Doutor em Medicina pela Faculdade de Paris, graduado em 19 de Abril de 1836 e confirmado em Lisboa a 7 de Junho desse mesmo ano, o médico André António Avelino foi um faialense que bastante se distinguiu.
Nascido na freguesia Matriz da cidade da Horta em 24 de Outubro de 1808, era filho de André António Avelino, de São Mateus, ilha do Pico, e de Rosa Luísa, natural da “Senhora da Luz da Ribeira dos Flamengos” e foi baptizado no dia três de Novembro, tendo por padrinho o “Reverendo Doutor Ouvidor Maurício António de Andrade” e por madrinha “D. Ana Maurícia, mulher do capitão Vitorino José de Sequeira”[1] todos residentes na dita Matriz. O estatuto social dos padrinhos e o facto de ter ido estudar para Paris indiciam que o seu agregado familiar era detentor de bons recursos financeiros, certamente provenientes dos negócios a que se dedicava o progenitor, importando grossas e variadas mercadorias do Brasil (“sacas de arroz”, “açúcar branco”, “açúcar mascavado”, “barris de mel”, “eixos para carro”, “meios de sola”), de Cuba (“paus de campeche”), dos Estados Unidos (tecidos), do Senegal (“caixote de goma” e “barbante”), de Hamburgo (tecidos e pregos), da Inglaterra (tecidos, agulhas, ferro, chapéus, louças, caldeirões, broxas, pincéis, barris de pregos, rolos de arame), e, embora em menor escala, exportando “pipas de vinho comum” para Hamburgo e São Petersburgo[2].
Após a sua formatura na capital francesa, o Dr. André Avelino veio trabalhar para Ponta Delgada, talvez influenciado pelo colega de curso e amigo íntimo, o micaelense Dr. José Pereira Botelho, que, igualmente, foi médico de elevado renome.
Estabelecido na ilha de São Miguel em 1836, foi médico do Hospital da Misericórdia e professor das cadeiras de Patologia, Matéria Médica e Terapêutica da Escola Médico – Cirúrgica de Ponta Delgada que funcionou de 1839 a 1844. O preâmbulo do decreto de extinção – de 20 de Setembro de 1844 – invoca, como principal motivo da supressão, “a urgente necessidade de diminuir as despesas do Estado quanto for compatível com o bem do serviço público”. Nos cinco anos de funcionamento, aquela Escola habilitou, conforme escreveu José Silvestre Ribeiro, “alguns licenciados menores que, ou se estabeleceram nas freguesias rurais da ilha de São Miguel, ou foram fixar a sua residência no Brasil”. Segundo aquele historiógrafo, “era útil uma tal classe de facultativos nas povoações rurais”, até porque, como já haviam falecido “alguns dos que se tinham habilitado, experimenta-se falta de um serviço que ao menos aproveitava a localidade onde não pode haver facultativos de outra ordem”. Da mesma opinião era o governador civil daquele distrito, Félix Borges de Medeiros, que no seu relatório de 8 de Outubro de 1862 pedia o restabelecimento daquela Escola, lembrando ao Governo de Lisboa que o Hospital de Ponta Delgada podia servir de prática aos alunos de medicina e estes, de futuro, “na qualidade de cirurgiões menores”, iriam “prestar serviços à humanidade, pois ninguém ignora que muitos lugares há onde não se encontra, nem pode acudir de pronto qualquer facultativo”[3]. Idêntico pedido de restauração da referida instituição foi apresentado pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada à Câmara de Deputados em 20 de Janeiro de 1864. Também não houve deferimento …
Entretanto, o Dr. André Avelino, sem deixar o exercício da medicina, em 1858 foi nomeado Comissário de Estudos no distrito de Ponta Delgada e, de acordo com a lei então vigente, assumiu o lugar de Reitor do Liceu daquela cidade, cargo que exerceu durante 10 anos, até falecer. Nesta qualidade, proferiu anualmente os discursos da abertura das aulas, acto a que imprimia muita solenidade e onde expunha as suas ideias pedagógicas. Todos esses discursos foram impressos, o mesmo sucedendo à sua “Thése pour le doctorat en Médecin. Diagnostic differentiel entre l’hemorragie et le ramolissement cerebral” (Paris, 1836) e à “Memória acerca de dois casos de febre amarela observados no Hospital da Misericórdia de Ponta Delgada” (1858).
Possuía vasta cultura literária, tendo sido conhecedor de clássicos latinos e portugueses, além de se haver familiarizado, pela sua demorada permanência em Paris, com escritores franceses de nomeada, designadamente com os seus predilectos Chateubrian e Lamartini. Crítico musical e jornalista prolixo, foi com o Dr. João José da Silva Loureiro, redactor do “Correio Micaelense”, sendo ainda colaborador de outros jornais.
Sócio correspondente da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, foi presidente da Sociedade dos Amigos das Letras e Artes, fundada por António Feliciano de Castilho, e membro da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense.
No generoso testemunho que dele deixou, o grande jornalista Francisco Maria Supico sublinha, a par da sua elevada reputação profissional, o seu “carácter íntegro, génio alegre, coração bondoso; e dado aos prazeres culinários, era, nas boas mesas, um dos comensais de maior jovialidade”[4].
Faleceu com 61 anos de idade em 21 de Outubro de 1869.
[2] Colhi estes elementos em Costa, Ricardo Manuel Madruga da – Os Açores em finais do regime de Capitania-Geral, 1800-1820, vol. II, pp. 164 a 371












