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Retalhos da nossa história – CXCIV – Maestro Veríssimo dos Santos os seus concertos e a Banda Sinfónica do Faial 2

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Distinguido como grande concertista pelos seus recitais nos Estados Unidos e no Brasil, o maestro Veríssimo dos Santos chegou à Horta a 30 de Março de 1933 vindo de Lisboa no vapor “Carvalho Araújo”. Conforme declarações prestadas à imprensa faialense, tinha como principal propósito visitar seus pais residentes na Lomba do Pilar. Cedendo, porém, ao convite dos mais destacados amadores musicais – conhecedores dos êxitos que obtivera nas suas mais recentes tournées artísticas no continente americano – logo se disponibilizou para realizar um concerto musical no Teatro Faialense. Teve ele lugar na noite de 4 de Maio e foi cuidadosamente preparado por uma selecta e numerosa comissão organizadora composta de 25 membros, todos ligados à arte musical. Dele faziam parte as  senhoras: Silvina Furtado de Sousa, Maria Whitton Terra da Cunha, Maria Arouca Massano, Maria Olívia Lacerda Goulart da Silva, Lídia Correia Bettencourt Furtado, Matilde Leal dos Santos, Maria Dias Menezes, Armanda Maciel de Azevedo e Castro e Maria Ludovina da Rosa, a que se juntavam estes músicos: Francisco Xavier Symaria, Gustavo Corsépius, Jaime da Terra Mesquita, José Goulart Cardoso, Manuel V. Santos, João Xavier Ramos, Manuel Ventura da Câmara, Alfredo Soares da Silva e Manuel Correia Gaudêncio e os seguintes dirigentes das filarmónicas faialenses: Tomás Goulart da Silva, da “Artista Faialense”, José Goulart de Vargas, da “Lira Feteirense”, José Nunes, da “Euterpe”, Isauro de Oliveira Fraião, da “Unânime Praiense”, José Patrício Garcia, da “Nova Artista Flamenguense”, Artur M. Tavares de Brum, da “Ribeirinhense” e João Pereira Dutra Jr., da “Lira Campesina Cedrense”1. A união de todas estas personalidades era, só por si, a prova da consideração que lhes merecia o maestro Veríssimo dos Santos. E o recital realizado no Teatro Faialense, na 5.ª feira dia 4 de Maio, foi, na verdade, um triunfo retumbante de que alguns dos seus amigos deixaram entusiasmado testemunho nas páginas dos jornais faialenses.

Assim, a consagrada professora de música e exímia pianista Silvina Furtado de Sousa considerou o recital de Veríssimo dos Santos “um verdadeiro serão de arte inesquecível, não só pela maravilhosa execução do Artista como pela escolha da música de que se compunha o seu magnífico programa”. É que, diz ela, “em tudo se nos mostrou Veríssimo dos Santos o músico cultivador da verdadeira Arte, atingindo as culminâncias máximas quer na interpretação impecável das obras dos Mestres, quer na execução primorosa das mais transcendentes dificuldades, quer no som, admirável de suavidade, que faz do clarinete, nas suas mãos, um instrumento de eleição”. Tendo interpretado magistralmente obras de Mozart, Weber, Beethoven e Schreiner, Veríssimo dos Santos revelou-se também compositor executando uma das suas produções: a “Mazurka Caprice”. Para Silvina Furtado de Sousa, no último número do programa – a Fantasia da ópera “Os Puritanos” de Bellini – “impôs-se-nos o Artista por uma técnica perfeita, sem discussão, tão naturalmente revelada, tão singelamente apresentada, que, olhando-o, temos a impressão de que não é ele que ali executa tais dificuldades”. No seu memorável recital – de que Correia Gaudêncio salientou o notável “virtuosismo que só com um trabalho aturadíssimo se consegue” – Veríssimo dos Santos foi acompanhado ao piano por Gustavo Corsépius, tendo a Orquestra Symaria actuado na primeira parte do concerto, sob a sua “batuta electrizante”2 .

Aquela festa marcou “uma data inolvidável nos anais artísticos desta Terra, em que os povos tiveram o prazer de admirar o valor e o brilho dum ilustre conterrâneo”, pois “Manuel Veríssimo dos Santos revelou-se um mestre: como executor primoroso, como compositor inspirado e como regente exímio”3 .

Seria como “regente exímio” que, logo depois, ele organizaria – com a estreita cooperação dos regentes Francisco Xavier Symaria, João Xavier Ramos, Francisco Ferreira da Silva e Manuel Ventura da Câmara – uma especial e inédita banda de música composta dos 30 melhores elementos musicais dos nossos antigos amadores e outros de filarmónicas do Faial e do Pico. Ela acompanhá-lo-ia em mais dois concertos realizados nesse Verão de 1933. O primeiro decorreu na esplanada do Fayal Sport Club em 13 de Julho e o segundo no Teatro Faialense a 1 de Outubro. A estrela destes dois espectáculos foi, naturalmente, Manuel Veríssimo dos Santos, não só pelas peças de clarinete magnificamente interpretadas, mas também pelo seu trabalho de regente-ensaiador da Banda Sinfónica que, sob a sua direcção, executou com mestria várias marchas e as overture ‘Pique Dame’, de Suppé e ‘Barbeiro de Sevilha’, de Rossini, recebendo da numerosa assistência vibrantes e merecidos aplausos. 

Ainda no Verão de 1933, Veríssimo dos Santos fez, com assinalável êxito, uma digressão artística às ilhas de S. Jorge realizando concertos nas Velas e Calheta, em Angra do Heroísmo, e nas Furnas, em Vila Franca e Ponta Delgada da ilha de S. Miguel. 

Ao contrário do que tinha programado e que explicitamente referia no sensibilizado “Agradecimento” que fez publicar, em 7 de Outubro, nos jornais O Telégrafo e Correio da Horta, não voltou para os Estados Unidos. Desse intento o impediu uma lesão cardíaca que o fez regressar ao Faial e que, pouco tempo depois, o vitimou. Faleceu no dia 4 de Dezembro de 1933 na sua residência à Rocha Vermelha, freguesia da Praia do Almoxarife. Tinha 67 anos de idade e deixou viúva Matilde Leal dos Santos e a filha Maria Santos Lima casada com João H. Lima, residentes nos Estados Unidos. 

 

1.º Plano: Eduino de Vargas Oliveira, João Pires Quaresma e Júlio Dutra de Andrade.

2.º Plano: Alfredo Soares, Eduino Bulcão Ávila, Manuel dos Santos Pinheiro Jr., Manuel Mariano dos Santos, Manuel Veríssimo dos Santos, Alberto Ávila de Vargas, Mário Luís Avelar e Rodrigo Ferreira.

3.º Plano: Francisco Xavier Symaria, Francisco Ferreira, Luís Symaria, Silveirinha, Manuel Madruga, José dos Reis, José Bicho, Manuel Dutra, Franklin Dutra e João Xavier Ramos.

4.º Plano: Manuel Ventura da Câmara, José Carreiro, António Pereira, Francisco da Rosa, Tomás Trombas, José Pinheiro, José Luís Mariante, Ricardo Ventura, Mestre Jaime e António das Neves.

(Fotografia e respectiva legenda extraídas de “Francisco Xavier Symaria/In Memoriam”, org. de Carlos Lobão, 1989) 

 

  Correio da Horta, 28 Abril 1933

  O Telégrafo, 8 Maio 1933

  Correio da Horta, 8 Maio 1933

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

 

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