram em número de 6 contra os dos primeiros sítios em número de 11”. Esta a razão de haverem surgido “divergências, resolvendo então os referidos 11 retirar-se e formar uma nova filarmónica com a denominação de ‘Recreio Praiense’2, que escolheu para regente Manuel Veríssimo dos Santos.

Este, que também integrara as orquestras faialenses “João de Deus” e “Francisco Xavier Simaria” e regera, além das filarmónicas da Praia do Almoxarife, a “Voz do Operário”, casou a 25 de Janeiro de 1902 com Matilde Leal dos Santos, natural e residente naquela freguesia, filha de Francisco Garcia Leal e de Francisca Rufina Leal e irmã de Feliciano António da Silva Leal, que anos mais tarde viria a ser, no posto de coronel, Delegado Especial do Governo da República e Comandante- Chefe das Forças Armadas nos Açores. 

Em 1905, Veríssimo dos Santos requer e obtém passaporte que lhe permite emigrar para os Estados Unidos. Tinha 39 anos, era comerciante de profissão, e partiu, certamente, com a grande ambição de alargar os seus conhecimentos musicais naquele grande país do Novo Mundo. 

Foi lá que, trabalhando e estudando, realizou o seu “sonho americano”, tornando-se uma celebridade no campo dessa magnífica arte que é a música. Até à década de trinta do século XX, terá vindo uma ou duas vezes a Portugal. Encontrámos, com efeito, processos de passaportes dele e da filha Maria Leal dos Santos, então com 19 anos, datados de 16 de Outubro de 1922, e da esposa Matilde Leal dos Santos, de 25 de Julho de 1925, que atestam a sua visita aos Açores, além do que é assinalado na imprensa faialense aquando da visita que fez a seus pais em Março de 1933. Era, já então, – na opinião da conceituada pianista Silvina Furtado de Sousa – “um hábil professor de música” e um artista “cujas maravilhas de execução e interpretação no seu ingrato instrumento – o clarinete – têm sido fartamente e entusiasticamente apreciadas nos grandes meios civilizados onde a Música, mais do que uma arte é um culto profundo e divinizado”3.  

Decorridos todos esses anos de vivência americana, Veríssimo dos Santos conseguira atingir a culminância na arte musical, mercê de notável talento que desenvolvera nos estudos feitos em Boston, no “New England Conservatary, e em Chicago no “Conn National School of Music” e no “Sherwood Music School”, aperfeiçoando-se na execução do seu instrumento favorito – o clarinete – e também no saxofone, bem como no estudo de Harmonia, Contraponto, Instrumentação e Regência de Banda e Orquestra. 

Após a sua formação, fez, sucessivamente, parte das consagradas “Innes Band” de Nova Iorque e da “Chicago Civic Orchestra”, tendo ainda organizado e regido várias bandas em escolas e liceus dos Estados Unidos, sendo, também, durante a Grande Guerra, regente de uma banda militar. Na última parte da década de trinta, assumiu o cargo de professor do Conservatório de Música de Chicago, realizando, simultaneamente, vários concertos em muitas cidades norte-americanas e, em 1931-32, nos principais centros urbanos do Brasil. 

Tanto nos Estados Unidos como no Brasil, Veríssimo dos Santos notabilizou-se de tal modo que ocupou lugar cimeiro entre os maiores concertistas. Para mais – segundo salienta o especialista Correia Gaudêncio – “sendo, como é, o clarinete um instrumento dificílimo, M. Santos conseguiu, depois dum completo e aturado estudo, atingir aquele ponto em que as dificuldades técnicas e expressivas do clarinete atingem o máximo brilho, tornando-se um concertista para quem já não há segredos”4.  Desse brilhantismo musical dão-nos conta jornais americanos e brasileiros, que são unânimes em acentuar que o clarinete nas mãos de Veríssimo dos Santos parece um instrumento de corda, ou como escreve o jornal brasileiro “Correio do Paraná”,  “ouvindo-se o seu clarinete de olhos fechados, tem-se a impressão que é um violino que soluça”. Conseguia combinar, nos seus recitais, “uma técnica brilhante com uma completa compreensão musical”, de forma que o clarinete nas mãos deste grande músico era “um mimo de arte”5. 

Foi este concertista exímio – já consagrado com uma inquestionável carreira musical no continente americano onde conseguiu “modular aquele ingrato instrumento à inspiração dum génio elevado de forma a conseguir que ele possa traduzir a alma dos grandes compositores”6 – que voltou ao Faial no primeiro trimestre de 1933 e que aqui, e em outras ilhas dos Açores, realizou recitais maravilhosos e conseguiu formar, com os melhores músicos do Faial e do Pico, a Banda Sinfónica Faialense que ensaiou dirigiu em espectáculos memoráveis. 

(Disso dar-se-á notícia, neste semanário, na edição de 20 de Março próximo.)

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Lobão, Carlos – 125 anos/ Sociedade Filarmónica Unânime Praiense, p. 98, Praia do Almoxarife, 2006

2 O Telégrafo, 9 Novembro 1899

3 Idem, 20 Abril 1933

4 Gaudêncio, Manuel Correia – O Telégrafo, 22 Abril 1933

5 Cf. O Telégrafo 3 Abril 1933

6 Correio da Horta, 2 Maio 1933

 

 

 

 

 

 
 

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