Início Artigos de opinião Fernando Faria Retalhos da nossa história -CXLIX – Furtados, uma família de artistas (1)

Retalhos da nossa história -CXLIX – Furtados, uma família de artistas (1)

0
71

Os Furtados que se distinguiram na vida cultural faialense como eclesiásticos, músicos, escritores e políticos têm origem na ilha do Pico, precisamente nas freguesias da Piedade e da Prainha do Norte.

Um interessante e inédito estudo genealógico elaborado pelo celebrado investigador Marcelino Lima  – ele próprio descendente daqueles Furtados – aponta Pedro Quaresma Furtado como o possível iniciador desta família. De proveniência e ascendência desconhecida, seria provavelmente “um dos muitos fidalgos escassos de fortuna que procuraram os Açores”, havendo sido capitão de ordenanças na ilha do Pico, residindo na freguesia da Piedade, onde casara com Custódia Vieira, filha do também capitão de ordenanças Baltazar Vieira Fagundes e de Maria Leal.

Da numerosa descendência de Pedro Quaresma Furtado, julgamos de interesse destacar alguns dos seus membros, começando pela figura do padre José Leal Furtado, “ilustradíssimo e talentoso sacerdote” nascido na Prainha do Norte da ilha do Pico em 1766, filho do segundo casamento de João Quaresma Furtado (alferes de milícias) com Joaquina Rosa de Bettencourt. 

Feitos os estudos rudimentares na terra natal, ingressou nos freires franciscanos de São Roque do Pico e de lá passou à então vila da Horta, a fim de “cursar estudos regulares mais completos” no mosteiro carmelita, cujos monges, na maioria da nobreza da Horta, gozavam da fama de eruditos. Frequentou, então, a aula pública de latim ministrada pelo capelão Miranda, aprendeu francês e italiano com o professor de línguas André Rebelo e, no mosteiro, estudou literatura, retórica, filosofia, matemática, música e teologia. Concluídos os necessários estudos, onde mostrara “rara propensão para a música e poesia”, foi ordenado presbítero em 1788 na sede do bispado em Angra, conseguindo ser logo provido, como beneficiado, na Matriz da Horta, cargo que, segundo o testemunho de Ernesto Rebelo, “exerceu com muita dignidade e diligência”. Além do mais, tratava-se de um “cavalheiro de fino trato e delicadíssimas maneiras, sendo muito estimado da sociedade elegante da Horta e frequentando as primeiras casas desta localidade, aonde sempre foi recebido com consideração” . Era, por conseguinte, “homem de notável talento, assaz erudito, com vastos conhecimentos literários, metafísicos e humanistas, uma verdadeira alma de artista, distinguindo-se, sobretudo, na arte da música, qualidades que mais ou menos se propagaram na família”. Desta, e só mencionando alguns dos que nos propomos registar, destacaram-se seu sobrinho João José Furtado, os filhos deste José Cândido Bettencourt Furtado e Henrique de Sousa Furtado e os netos Silvina Furtado de Sousa, Heitor de Sousa Pimentel e Marcelino de Almeida Lima. 

O padre Leal Furtado “possuía uma voz de barítono maravilhosa, em tonalidade e volume, que arrebatava”. Lima considera mesmo que a vida deste seu antepassado “foi toda um enternecedor romance” que descreveu desenvolvidamente no seu livro A Discípula procurando ressuscitar o saber e o talento artístico daquele clérigo, inspirando-se, para tanto, na interessante nota biográfica de Ernesto Rebelo já citada,  e acrescentando-lhe o que por tradição – em especial por informações de família recebidas do avô, da mãe e dos tios – fora agrupando e encadeando, de modo tal que com esses elementos, “enfeixados à luz psicológica retrospectiva, evidente e incontestada” colheu material de sobra “para subtrair à sonolência do passado a pessoa do reverendo” . Inicialmente pensou que o romance histórico que tinha por personagem principal aquela figura ímpar, um raro modelo de sensibilidade artística, de cultura e de virtudes, se chamaria, significativamente, Próximo do Pecado. De facto,  a vida do padre Leal Furtado seria decisivamente marcada por “uma formosíssima donzela da Horta, filha de uma casa que ele muito frequentava”  e por um amor mútuo, puro e impossível, o qual, na imaginativa novela de Marcelino Lima, anda, não raro, próximo da tentação e do pecado! Essa desconhecida donzela, afinal A Discípula, que no romance dá pelo carinhoso diminutivo de Nina, foi inspirada numa das filhas do morgado Joaquim Pereira de Lacerda e de sua mulher Emerenciana Doroteia Brum da Silveira. Como o padre Leal Furtado manteve estreita intimidade com esta família, Marcelino Lima, imaginou Ana Maria Cunha de Lacerda “a figura gentil – gentilíssima, pela formosura do rosto e da alma – a quem ele consagrou por inteiro todos e os melhores merecimentos do seu ser íntimo”, apaixonando-se “com misteriosa reserva, até à loucura, por [essa] criaturinha ideal, toda adejante de virgindade e de espírito” . E, em consonância, com a tradição recolhida e divulgada por Ernesto Rebelo, essa loucura começou a manifestar-se nas cerimónias litúrgicas do funeral da sua discípula prematuramente falecida, quando o padre Leal Furtado teve de cantar com a sua esplendida voz o Dies irae. Aquele primeiro ataque de alienação assinalaria o calvário do resto da sua vida a que poria termo a 19 de Junho de 1823. Antes desse trágico desenlace, revelava neste poema o que era o seu sofrimento e qual seria o seu fim:

Eu conheço a minha mente/ É como um mar agitado,/ É navio naufragado/ N’alguma rocha inclemente./ Ai!… triste de quem se sente/ Em tamanha desventura,/ No caminho da amargura/ Só findará seu tormento,/ Ao cair com passo lento/ Na gelada sepultura.

 

  

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!