Albicastrense ilustre é nome de rua de Lisboa

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Na zona oriental da cidade de Lisboa, mais precisamente na freguesia do Beato, existe um arruamento com a seguinte lápide: “Rua de Silveira Peixoto /Explorador do Panamá /1737-1803”. Trata-se do celebrado bandeirante António da Silveira Peixoto, faialense ilustre que, no século XVIII, deu valiosa colaboração na conquista de extenso território brasileiro e que outro destacado filho desta terra – o historiador António Ferreira de Serpa (1865-1939) – resgatou do esquecimento a que havia sido votado na sua pátria, investigando e divulgando a sua vida e obra. Uma e outra tornaram conhecido aquele explorador faialense quando Ferreira de Serpa publicou em Coimbra, no ano de 1916, “O bandeirante António da Silveira Peixoto, conquistador do Tibaji” livro biográfico com preciosos elementos que Marcelino Lima iria utilizar e relevar nas “Famílias Faialenses” e nos “Anais do Município da Horta”. António da Silveira Peixoto era filho do “capitão Manuel de Ávila Peixoto e sua mulher Margarida Josefa, naturais e fregueses desta paroquial de Santa Catarina de Castelo Branco, desta ilha do Faial, nasceu em os quinze dias do mês de Fevereiro do ano de mil setecentos e trinta e sete”, sendo baptizado na igreja da sua freguesia “pelo reverendo vigário António Nunes do Vale em os vinte e um dias do dito mês e ano” . Com 20 anos de idade – portanto em 1757 – emigrou para a colónia do Brasil, a fim de tentar fortuna. Estabeleceu-se em Curitiba, dedicou-se ao comércio e passados 12 anos era já um homem rico, “dono de uma loja de fazendas, das melhores da terra”. É nessa altura, ou seja em 1769, que tomou o comando da expedição aos sertões de Tibaji, assim se tornando bandeirante. Organizada à sua custa, essa bandeira era composta por duas esquadras e 16 canoas e dela deixou Silveira Peixoto dois roteiros minuciosos que mostram como “singularmente grande é esta figura … calcada nos moldes dos heróis, cujos feitos esmaltam a história de Portugal”. Abandonando “os seus grandes haveres, ei-lo a caminho do sertão, à frente de 100 homens, onde arrosta perigos sem conta: umas vezes os elementos enfurecidos, outras a hostilidade de tribos selvagens e bárbaras e ainda em luta com as feras”, tendo conquistado “em três meses quatrocentas e vinte léguas de terreno que, por este título, se declarou ficarem pertencendo à coroa portuguesa no tratado de paz que posteriormente se celebrou com a Espanha, sem com isso o erário público gastar um só real”. Avançou tanto nos sertões do Tibaji (vasta e opulenta zona da parte ocidental do actual estado Paraná) que, inadvertidamente, chegou a território espanhol, sendo feito prisioneiro em Outubro de 1770 e levado para Buenos Aires onde esteve cativo durante oito anos. Libertado, após a celebração da paz luso-espanhola, “é ainda com o resto da sua fortuna e crédito que conduz por terra, na larga travessia de 180 léguas, 134 portugueses das guarnições da Colónia de Sacramento e de Santa Catarina que se encontravam prisioneiros”. Silveira Peixoto, aventureiro e herói, pôde assim executar, “sem o auxílio pecuniário do Estado, a grandiosa empresa de conquistar imenso território com o qual acrescentava na América os domínios da sua pátria”. Em 1781, veio a Lisboa tendo obtido uma audiência de D. Maria I que lhe concedeu, como prémio dos seus serviços, a carta de brasão de armas e o mandou continuar no mesmo posto de capitão, mas jamais recebeu os soldos a que tinha direito e as mercês da Ordem de Cristo que lhe fora concedida por aquela rainha. Sob proposta do capitão- general de São Paulo, António Manuel de Melo Castro e Mendonça, foi reformado em 1801 no posto de sargento-mor com o soldo de capitão de cavalaria. Faleceu naquela cidade brasileira “aos cinco de Dezembro de mil oitocentos e catorze anos”, deixando como “sua herdeira Antónia de Sousa e sua mãe Josefa Maria de Jesus” e legando, em minucioso testamento de que encarregou o doutor Manuel Joaquim de Ornelas”, a liberdade aos seus escravos António e Perpétua, largos milhares de reis aos clérigos dos conventos (Carmo, São Bento, Santa Teresa e Nossa Senhora da Luz) e igrejas de São Paulo “que diriam missas de corpo presente por sua alma”. Em cumprimento do seu testamento foi “amortalhado no hábito e capa de Nossa Senhora do Carmo, de que era indigno terceiro” sendo “levado a horas mortas até à mesma Igreja onde jaz sepultado”. Foi ainda o historiador Ferreira de Serpa quem denunciou, em artigo publicado no jornal “República” em 5 de Junho de 1932, que “ a comissão administrativa do município de Lisboa” ao decidir “dar aos novos arruamentos os nomes de alguns indivíduos já falecidos e que alguma celebridade tiveram em vida”, acabara por cometer grave injustiça, já que esquecera “dois grandes nomes de portugueses ilustres que tanto se singularizaram pelos relevantíssimos serviços prestados ao país”. Referia-se ele a dois faialenses, precisamente ao bandeirante António da Silveira Peixoto e ao heróico ouvidor de Macau, Miguel de Arriaga Brum da Silveira”. Todavia, essa grave injustiça, seria em parte reposta no ano seguinte, já que em edital de 18 de Julho de 1933 a Câmara Municipal de Lisboa deliberou que António da Silveira Peixoto ficasse perpetuado na toponímia da capital portuguesa. Para além da justeza da pretensão, deu-se a feliz coincidência de ser presidente daquela autarquia o coronel Henrique Linhares de Lima, destacado picoense que, a par de funções militares, exerceu elevados cargos políticos de âmbito nacional, como seja ministro da Agricultura (1929-1932), ministro das Colónias (1932), ministro do Interior (1934-1936) e deputado à Assembleia Nacional pelo distrito da Horta desde 1935 até à sua morte em 1953. Existiriam, por certo, relações amistosas entre ele e Ferreira de Serpa até por que este publicara, em 1931, um opúsculo intitulado “Uma ascendência ilustre / O Sr. Tenente-Coronel Linhares de Lima, ministro da Agricultura, descende, entre outros, do Rico-Homem Dom Egas Henriques Portocarrero” . Foram, por conseguinte, estes dois filhos do distrito da Horta – o historiador e o político – que possibilitaram a homenagem da cidade de Lisboa àquele outro filho do Faial. Pena é que a placa que o imortaliza contenha dois erros: “explorador do Panamá”, quando devia ser “explorador do Paraná” e“1737-1814” em vez de “1737-1803”. De qualquer modo, Lisboa soube distinguir um ilustre português que, na sua terra, permanece esquecido. Ele que é “uma glória e das mais puras da pequena Ilha” e que pelo “patriotismo, abnegação até ao sacrifício e coragem sem limites” o recomendam “à posteridade e à gratidão nacional” . 24-07-2016 (O autor escreve segundo a antiga ortografia) 1 Livro 3 de Baptismos de Castelo Branco, fl. 4-v 2 Serpa, António Ferreira de, O Bandeirante António da Silveira Peixoto, Conquistador do Tibaji”, Coimbra, 1916, p. 43 3 Cf. cópia do registo de óbito de António da Silveira Peixoto – certidão nº 20515 de 16 de Maio de 2003 da Cúria Metropolitana de São Paulo que me foi cedida pelo genealogista faialense Hélder Oliveira. 4 Correio da Horta, 27 Janeiro 1931 5 Serpa, António Ferreira de, ob. cit. p. 44

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