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Retalhos da nossa história – CXLV – Visconde de Borges da Silva

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Se excetuarmos os casos extraordinários do Duque de Ávila e Bolama e do Marquês de Ávila, seu sobrinho, – que desde muito novos fizeram toda a vida em Lisboa – não houve no Faial título nobiliárquico que ultrapassasse o de Visconde.

Um deles foi o Visconde de Borges da Silva, distinção que o rei D. Carlos concedeu ao rico proprietário e capitalista faialense Alfredo Borges da Silva. 

Nascido na Matriz da Horta em 15 de Maio de 1857 era filho de João Borges da Silva, açoriano de Santa Maria que havia feito fortuna no Brasil e de D. Maria Leopoldina Garcia, natural da freguesia dos Flamengos. Em 1869, tinha ele 12 anos, matriculou-se no Liceu da Horta, tendo como colegas alguns jovens que viriam a ser figuras de destaque na cultura, na política e na magistratura, tais como Florêncio José Terra Júnior, Manuel Zerbone Júnior, Francisco Pereira Ribeiro Júnior, Ernesto Garcia do Canto Amaral ou Joaquim Crisóstomo da Silveira Júnior.

Cedo abraçou a vida política, sendo, já em 1887, personalidade de relevo do partido regenerador, acompanhando na comissão política o líder distrital Dr. Manuel de Arriaga Nunes, e representando várias vezes o concelho das Lajes do Pico, vila de onde era natural sua esposa D. Maria de Nazaré Bettencourt Cardoso Machado, filha de Francisco Xavier Bettencourt Cardoso Machado e de D. Genoveva Inácia Bettencourt Machado, “casa vincular, a mais rica e uma das mais nobres da ilha do Pico” .

 Filho único de um dos maiores capitalistas e proprietários do Faial, Alfredo Borges da Silva, casando a 22 de Maio de 1879 com uma rica herdeira picoense, aumentou em muito a sua fortuna o que lhe conferiu grande poder político e social. Ocupou diversos cargos partidários, dirigiu instituições de solidariedade social (v.g. Santa Casa da Misericórdia e Asilo da Mendicidade da Horta) e exerceu, por diversas vezes e em períodos dilatados, o cargo de juiz da comarca da Horta por ser o primeiro substituto e devido à ausência do titular. 

Amigo e correspondente de António José de Ávila Júnior (Conde e Marquês de Ávila), Borges da Silva alude em algumas das suas cartas à situação da magistratura judicial na Horta e não o faz desinteressadamente. Assim, em 13 de Abril de 1895, declara que “continua o juiz a manifestar-se faccioso e como o pai lhe morreu está ansioso para ir ao Continente”, o que “era boa ocasião para o ilustre ministro da Justiça o transferir para qualquer comarca do reino” . Claro está que sendo mudado o juiz – o que, no caso, aconteceu no fim daquele mês – o primeiro substituto tornar-se-ia efectivo, auferindo vencimento igual ao titular. Ora, como já se apontou, esse substituto era exactamente Alfredo Borges da Silva que anteriormente exercera essas funções em 1890, 1893 e 1894 e que, mesmo mudando de cor partidária, não deixaria de ocupar aquele cargo em diversas ocasiões até à proclamação da República. É provável que esta frequência no exercício da magistratura judicial tenha levado alguns historiadores a escreverem – julgo que erradamente – que ele possuía o grau de bacharel em direito pela Universidade de Coimbra. Isso, porém, não impediu que desempenhasse elevados cargos na vida judicial e também na política, sendo inclusivamente presidente da comissão distrital (1893-1895) e governador civil substituto em 1905. Era então membro do partido progressista, integrando a respectiva comissão política distrital, e ostentava desde 5 de Novembro de 1896 o título de Visconde de Borges da Silva, e, a partir de 15 de Julho de 1901, o de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, mercês que lhe foram concedidas por D. Carlos, na vigência de ministérios regeneradores de Hintze Ribeiro. 

Progressista de fresca data em 1905, o Visconde de Borges da Silva foi nomeado governador civil substituto do distrito e, até à chegada do Dr. Francisco de Andrade Albuquerque, titular do cargo e também designado em Julho daquele ano, assumiu interinamente, mas em plenitude, as funções de primeiro magistrado distrital. Nessa qualidade recebeu, na “sua vivenda dos Flamengos”, onde veraneava, os cumprimentos “de muitas pessoas, pela sua ascensão ao alto cargo de chefe do distrito” . Não terá sido, todavia, muito feliz o seu breve mandato, a fazer fé nos artigos demolidores do brilhante jornalista António Baptista publicados no diário O Telégrafo que, sob o título genérico Pro Pudor, verberava o seu mau desempenho, sobretudo na epidemia de varíola (as “bexigas de mau carácter”) e na infeliz e pindérica recepção à poderosa esquadra britânica comandada pelo almirante Henry May. Por este excerto de um daqueles escritos, inserto na edição de 26 de Agosto, se vê como Baptista caustica os erros do Visconde de Borges da Silva: (…) ”Senhor governador civil, devemos-lhe o fiasco, a vergonha que pesa sobre nós todos, faialenses; humilhou a nossa terra … humilhou-nos a nós todos; como jornalista, desembaraçado de peias partidárias, abertamente o acuso e condeno, sentindo de todo o coração que me não tivesse dado ensejo de mais uma vez o aplaudir e elogiar, o que bastante desejava e bastas vezes tenho feito como amigo sincero e desinteressado”.

Partidariamente, o fervoroso regenerador Borges da Silva que tanto investiu em vários actos eleitorais não só no Faial mas em todas as freguesias do concelho das Lajes do Pico e de que são exuberantes testemunhos as cartas que trocou com o seu amigo António José de Ávila Júnior (2.º Conde e 2.º Marquês de Ávila), deve ter começado a desiludir-se quando o Dr. António Emílio Severino de Avelar foi colocado na liderança dos regeneradores distritais em 1895, ele que os havia combatido poucos anos antes. Além da fluidez ideológica e dos interesses pessoais, havia certamente agravos que não cicatrizavam … Já em carta de 29 de Junho de 1898 criticava abertamente o Dr. Avelar e o genro deste Visconde Leite Perry: “ o Perry é muito fraco advogado, tanto que foi o nosso amigo António de Simas [Machado e Melo] que fez o recurso, mas precisava-se de mais documentos e falou-se nisso ao Perry, até hoje nunca atou nem desatou”. E quanto ao “ Dr. Avelar, que não tem reunido a comissão executiva do partido o que já deveria ter feito para dar um cavaco aos seus membros,”… “se quisesse tinha mandado participar em juízo os embarques clandestinos, que envolviam o governador civil [que era Miguel António da Silveira, líder distrital dos progressistas] não o fez por conveniência sua, e não do partido; é homem que só cura dos seus interesses”. Se “fosse leal, se procedesse correctamente com os seus correligionários, não dava lugar a que continuassem a suspeitar da sua volubilidade”.  

Poderão ter sido estas desinteligências com a liderança do Dr. Avelar, aliadas a ambições não satisfeitas, que originaram as mudanças partidárias, não só do Visconde de Borges da Silva, mas também de outros destacados regeneradores como Vitoriano da Rosa Martins (Barão da Ribeirinha), José da Rosa Martins, Domingos Pereira Campos, Francisco Pereira Ribeiro Júnior, Jaime Soares de Melo, José de Lacerda Azevedo e Francisco Pamplona Corte Real, integrando todos eles, em Abril de 1910, a comissão executiva do partido progressista do distrito da Horta, então liderada por Miguel da Silveira, filho e sucessor do já falecido Miguel António da Silveira. Nesta altura, à semelhança do que acontecia por todo o país, as lutas partidárias eram dilacerantes, opondo de forma brutal os dirigentes progressistas aos regeneradores, estes ainda sob o comando do Dr. Avelar, bem acompanhado pelo genro Visconde de Leite Perry, e, sobretudo pelo poderoso Dr. Manuel Francisco Neves, médico conceituado e político controverso.

O Visconde de Borges da Silva, não obstante a mudança partidária, manteve-se sempre firme e leal amigo do Marquês de Ávila até à morte deste em 1917. Um ano depois ficaria viúvo e, nesse estado, faleceu a 30 de Julho de 1924. Teve apenas um filho, nascido na Matriz a 14 de Setembro de 1886: Alonso de Bettencourt Cardoso Machado de Borges da Silva que, apesar dos dissabores que lhe deu, acabou por ser o seu único herdeiro, conforme determinou em testamento de 7 de Janeiro de 1922. Este filho, que era adido na embaixada de Portugal em Madrid, depois de o ter sido na do Rio de Janeiro, faleceu no Hotel Borges, em Lisboa, em 19 de Dezembro de 1932. Casara três vezes e do seu testamento, lavrado nesse dia, transcrevem-se estas duas curiosas passagens: “Quero que por minha alma, pedindo perdão a Deus para os meus pecados e maus exemplos que dei, sejam rezadas cem missas no altar de Nossa Senhora do Rosário, minha Madrinha”, e também: “Nada lego à minha terra natal, ilha do Faial, para retribuir as ‘gentilezas’ recebidas da maioria dos meus patrícios, e ainda por nada merecer uma população que se deixou cavalgar por um bandido que dá pelo nome de Manuel Francisco das Neves Júnior” .

Apesar da extravagância e da violência desta expressão, a sua animosidade para com o Dr. Neves seguia a que seu pai havia dedicado àquele médico!

 

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