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Retalhos da nossa história – CXLI Cafés da Horta

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Abertos ao público na primeira metade do século XX, existem três cafés na cidade da Horta que ainda hoje desempenham um interessante papel social como espaços de reunião e de intercâmbio de ideias. São, de certo modo e em paralelo com os clubes desportivos e as sociedades culturais e recreativas, locais de tertúlias e pontos de encontro, agora bastante mitigados mercê do individualismo isolacionista provocado pelos mais diversificados meios de comunicação, nomeadamente pela televisão.

 Independentemente da maior ou menor categoria e sem menoscabo de outros estabelecimentos similares, os três cafés que aqui assinalamos são, pela ordem cronológica da sua inauguração, o Sport, o Internacional e o Volga.

O Café Sport, que desde há décadas tem uma notável projecção nacional e internacional, foi fundado em 1918 por Henrique Lourenço Ávila Azevedo (1895-1975) na rua Tenente Valadim, em continuação da “Azorean House”, uma loja de artesanato e de comércio de bebidas que herdara de seu pai Ernesto Lourenço Azevedo (1859-1931). Situada perto do porto, o “Café Sport” de Henrique Azevedo teve um antecessor não só com a mesma designação mas também com idêntica localização. Na verdade, em 19 de Maio de 1913, o negociante José Lourenço Nunes abriu, “na rua do Cais – actual rua Vasco da Gama – o Café Sport que se “achava montado com todo o asseio”, o qual, passado um mês, anunciava que “atendendo ao grande número de frequentadores e achando o seu proprietário poucas acomodações próprias do Sport, ampliou estas, abrindo o salão do primeiro andar”[1]. José Lourenço Nunes era ainda proprietário de um estabelecimento comercial designado “American House”. É provável que este Café Sport, bem como outro de igual nome inaugurado a 25 de Dezembro de 1918 na rua Walter Bensaúde e de que era proprietário Luís Gonzaga Ferreira[2], pouco tempo tenham coexistido com o estabelecimento de Henrique Azevedo. Se não era original a denominação que deu ao Café, ela coadunava-se com o seu espírito desportivo, pois ele foi um dos cabouqueiros do Fayal Sport Club, surgindo como sócio a 10 de Maio de 1909, sendo o número 24, logo a seguir aos 21 jovens que, a 2 de Fevereiro desse ano, fundaram o decano dos clubes desportivos açorianos[3]. Com os seus 15 anos de idade, era ainda estudante do Liceu Nacional da Horta e, à semelhança dos seus colegas que na mesma data se inscreveram no Fayal Sport – casos de José Pessoa de Amorim, Manuel Francisco de Medeiros, Lino Augusto dos Santos, Eduardo Augusto de Lacerda Nunes, Adolfo do Nascimento Silva – foi um desportista eclético, pelo que tem pleno cabimento a designação que deu ao seu Café Sport. Aberto no final da I Guerra Mundial e intimamente ligado à vida do porto da Horta, foi acompanhando o intenso movimento a ele ligado: reabastecimento de navios (carvão, água e géneros), estadia de rebocadores holandeses, das companhias do cabo submarino, dos hidroaviões que em voos intercontinentais amararam na Horta, dos voos regulares da Pan American (1939-1945) e da intensa frequência naval dos Aliados no decurso da II Guerra Mundial. Seria, aliás, em pleno conflito mundial que José Azevedo (1925-2005) – um dos filhos de Henrique Azevedo que já colaborava com o pai – seria apelidado de “Peter” pelo oficial chefe do serviço de munições e manutenção do navio “Lusitânia II” por o achar muito parecido com seu filho de igual nome que havia deixado na Inglaterra. Foi com este apelido que José Azevedo passou a ser, para nacionais e estrangeiros, o “Peter”, que ainda hoje é marca registada daquele estabelecimento que, com ele, passa a ser o “Peter – Café Sport”, mantendo sempre algumas características que o distinguem e individualizam: o típico gin tónico, o mobiliário e a decoração com motivos náuticos e a famosa águia americana como símbolo. Desde o começo da década de 60 do século XX, deu-se um acréscimo significativo da chegada de iates de recreio que, por serem normalmente de pequenas dimensões, o povo apelidava de “aventureiros”. Sempre bem recebidos pelos donos do “Peter-Café Sport”, este espaço comercial passou também a ser, posta-restante, casa de câmbios, agência de informações e, algumas vezes, instituição de solidariedade[4]. Numa intensa relação biunívoca, o porto da Horta afirmava-se como local estratégico na rota do iatismo internacional, ao mesmo tempo que Peter e o Café Sport atingiam uma notoriedade que ultrapassou fronteiras, marcada pela arte de bem acolher os iatistas e de lhes prestar generosa assistência. Em reconhecimento de tudo isto, a Ocean Cruising Club, propõe em 1967, através do seu presidente Humphrey Barton, José Azevedo como sócio e distingue-o ainda mais, em 1981, ao fazê-lo sócio honorário. No fim da década de 70, José Azevedo associou o filho José Henrique Gonçalves Azevedo à gestão do Café. Após marcar assinalável presença na Expo98, em Lisboa, o Peter Café-Sport transforma-se, cada vez mais, numa empresa que se expande para outras localidades açorianas e continentais, mantendo embora o seu núcleo original – Café, Loja Peter de venda de souvenirs quase sempre identificados com o seu valioso logotipo e o notável Museu de Scrimshaw. O homem que foi o verdadeiro rosto do Café-Sport, faleceu em 2005, com 80 anos de idade, e pouco tempo depois a “rua Tenente Valadim” passou a ostentar uma placa com a designação de “rua José Azevedo (Peter)”,assim se homenageando um faialense que projectou estas ilhas pelos quatro cantos do mundo. O prestígio alcançado pelo Café Sport mantém-se e, pela sua fama e actividades, continua a ser um dos melhores meios de promoção turística do Faial e dos Açores.

O Café Internacional, localizado junto à sala de visitas da cidade da Horta que é a Praça do Infante, está aberto ao público desde 31 de Dezembro de 1926. A inauguração deste “bem montado café” foi, naturalmente notícia na imprensa local, que registou a grande concorrência de público e actuação da Orquestra Symaria, dirigida pelo prestigiado maestro e violinista Francisco Xavier Symaria e formada por 12 músicos[5]. Situado nos baixos de um edifício “arte déco” mandado construir por José Furtado Cardoso, agente da Fabre Line, o Café Internacional tem conhecido vários proprietários, destacando-se Joaquim Alves da Silva, Manuel Guerra do Amaral, Francisco Cunha Leite, Manuel Soares de Melo, João Manuel Bettencourt Soares de Melo, António Pimentel e os actuais donos Rosa Noia e Eduardo Duarte. Desde cedo e até à década de 70 do século passado, o Café Internacional teve uma frequência elitista, sendo ponto de encontro dos quadros superiores do funcionalismo, dos bem remunerados empregados das companhias cabográficas, e dos áulicos do poder estabelecido. A este propósito, tem interesse recordar uma breve passagem da carta particular que o Prof. Doutor Marcelo Caetano enviou, a 4 de Julho de 1938, ao ministro do Interior Dr. Mário Pais de Sousa na sequência da visita que fizera aos distritos açorianos a fim de preparar o Estatuto dos Distritos Autónomos das Ilhas Adjacentes. Dizia Marcelo Caetano, após assinalar que havia sido “inexcedivelmente bem recebido” na Horta que era “uma cidade muito pequena, cuja vida se resume a uma só rua (a marginal)” que tinha “pouco comércio, quase nenhuma indústria” e que vivia da navegação (rara na altura) e dos cabos submarinos estrangeiros. “Às 3 da tarde o trabalho cessa; às 4 janta-se; às 4 ½ está-se no café”[ Internacional] (…) “e como todos se vêem constantemente, a todas as horas, e os ócios são longos e estéreis” respirava-se um “ambiente de maledicência, intriga e ódio”. Existiam então na Horta e frequentavam o Café Internacional dois grupos políticos que, dentro da União Nacional, se digladiavam na luta pelo poder: “o do Dr. Neves e o do coronel Melo,  efectivamente chefiado pelo Dr. Freitas Pimentel”[6]. A carta de Marcelo Caetano – de que se reproduz apenas este pequeno excerto – diz bem da importância do Café Internacional, dos seus frequentadores, das suas tertúlias e das suas jogadas políticas. Aliás, ele esteve sempre no centro da vida política faialense e distrital em todo o período do Estado Novo, sendo nele presença diária as autoridades, a começar pelo governador do distrito Dr. António Freitas Pimentel. A par de local de encontro e de tertúlia política e social, o Café Internacional permitia que nele se realizassem contínuos jogos de damas e dominó, custando o “barato” a importância de 50 centavos. Com o progressivo encerramento das companhias de cabos submarinos e com as modificações políticas trazidas com a revolução de 25 de Abril de 1974, o Café Internacional – de alguma forma conotado com o regime deposto – foi perdendo as características que o haviam distinguido na sociedade faialense. Diferente embora, é ainda hoje um espaço aprazível que os actuais proprietários se esforçam por consolidar, tirando proveito da sua magnífica esplanada e do seu restaurante situado no lado oeste do edifício.

O Café Volga, também localizado na Praça do Infante, abriu ao público no dia 26 de Fevereiro de 1944. Era seu proprietário o negociante João Rodrigues da Silveira que, havia sido um futebolista de elevado nível, como avançado-centro de futebol do Fayal Sport Club (1912 a 1925), e treinador do mesmo durante várias épocas na década de trinta. O espaço ocupado pelo Café Volga albergara anteriormente, e durante vários anos, dois importantes títulos da imprensa da ilha: O Fayalense e, depois, A Horta Desportiva. Aberto em plena II Guerra Mundial, aquele estabelecimento apresentava-se “moderno, confortável e bem fornecido” e tinha à disposição dos seus clientes “café, chá, cacau, leite, cerveja, vinhos, licores, tabaco etc.”[7] Os clientes do Café Volga pertenciam a estratos sociais menos abonados, predominando os empregados comerciais e os funcionários públicos, além dos estudantes do Liceu e da Escola do Magistério, todos – ou quase todos – pertencentes ao sexo masculino, já que, se bem me recordo, não era frequentado por senhoras. Em certos períodos do dia eram frequentes os jogos de dominó, de que se tinha de pagar o inevitável “barato”. Só mais tarde, com a chamada Primavera Marcelista e, sobretudo, com a implantação do regime democrático, é que o Café Volga se tornou verdadeiro local de tertúlias políticas, normalmente bastante acaloradas e onde marcavam presença elementos das mais diversas tendências partidárias. Com a implantação do regime autonómico, o Café Volga assumiu um papel ainda mais preponderante, sendo frequentado não só pelos residentes, mas também por muitos dos que em serviço da Assembleia Legislativa ou do Governo Regional se deslocavam à cidade da Horta.

Neste período áureo da sua existência, o Café Volga era propriedade do dinâmico e competente empresário Daniel Bezerra Garcia, um picoense que, como tantos outros, triunfou no Faial, mercê do seu trabalho e da orientação que soube imprimir ao seu negócio, fazendo-se rodear de dedicados empregados.

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Estes três cafés, cada qual com as suas características e não obstante as constantes transformações sociais, económicas e políticas que têm ocorrido, ainda são marcos na paisagem humana e cultural da cidade da Horta.



[1] A Democracia, 25 Maio e 22 Junho 1913

[2] O Telégrafo, 24 Dezembro 1918

[3] Vd. Livro n.º 1 de Sócios do FSC, existente na secretaria do clube

[4] Vd. Pereira, Jorge Costa, Café  Sport, in Enciclopédia Açoriana

[5] A Democracia, 4 Janeiro 1927

[6] ANTT, Ministério do Interior/Gabinete do Ministro, maço 501

[7] Correio da Horta, 3 Março 1944

 

 

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